As vezes eu demoro muito pra rever as coisas.

Por um motivo ou outro fazia um bom tempo que eu não olhava o rolo de fotos da minha câmera - acho engraçado como as palavras analógicas seguem sendo importantes mesmo quando as coisas ficam digitais. Percebi que esqueci muitas das fotos que fiz. Revi as fotos do encontro do MPA e achei pertinente escrever alguma coisa sobre. 



Acho que em algum lugar da caixa de fotografias do meu pai ainda existe uma foto de mim com uns sete ou oito anos na frente de uma bandeira do Movimento dos Pequenos Agricultores. 

Meu pai participou da organização por uns bons anos até passar no concurso da EMATER onde trabalha até hoje. Ele conta que em uma das manifestações ele e outros dez homens levantaram do chão o carro de um sujeito que tentou ameaçar os manifestantes com o veículo. Lembro de ele falar bastante sobre queimar pneus e de pastas de documentos importantes durante os primeiros anos dos quais eu lembro da minha infância. 

Meu pai se concentrou no trabalho e eu fui correr um pedaço do mundo. Perdemos um pouco o contato com o movimento e em algum momento pra mim o MPA acabou virando mais uma história do passado. Mal sabia eu que o movimento segue vivo, organizado e cheio de potência enquanto forma uma próxima geração de indivíduos engajados no trabalho de transformação social. 





Do ano passado pra cá fui a algumas reuniões do movimento e tenho aos poucos descoberto o que aconteceu no movimento nos últimos dez ou doze anos e o que vem acontecendo hoje em dia. Comecei a leitura do plano camponês e entre uma pesquisa e outra descobri que existem outros movimentos organizados da luta campesina. Movimentos que raramente ou quase nunca chegam nas pautas da imprensa tradicional e justamente por isso escapam do conhecimento e do imaginário popular. Imagina que eu com quase trinta anos, vindo de uma família de camponeses, com parentes assentados e tudo não sabia direito sobre as mobilizações dos trabalhadores do campo. E isso que eu sou estudado, fui pra faculdade e tudo. Me pergunto o quanto as pessoas que não tem contato com o campo sabem sobre essas coisas.

Meus próximos passos são um pouco nebulosos, acho que sempre foram e talvez continuem sendo até o fim da vida. Espero pelo menos conseguir ligar os faróis e poder ver melhor o que existe ao meu redor.


Dormir, sonhar e acordar de novo.

Voltei a uns dias pra casa e tenho ensaiado o primeiro texto do ano. Nunca fui muito de fazer a coisa de listas e resoluções e essas coisas. Houve um tempo em que a época me parecia um bom momento pra olhar pro passado e nesse momento não sei muito bem como me sinto sobre a coisa toda. Eu e Wal fizemos nossa primeira roadtrip e exceto por alguns contratempos mecânicos a viagem toda foi bem bacana. Não levei o computador pra viagem e ainda assim escrevi um pouco nesse tempo. Quase não desenhei e não fiz nenhuma animação.

Visitamos nossas mães, primeiro a dela e depois a minha, aproveitando os entretempos para encontrar os amigos de terras distantes. É engraçada a constatação de que com o passar do tempo as pessoas seguem elas mesmas, crescendo cada uma a sua maneira. Tava lá o Vicente falando de trabalho, Pedro casou, João ainda emana a mesma energia, Camille também, Geminy ainda perde o carisma, mesmo que tenha parado de fumar o Repolho ainda é o Repolho, Bibi ainda fuma e tá tentando reduzir, O Denis ainda tá quase sempre no Repolho, a Ivana tá com o cabelo mais comprido e o Nadico as vezes parece um tipo muito específico de bonsai de gente. 

Teve também as pessoas que não vi. Sobre as quais sigo me informando à distância. Não econtrei Ari, Gabi e Lucas não colaram no ano novo e não vi Bruna, não vi Jana e nem Angélica. Acho que mesmo sem encontrar continuo sabendo mais ou menos como elas são através de um ou outro momento que o fluxo de conteúdo digital me mostra. 

