Crianças Selvagens - 02

Por Claudio Henrique Vila Nova.


II - A Igreja.


Quando eu era menino, minha família ia religiosamente à igreja aos domingos. Eu nunca entendi muito bem o que acontecia lá, o padre falava um monte de coisa, alguns adultos com dificuldade de leitura liam alguns textos e no final eles comiam a hóstia e sempre que eu tentava comer eles me diziam que a hóstia não era pra crianças. Eu não ligava de ir pra igreja, gostava de sair de casa e colocar uma roupa bonita, meus pais nunca me obrigaram e eu nunca sequer pensei em não ir. A coisa era um pouco diferente com o Nerd.

O Nerd entendia alguma coisa daquela igreja que eu não conseguia entender, ele lidava mal com o tédio todo da missa e parecia contrariado sempre que ia. As vezes ele lia algum texto também, aparentemente o pai dele pedia pra ele ler porque ele lia melhor que os adultos. Mas talvez, pedir seja a palavra errada. O pai dele quase não batia nele, o que naquela época e naquele lugar era realmente uma coisa impressionante. Até o meu pai me batia e olha que ele era bem tranquilo. O pai do Nerd não era tranquilo. 

Depois de um tempo eu descobri que o Nerd nunca fez questão de ir pra igreja e que na verdade ele fazia muita questão de não ir. Ele odiava a igreja, as pessoas lá dentro e a relação entre elas, o que era dito lá e o que era dito do lado de fora. Na casa do Nerd, aos domingos, seu pai gritava religiosamente. Dizia que não ia rezar pela alma do filho, que ele iria pro inferno e essas coisas. O Nerd nunca acreditou nisso e uma vez me disse que se o céu estivesse mesmo cheio das pessoas que vão pra igreja, ele preferia ir pro inferno. Mas ele ia pra igreja.

O Nerd não tinha muito medo de deus, mas morria de medo do próprio pai. Eu entendi esse medo um pouco melhor quando ouvi algumas histórias do irmão dele e agora que sou adulto acho que ter medo do próprio pai na verdade é uma coisa bastante católica. O Nerd acabou secularizando a doutrina que seu pai lhe ensinara e provavelmente era muito mais católico que todo mundo naquela igreja, ele só não acreditava na parte mágica da coisa toda e nem na salvação. 

Na sexta série o Nerd era um ótimo garoto, com um futuro promissor e essas coisas. Isso não durou muito. Quando ele saiu da igreja e entrou pro mundo ele descobriu que no mundo, uma criança inteligente e sem escrúpulos é capaz de qualquer coisa e ai ele arrancou os próprios escrúpulos com as mãos. O Nerd era muito bom em fazer o que precisava ser feito e foi isso que eventualmente acabou com ele, mas esse capítulo é sobre a igreja. 

O pai do Nerd era ministro, a namorada dele era da pastoral da criança e isso significava que ele se envolvia muito mais com as coisas da igreja do que eu. Eu só ia lá aos domingos. Não era sempre que a gente se via por lá. As vezes, ele ia na igreja de outra cidade. 

A namorada do pai dele tinha família em uma cidade grande que ficava à duas horas de viagem e o pai dele ia religiosamente, a cada quinze dias, com a namorada pra lá. Assim como ele gritava pra que o Nerd fosse pra igreja, ele gritava pra que o Nerd fosse junto na viagem também. E assim como o Nerd odiava ir pra igreja, ele odiava ir pra casa da família da namorada do pai dele. E religiosamente, ele era forçado à ir. 


Crianças Selvagens - 01

Crianças Selvagens.

Por Claudio Henrique Vila Nova.


I - O meu Trio.


Sabe, uma das coisas que interessante quando você é um garoto que não tem literalmente nenhuma personalidade e é completamente medíocre em tudo que você faz é que você passa despercebido em quase qualquer lugar. Nem sempre isso é bom, mas as vezes é ótimo. Eu cresci em uma pequena cidade onde a lei chegou no máximo uns dois ou três anos antes de mim. Eu não nasci lá e cheguei lá no mesmo dia que um outro garoto. Essa história é sobre ele, como ele viveu e o dia em que ele morreu. 

Eu não vou escrever o nome dele, um pouco porque não importa e outro pouco porque eu não quero. Mas ele tinha um nome pouco comum que se escrevia de um jeito pouco comum. Quase sempre que alguém perguntava ele soletrava primeiro e dizia o nome depois. Raramente alguém que ouvia era capaz de escrever corretamente e ele preferia evitar o trabalho de falar quando sabia que não ia ser entendido. O pessoal chamava ele de Nerd.

No começo chamavam ele de Brinquinho, diferente de mim ele tinha vindo de uma cidade maior e não se parecia em nada com os outros meninos dalí. Era um garoto de cabelos cacheados, escuros e compridos, se você olhasse pra ele de longe era um pouco difícil de saber se ele era um menino ou uma menina, mas mesmo de longe dava pra ver o brinco dourado na orelha esquerda que indicava que ele não era uma menina. Meninas usam brincos nas duas orelhas e naquela cidade, nenhum menino usava brinco. 

Ficamos amigos bem rápido, acho que a coisa de ser crianças que se mudam muito acabou nos unindo. A gente não tinha quase nada em comum e aos poucos fomos nos tornando carne e unha. A gente não ia a lugar nenhum sozinhos e fui eu quem convenceu ele a tirar o brinco, sugeri que ia ser mais fácil de ser aceito e evitar virar um dos excluídos se ele parecesse um pouco mais com o resto dos meninos dali. 

Pra além do brinco ele também usava roupas um muito maiores do que o seu tamanho e um óculos que tinha mesmo a mesma expessura do fundo de uma garrafa. Na falta de um brinco na orelha esquerda e de um nome fácil de pronunciar ele acabou virando o Nerd. Porque além da cara, todo mundo descobriu bem rápido que ele também tinha as melhores notas da turma o que irritou mais gente do que a gente foi capaz de entender na época. 

Só tinham duas pessoas que competiam com ele nas notas, um menino que não falava quase nada e que o pessoal chamava de Flash e Marília - que pra mim, era a menina mais bonita da sexta série. 

Só que o Nerd tinha um problema muito maior do que ter irritado muita gente, ele era menor que todo mundo. Aparentemente, ele era tão bom na terceira série que a escola da cidade onde ele morava na época decidiu mudar ele de série na metade do ano. Ele me contou que perdeu muitos dos amigos da terceira série e que precisou brigar com um menino da quarta depois disso, porque ninguém aceitava direito que as coisas fossem diferentes com ele. Ser diferente é difícil. Ser um ano mais novo do que todos os colegas não faz muita diferença antes da puberdade e faz uma diferença desgraçada quando ela começa a chegar.  

Por sorte, no mês seguinte mais um estrangeiro tinha acabado de chegar na escola e ao contrário do Nerd ele tava indo muito bem na coisa toda da puberdade. O Kleiton era um menino forte e um ano mais velho, ele era o menino mais forte da sexta série, ele era bom em todos os esportes e tinha o corpo de um atleta mirim. De muitas maneiras ele o Nerd eram mais ou menos opostos polares. O Nerd era branco feito papel e o Kleiton era marrom da cor da terra. Enquanto o Kleiton tinha todos os músculos muito bem desenvolvidos e era bom em todos os esportes o Nerd era ridiculamente franzino e ficava nervoso sempre que encostava em uma bola, que era a parte principal de todos os esportes na época. O Kleiton era um garoto, de cabeça raspada e roupas apertadas que aproveitava com gosto todas as oportunidades que tinha de usar o mínimo de roupa possível. O Kleiton também era bastante inteligente e nenhum pouco carismático e era bem difícil entender porque é que os dois passavam tanto tempo juntos. Talvez pelo mesmo motivo que eu fazia questão de acompanhar os dois, eles eram diferentes e assim como eu, tinham acabado de chegar.

A gente se equilibrava, o Nerd conseguia resolver quase todas as coisas com carisma, até hoje acho que nunca conheci uma criança tão desenrolada. O que não dava pra resolver com carisma o Kleiton resolvia na força. E o que não dava pra resolver de nenhum outro jeito eu resolvia fazendo o possível pra que não nos encontrasse.

Eu acho idiotice que os festivais exijam que os filmes fiquem escondidos do público.


Não sei quantas vezes eu já escrevi um texto pra postar aqui com esse filme e todos eles me parecem funcionar e não ao mesmo tempo. Talvez eu tenha um pouco de dificuldade em compreender o que eu quero dizer junto com esse filme, mas agora ele tá pronto e acho que é importante colocar ele no mundo. Talvez eu não queira dizer nada. 

Quando defendi o meu trabalho de conclusão de curso tinha muita gente na sala, muita gente chorou e eu estourei o tempo da apresentação em uma meia hora. Falo muito e gosto de pensar que não exatamente de maneira verborrágica, gosto de pensar que as minhas palavras significam alguma coisa, acho que alguma coisa fundamental estourou na minha cabeça naquela maldita aula de semiótica onde eu descobri que não sabia ler. A Mônica chorou depois da minha defesa, falou do quanto me achava maneiro e eu fiquei bastante surpreso - não sabia que ela sequer tinha me notado quando fui seu aluno. Foi na disciplina dela que descobri o valor de carregar comigo um caderno e foi na resposta dela à minha monografia que ouvi uma coisa bastante interessante. Em algum momento a fala dela demonstrou uma certa surpresa. Não fazia sentido pra ela que justamente eu - um dos sujeitos menos capazes de calar a boca que já andou por cima dessa terra - tivesse decidido escrever uma história sem nenhuma palavra. Eu não me lembro exatamente quais foram as palavras que escaparam de mim ao ouvir isso mas lembro um pouco do sentimento.

Eu não gosto de falar muito, falo pela deficiência da linguagem e porque depois que eu começo as palavras escapam de dentro pra fora e se conectam de maneiras que não são exatamente planejadas e se projetam pra frente e se agarram em outras palavras guardadas e puxam umas às outras pra fora arrancando de mim coisas que sequer eu sabia que existiam ali. Falo muito e talvez eu goste bastante de me escutar e ao mesmo tempo as vezes eu canso da minha voz, das minhas palavras, da estrutura lógica do meu pensamento e da minha necessidade esquisita de expor da maneira mais bem articulada possível tudo o que carrego dentro de mim. A verdade é que eu não quero escrever sobre esse filme, quero que ele seja visto e gostaria muito que alguém que não sou eu falasse sobre ele. 

Eu quero ouvir mais do que falo ao mesmo tempo em que aceito o bebe chorão e inquieto que eu também sou. Enfim, tá aqui o filme!



As vezes eu me pergunto como deve ser existir como outra pessoa.

 Hoje eu não vim aqui pra mostrar nada meu. Não é segredo pra ninguém que eu sou um maluco das artes. Os videogames e os quadrinhos me arrebataram muito cedo e se você já conversou comigo por tempo o suficiente você sabe o quanto essas e outras mídias são importantes pra mim. Eu nasci no meio dos anos noventa e quando eu chegue na internet ela era muito diferente de como é hoje, ninguém se acumulava em lugar nenhum e a metáfora de navegar fazia muito mais sentido do que faz hoje - tanto que hoje em dia ninguém mais fala em navegar na internet. Nos anos 2000 a internet era um lugar ridiculamente entediante, sem nenhum tipo de estrutura mental maluca feita pra mexer com os nossos cérebros e nos fazer sentir felizes e recompensados do jeito nojento e grotesco que só as mídias sociais de grandes corporações capitalistas são capazes de fazer. Houve um tempo em que a internet era autogestionada e os sites eram geridos pelos próprios usuários e de vez em quando, de link em link a gente encontrava alguns tesouros maravilhosos.

Foi navegando pela internet que eu encontrei desenhos de naruto e dragon ball que permeavam a minha imaginação por meses, na casa do Gabriel editávamos desenhos usando o paint, mudando as cores das roupas, dos olhos e fazendo pequenas mudanças nos nossos personagens favoritos. O Gabriel na verdade era um dos meus grandes amigos criativos da adolescência, desenhamos nosso próprio cardgame que só a gente jogava, o Jac-Gab-Oh! A gente era bastante competitivo no Yu-Gi-Oh! da época mas as cartas prontas não eram o suficiente pra nossa imaginação e nem pro nosso senso de estratégia. Cada duelo contava com novas cartas, novas mecânicas e novas maneiras que buscávamos de contra-atacar as melhores invenções um do outro. Naquele tempo a internet e o mundo pareciam um pouco mais mágicos e misteriosos e a gente se divertia como podia, baixando 100MBs por dia e assistindo episódios super comprimidos de Naruto em RMVB.

Foi a partir do antigo Naruto Project que eu encontrei Full Metal Alchemist e fui aos poucos me embrenhando nos mundos do quadrinho japonês. Encontrei os primeiros scanlators brasileiros e li traduções amadoras de Claymore, Hajime no Ippo e uma porrada de outras coisas que foram importantes pra mim. Passeava de site em site em busca dos tesouros que só a internet poderia oferecer. Depois foram chegando os primeiros agregadores e o resto é história. 

Eu não lembro muito bem quando foi, mas a internet já tinha mudado, as grandes empresas já tinha chego e ainda não tinham começado o seu processo de monetização do que antes era um espaço gratuito e eu me encontrei pela primeira vez com um canal do YouTube chamado SuperEyepatchWolf - o super lobo de tapa olho, pra quem não lê inglês - nessa época a gente já tinha algumas propagandas pequenas que apareciam em texto fora da área do vídeo e de alguma maneira esse canal me lembrou um outro tempo na internet e tenho visto os vídeos de lá desde então e me sinto feliz toda a vez em que aparece um vídeo novo e corro pra ver sempre o mais logo e com o máximo de atenção possível. Nem sempre eu consigo ver tudo de uma vez só mas sempre fico feliz quando termino.




A verdade é que com uma frequência muito maior do que eu gostaria de admitir eu penso em desistir de tudo e quando eu digo tudo eu quero dizer tudo. Eu decidi que eu não vou morrer por escolha e isso não significa que eu parei de querer. Por muito tempo tentei encontrar um motivo pra viver fora de mim e no fim das contas não deu muito certo. E de repente, encontrar um maluco na internet que é capaz de falar com tanto amor sobre tantas coisas como esse cara faz me dá um pouco de vontade de ser um pouco como ele. Ser capaz de amar tanto ao ponto de me dedicar como é visto que ele se dedica e me emocionar como sinto que ele se emociona e de talvez um dia conseguir fazer algo que faça alguém se emocionar e pensar e sentir e acreditar que a vida é bonita e que ela vale a pena. E é assim que eu me sinto quando vejo o SuperEyepatchWolf falando sobre as coisas que ele ama e as vezes queria poder encontrar com ele e sentar em um gramado e perguntar como é pra ele viver o resto da vida. Se ele também se sente sozinho e essas coisas. 

Esse cara da internet é um dos motivos de eu acreditar que ainda existe algo a se fazer nesse espaço, porque de verdade ele me inspira e porque me faz sentir que talvez tenha mesmo algo de bom pra se fazer por aqui. Sei lá, ultimamente todo texto nesse blog tem virado algum tipo de desabafo. Me pergunto as vezes como vou me sentir lendo isso daqui a uns anos. Enfim, esse foi o último vídeo do canal em questão e ele me deu muitas ideias e muita vontade de fazer e ser mais do que eu faço e sou, é em inglês mas as traduções automáticas de legenda tão cada vez melhores e talvez dê pra todo mundo assistir. Acho que é isso. 



Desenho em fluxo de consciência.

 É um pouco esquisita a sensação de gostar do que machuca. O limite entre o prazer e a dor já é esquisito normalmente e a coisa toda complica um pouco mais quando se é um pouco sádico. Não é todo mundo que sabe, mas o que eu não tenho de visão do presente no meu olho esquerdo eu tenho de visão no futuro. Presente de Apolo. 

Passei um tempo muito maior do que gostaria de admitir em pânico. Saber do futuro não é tarefa simples, aprendi a duras penas que é impossível segurar o tempo com as mãos e descobri que o único motivo de evitar algum fim é mudar de caminho. Não enxergo o fim do caminho em que ando e isso me deixa menos maluco. Ver o futuro é uma mistura bastante esquisita de dom com maldição, talvez todas as coisas sejam. 

Deslocar o olhar não é uma habilidade muito difícil. A verdade é que fazer mágica não é muito complicado, só tá fora de moda no capitalismo tardio. Um pouco ruim quando a sua principal habilidade é mágica. Nada de mais se você não liga muito pra isso. Aprendi a encantar desde cedo e empreendo um esforço profundo pra não encantar sempre que posso. Não gosto de me encantar também, sempre que faço me arrependo, fiz duas vezes só.

Tenho experimentado bastante com o desenho e tenho desenhado bastante coisa de trabalho também. Tenho pensado em parar de trabalhar com desenho. Não acho que escrevi isso aqui mas voltei pro interior faz um tempo e tô mais em forma do que nunca. Tenho lido o capital também e feito yoga e exercícios quase todos os dias. Não sei, cansei de não fazer tudo o que posso pra me transformar na pessoa maneira que eu sempre quis ser. Já faz um bom tempo que venho me esforçando, tô a um bom tempo em análise, o yoga eu comecei a uns dois ou três anos e as leituras fazem parte de um longo processo de formação intelectual que venho fazendo sozinho também já a um bom tempo. 

Vivi o suficiente pra saber que a única coisa que preciso fazer pra ser bom no que quero ser bom é fazer isso até ficar bom. Foi assim com o desenho.

Dia desses olhei pra uma das páginas de um livro de poesia que tô ilustrando e pensei comigo que qualquer um pode não gostar do que eu faço mas que ninguém pode dizer que eu não sei o que eu tô fazendo. Não gostar do que eu faço é não gostar das minhas escolhas porque a essa altura do campeonato eu sou capaz de afirmar que pelo menos no desenho a minha execução normalmente corre entre boa e ótima. Meu olho esquerdo me diz que seguindo nesse ritmo, talvez em uns cinco ou seis anos eu consiga tirar da cartola umas paradas no pique do que o Kim Jung-Gi fazia.

Não consigo muito ver outras partes do meu futuro. Eu também enxergo intenções e essa é uma das coisas mais duras de ver pra mim. As vezes sinto como se enxergasse por de baixo dos panos e chorei copiosamente dia desses de frente com uma mentira. Prometi pra mim mesmo nunca mais deixar a minha versão mentirosa pilotar a minha cabeça. Nem que me peçam, nem por alguém que eu goste muito. Daqui pra frente apenas o Jaquinho agressivamente honesto escolhe as minhas palavras. 











































O problema do Alan Moore é que ele é um péssimo mágico.

Eu cresci pelas beiradas, onde esfria mais cedo. É por onde aprendi a comer as comidas mais quentes. Caminho converso e conheço por estradas becos e vielas e escuto e guardo comigo. Gosto de escrever porque é sempre tudo mentira e o grande problema da escrita é que em toda mentira cabe um pouco de verdade. 

Ultimamente tenho escrito, ilustrado um livro, planejado vinhetas animadas pra um documentário e letreiros pra outro. Também tenho tentado me manter mais fisicamente ativo, aprender a plantar, construir e me movimentar melhor. Tenho lido muito, pensado muito e fumado uma quantia moderada de maconha levando em conta minha vida até aqui. E pode ser que isso tudo seja mentira.

Talvez eu precise de um pseudônimo: Jaquinho Pessoa. Enfim, escrevo bobagens, mentiras e delírios. Dia desses assisti ao recital de uma pessoa que me ajudou com a trilha do Resigno e logo depois de apresentar cada uma de suas músicas, de uma maneira muito singela e gentil ela falava ao microfone: espero que gostem!


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A primeira vez em que alguém me explicou um devir eu quis dar um soco no Deleuze. 


A Karina vivia falando de yoga e meditação que era isso e aquilo e aquele outro e não sei que lá e eu nunca dava muita bola. Normalmente a Karina exagerava um pouco as coisas. Demorei a entender que eu precisava duvidar um pouquinho dela pra ajustar as expectativas. No começo eu nem queria ser amigo da Karina. A essa altura eu já tinha aprendido a distinguir bem direitinho quem vinha e quem não vinha do dinheiro. Ela vinha do dinheiro e se tornou uma das minhas amigas mais importantes.

Nunca me dei muito bem com o pessoal do dinheiro. Tenho um pouco de preconceito com gente que estudou em colégio particular nos anos 2000. Eu cresci na rua né, andando com ladrão e brigador, só tinha uma escola na minha cidade e eu não faço ideia de como um texto sobre yoga chegou até aqui. O ponto é: essa mulher vivia falando que yoga era a melhor coisa do mundo e ela vivia falando um monte de outras coisas também que não batiam cem por cento com a realidade e ai eu demorei um tanto a acreditar. 

Agora eu faço yoga, resolvi dar uma chance pra coisa. Funciona. 


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xis-coração-partido


Nas primeiras mordidas eu não entendo direito

tem alguma coisa diferente?

não, á igualzinho antes, não vai mudar nada

mastigo mais um pouco e alguma coisa me atinge

tá diferente sim, eu não quero esse, 

quero o de antes

mas não tem nada diferente, ainda é a mesma coisa

eu sei que não, antes, quando eu mastigava, nada sumia

antes, esse gosto na boca não era de ansiedade

antes, comer esse lanche não me deixava em pânico

tem certeza que não tem nada diferente?

sim, os ingredientes são os mesmos

e não mudou nada no preparo?

mudei... mas não queria te falar ainda

e o que mudou?

tirei um pouco do afeto

e os corações não estão mais inteiros

eu parti o seu coração

e aí eu sinto o gosto de todas as partes

todos os cacos, estilhaços, restos

a próxima mordida mal desce pela garganta

e com muita força engulo chorando de tristeza

sigo comendo assim por um bom tempo

até que mastigo com raiva

com medo, com dor, com nostalgia e com mais tristeza

mastigo com compreensão e com vontade de morrer

mastigo com vontade de matar também, mas essa eu escondo

não pega bem dizer essas coisas mesmo que seja verdade

na verdade a impressão que eu tenho 

é que ninguém gosta muito de verdade

tem um gosto amargo e nem sempre combina com a comida

bebo dois ou três goles de mentira pra assentar

e não funciona 

eu não gosto de mentira

pago as minhas contas com ressentimento e me retiro



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Essa não é uma ideia ruim de livro, um conjunto de delírios. Uma série de textos muito profundos e cuidadosos sobre os mais diversos temas, mesmo que a maior parte deles seja sobre a mesma coisa também. Pequenos trechos de uma continuidade que simplesmente não existe. Mas que deseja ser percebida. Uma espécie de livre associação literária sem qualquer compromisso com a realidade, a ciência, a moral ou qualquer outra coisa. Apenas texto, cru. Queria ser visto ao longo da minha vida inteira e conheço poucas pessoas que me conhecem tanto assim. Materialmente, através do tempo. A verdade é que essa coisa toda de Hegel e Marx tem uma sutileza que eu demorei um pouco à perceber porque é divinação, é profecia, é mágica ao mesmo tempo em que também é uma conjuração de representantes de classes e acho que esse é o meu maior problema com a política, a representação. 

Toda a linguagem da política representativa aparece como uma denúncia contra ela mesma, mas por algum motivo gente de mais insiste em continuar agindo dentro dessa lógica, porque ela parece boa, mas se teve uma lição que eu aprendi à duras penas é que ser e parecer são coisas bastante diferentes. Temos construído uma política ao redor de como as coisas se parecem e não ao redor de como as coisas são e acho que esse é o grande salto do materialismo na hora de compreender a sociedade e entender seus movimentos externos. Mas uma aplicação interessante dessa perspectiva também surge ao olharmos historicamente para o indivíduo, ignorando as suas subjetivações e percebendo ele como um sujeito histórico. 





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Meu pai disse que esse é um texto para pessoas inteligentes. 


Tá, mas e o Lula, será que o Lula é feliz? Será que o Lula acorda de manhã com um sorriso no rosto e se ele acorda sorrindo, ele acorda sorrindo por quê? Ele sorri porque a economia cresce? Ele sorri pelos investimentos na cultura? Ele sorri pelos genocídios em curso no brasil? Ele sorri pelo epistemicídio dirigido pelo estado? Ele sorri pelo povo baleado pelas forças de segurança? Ele sorri pelas lideranças indígenas assassinadas? Ele sorri enquanto ocupa o papel de quem dirige esse enorme trator de moer carne que a gente chama de estado brasileiro. Ele sorri enquanto desvia o trator dos militares, dos latifundiários e dos burgueses e passa por cima do povo sem dó. Povo ao qual a dó faz tanta falta que por vezes não é capaz de sentir dó de sí mesmo! Povo que acredita numa versão triste e secular de uma teologia da prosperidade empobrecida, que não é capaz sequer de ser devota a algum tipo de deus, uma teologia da prosperidade dedicada a uma prosperidade abstrata que só beneficia aos lideres dessa igreja idiota que a gente chama de estado. Uma prosperidade pela qual trabalhamos jornadas de trabalho exaustívas que corroem o nossos tempos, nossas vontades, nossas energias, nossos corpos e nossas imaginações. Viva! O PIB SOBE! TRABALHEM MAIS PRA QUE ELE SEJA MAIOR! VAMOS TER MAIS CARROS MAIS NOVOS E JOGAR OS VELHOS NUM LIXÃO! VAMOS EMBALAR MAIS COISAS, PRODUZIR MAIS PLÁSTICO E DESCARTAR TUDO NO LIXÃO! VAMOS NOS DEDICAR A PRODUZIR MAIS DE QUALQUER COISA, NÃO IMPORTA O QUE, DESDE QUE PRODUZA, O QUE FOR VELHO ATIRAMOS NUM LIXÃO! Se o Lula, calçando o sapato de quem  manda pisar na cabeça do povo, vestindo as roupas de quem manda pisar na cabeça do povo, negociando com quem manda pisar na cabeça do povo, pra decidir com que força e de que maneira vai pisar na cabeça do povo tá feliz, o Lula merece, com todo o respeito, que o povo lhe rasgue a cabeça e cuspa no seu cadáver. Porque qualquer um que fica feliz pilotando uma máquina dessas só pode ser um desgraçado incapaz de qualquer tipo de humanidade. 

Agora, vamos supor que o Lula tá triste, se ele tá triste, o que é que esse merda tá fazendo lá? Chorando enquanto passa o trator por cima das favela? Lamentando que a policia assassinou mais uma cacetada de gente de ontem pra hoje? Eu imagino o Lula limpando as lágrima com um lencinho enquanto um desgraçado passa fome porque nasceu na hora errada, no lugar errado e das pessoas erradas. Se esse desgraçado fica triste ao dirigir essa máquina porque é que ele não tá fazendo qualquer outra coisa? Porque que ele não tá sabotando essa merda de máquina de todas as maneiras possíveis? Se ele quer mesmo tanto que o mundo seja melhor, porque é que ele não tá fazendo todo o possível pra isso? Porque é que ele não tá parando essa merda de máquina? E se ele não o faz, porque é que deixamos que não o faça? Porque é que não lhe imploramos que destrua tudo? Porque é que não desejamos verdadeiramente o fim dessa sociedade independente das consequências? Porque é tão importante pra gente que os conservadores não chorem? Porque é que a gente liga se os milionários vão ficar bravos? Essa merda só da problema, a gente já sabe, toda a vez que uma quantia muito grande de poder é concentrada alguma coisa ruim acontece. Uma bomba atômica é um monte de poder concentrado, um governo é um monte de poder concentrado. E se a melhor alternativa é um cara que fica triste enquanto passa o trator por cima de biomas inteiros, intensificando a crise climática e as suas consequências em todo o território que ele governa, a gente vai muito mal. E a gente vai acabar de novo no pior.

Ou a gente destrói a máquina ou a máquina vai distruir a gente. E a gente precisa atacar de todos os lados, com todas as forças em todos os tempos. 



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Lágrimas escorriam dos olhos que olhavam sem objetivo. Na televisão passava um programa qualquer e eu observava das escadas. Nenhuma palavra teria resposta. Nada seria comunicado. Apenas mais um dia. 

De tempos em tempos lhe davam banho. Trocavam suas vestes. Mudavam sua pose. A resposta era sempre a mesma. Silêncio e lágrimas.

Uma estátua de sangue, carne e osso. Mistura confusa entre símbolo, memória e dever. 



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Eu venho de um lugar, onde as pessoas são ensinadas a confundir miséria com abundância. Confundir presídios de alta tecnologia com moradia de qualidade. Confundir uma geladeira cheia de produtos industriais com abundância de comida. Confundir uma lavoura com miséria. Confundir comer da terra com pobreza. Confundir ser bixo com ser ruim. Confundir resumir com conhecer. Confundir chorar com sofrer. Confundir sorrir com gostar. Confundir aguentar com ficar bem. Confundir um só com infinito.




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Tem gente no mundo, que não merece nem passar fome.




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Um doido me parou na rua e meteu essa.

- Mas escuta aqui um pouquinho, rapidasso! E se o defict de atenção for uma qualidade pra qual o capitalismo seleciona? E se a gente criou um mundo inteiro onde a melhor maneira de você estar vivo nele é se você não ligar pra nada! É só você não segurar nenhuma coisinha por nenhum tempo, nunca, de maneira nenhuma com a sua cabeça. O melhor jeito de andar nessa selva esquisita de verme mental, parasita, propaganda e marketing é ocê simplesmente desativar um pouquinho de cada um dos sentidos e fazer o possível pra se manter anestesiado do mundo ao seu redor. Vai num lugar barulhento? bota um fone! é até bom porque ai ninguém te incomoda. Tá cansado? Vê um filminho, um seriado! daqueles com tudo bem explicadinho pra tu saber bem das coisa, é até bom que ai tu não fica pensando em nada. 

- E se esse sofrimento todo que tu vive é o que te garante que tu tem um apartamento na cidade pra morar? E se não der pra morar numa cidade sem esse sofrimento todo? E se o ponto de uma cidade é que é o sofrimento que sustenta ela? E se esse prédio só existe porque os trabalhadores são explorados? E se esses computadores só ligam porque trabalhadores foram e são escravizados? E se tu só bebe o teu refrizinho porque o planeta é, está e continua sendo poluído? E se a cidade é um produto que só pode surgir do sofrimento e da desumanização da vida? E se a tecnologia, pra além de um facilitador do trabalho também for uma ferramenta de desumanização? E se o conforto for morfina? E se o conforto for morfina? E se o conforto for morfina? 

- Tu, com essa roupinha bonita ai, tu vive uma vida que só é possível com anestésico. Tu não te agarra a nada, não te prende a nada, não faz força pra nada. Tu só anda pelo mundo seguindo o fluxo pelo qual a cidade te empurra e é sempre bom e sempre gostoso e sempre confortável. As vezes tu vai parar fumando com teus amigos da rua, mais ou menos protegidos em uma casinha de salva-vidas na beira da praia em Itajuba II. As vezes, tu vai parar fumando com um esquisito que parece que veio da Jamaica na Coronel Pedro Osório em Pelotas. As vezes, tu vai parar fumando escondido dentro de um quarto. Muda o lugar, muda a coisa que fuma, o que não muda é o desespero, o que não muda é a falta de um lugar no mundo que só sente quem acha que viajar, ver amigos e se divertir é coisa de quem tem muito dinheiro e não de quem tem muito de todo o resto.

- Agora olha aqui pra mim e me diz o seguinte: E se essa miséria toda não for apenas o resultado direto de uma maneira individual e coletiva de ver e lidar com o mundo? E se essa tristeza toda, se esse mal estar todo dessa civilização for resultado direto dela, do seu tamanho, das suas possibilidades e do seu modo de existir. E se começar de novo for simplesmente muito melhor, muito mais fácil, muito mais divertido e muito mais engrandecedor? E se todo mundo só decidisse largar tudo de mão, aos pouquinhos, nem precisa ser todo mundo junto, a gente vai largando de mão. Foda-se essa merda dessa bolachinha, ninguém, namoral, ninguém precisa poder comer a mesma bolachinha em todos os lugares do mundo. Amigo, se tu não consegue comer a comida dos chineses, talvez você não devesse ir pra china mesmo. Sabe, deixa as pessoa vive onde da pra viver, do jeito que da pra viver, para com essa merda de botar ar condicionado em tudo cara! Porra se não dá pra trabalhar nesse lugar de tão quente que é ali, que ninguém trabalhe ali! Se não da pra morar nesse lugar sem que seja uma grande merda de cuidar, que ninguém more e se quiser morar que cuide. Deu de obrigar quem vive com menos a cuidar das coisa de quem vive com mais. Quem vive com mais que se foda! Se precisa envenenar a água pra ter coleção de roupa nova na renner todo ano que acabe as coleção de roupa nova! Pelo amor de qualquer coisa gente! Prestenção! Paara! Não pode que vocês seja tão burro assim de achar que da pra viver na cidade, comprando as coisa da cidade, fazendo as coisa da cidade, no ritmo da cidade, usando as marca da cidade, as palavra da cidade e achar que vocês vão construir o ecossocialismo! E aí assim! Ou tu diz assim "não, eu sou uma pessoa da cidade mesmo, eu não conseguiria viver uma vida onde eu tenho que me envolver nos trabalhos que envolvem a manutenção da minha própria vida! eu só consigo ser uma engrenagem numa máquina bem calibrada de destruição psíquica, física e espiritual. O resto é muito difícil pra mim, eu morreria se precisasse ser responsável pela minha própria segurança enquanto caminho pelo mundo sem a proteção de um carro, de um ônibus ou de uma polícia e eu tenho medo de mais da morte pra pensar em construir outro tipo de vida! Sequer imagino um mundo melhor! Acho utopias idiotas! Não vejo motivos pra imaginar um mundo melhor! Só acho muito bonitas as histórias do passado contadas pela perspectiva de quem destruiu todas as possibilidades além dessa!" ou tu para com esse papo de querer dizer que é radical. Tipo assim, pelo menos vamo nos respeitar de deixar bem claro pra todo mundo o que a gente tá fazendo. Liberal de merda. 

E ai eu olhava pra esse cara e não fazia ideia do que dizer pra ele de volta. Porque o desgraçado fazia sentido. Por sorte, ele não tava muito bem vestido, claramente não tinha muito dinheiro. Até tinha viajado bastante mas nunca pra muito longe, então não deveria conhecer muitas coisas. Já tinha andando entre ladrões e mendigos e deixou bem claro que conhecia a maldade e que era bom por escolha. Nunca tinha feito nada de muito importante na vida além de ter tido uma conversa transformadora aqui ou acolá com algum conhecido. Ganhou alguns prêmios com o seu trabalho, mas nunca o suficiente pra que pudesse viver sem trabalhar e com bastante dinheiro. Era um vagabundo e todos sabemos que os vagabundos é que devem estar errados, certo é quem trabalha. A gente aprende isso desde a escola e é o que se costuma dizer pra polícia quando a gente não quer apanhar: "sou trabalhador pôh!" Olhei no fundo dos olhos do maluco e disse: 

- Pode crer! 

E consegui ignorar sem precisar considerar qualquer coisa do que ele havia dito. Não tenho tempo pra isso. Tô atrasado pro trampo e preciso dele pra pagar as minhas parcelas.



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sabia o quão duro era prometer. se agarrava em suas promessas. firme. forte. até que veio a enchente, a enchente leva tudo, a enchente derruba, a enchente empurra, a enchente sobe, a enchente entra, a enchente não para - é soltar ou morrer                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              quebrou                                                                                                                                                                                                                                                                  só pode levar sua parte - sem remendo                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        segurou por muito tempo      e      soltou