2025 foi com certeza um ano e como em qualquer outro muita coisa a conteceu. Gostei muito de como a coisa toda começou e foi divertido acompanhar o desenvolvimento. As vezes alterno entre ligar muito e ligar pouco pra como exponho minha vida na internet, exposição parece ao mesmo tempo divertido e perigoso. Gosto do caminho que minha vida tem tomado e não é sempre que me sinto cem por cento capacitado pra caminhar nele e ainda assim caminho. Pensei bastante sobre realidade, ficção e teoria e tenho como objeto de fixação recente a ideia de mídia. Minha primeira experiência com uma lavoura experimental não foi exatamente um fracasso e com certeza não foi um sucesso. Comecei a me envolver com os eventos e movimentos sociais da minha região e me percebi um tanto quanto mais direto e explícito nas minhas elaborações. Já fiz coisas difíceis antes e consigo fazer elas de novo. 

Treinei Muay Thai por uns meses e foi uma experiência legal. Senti um pouco de falta da energia trocação violenta entre amigos e depois de ficar um ou dois meses parado, meu corpo ficou bem mais fraquinho. Acho essa coisa toda de músculo e gordura e nutrição e carboidratos uma loucura. Comecei a prestar mais atenção no meu peso e na minha forma e sinto um tipo muito específico de nojo quando penso na coisa toda de ter, ser ou viver em um corpo biológico. Quer dizer que eu consigo contrair um pedaço de carne e que se ele não estiver sendo usado ele encolhe e eu excreto excesso de peso pela respiração? É esquisito também reparar nos modos como a fome aumenta ou diminui de acordo com a atividade, acho legal também pensar na coisa toda da nutrição e de o que ou como comer de acordo com as necessidades do dia. Mesmo que eu ainda não saiba muito sobre nutrição. Soquei o nariz de alguém esse ano e acho que a parte legal do esporte é que no final não fiquei com medo de que alguém me emboscasse na rua. Também é muito esquisito porque apesar de ser muito mais seguro trocar soco sem óculos perco uma quantia considerável da minha capacidade de esquiva quando não consigo olhar o rosto da outra pessoa. Tenho pensado em comprar um daqueles óculos esportivos de jogadores de rugby. Fiquei um tempo sem alongar também e é muito ruim ficar com o corpo todo duro. Lí alguns livros e pensei muitas coisas, não sou uma daquelas pessoas super estudantes dez mil leituras e sempre tô lendo alguma coisa ou outra, um pouco de teoria, um pouco de ficção e gosto bastante da coisa toda. Tenho escrito progressivamente mais também e acho isso bastante positivo. Comecei a trabalhar alguns projetos novos de quadrinho e animação e aprendi bastante. Noivei e vivi muitas aventuras e sorri e corei e senti muitos sentimentos gostosos e difíceis e espero que a vida continue. 

Acho que pra esse ano quero continuar tudo o que já comecei, aprender, treinar e me dedicar no, na e com o desenho, a terra, a Wal e o mundo ao meu redor. Tenho um roteiro pra terminar e um galinheiro pra construir, quero trocar o forro de casa e levantar o piso da cozinha. Quero fazer mais do lado de fora e usar bem meu tempo do lado de dentro. Quero ficar cada vez mais cuidadoso e afiado nas minhas práticas e acho que quero ganhar um pouco mais de dinheiro também, que é um dos recursos que tenho um pouco em falta. 

No fim escrevi um texto de ano novo. Acho um pouco engraçada essa coisa toda de livre associação. O intuito inicial era trazer aqui o pouco que escrevi durante esse período de recesso e quando parei pra ver percebi que eles ainda não acabaram e acho que isso é um bom sinal. Por um longo tempo tive um tipo esquisito de dificuldade em dar continuidade às coisas que escrevo e agora sinto que preciso de um pouco mais de espaço pra colocar em palavras todas as coisas necessárias pra que os textos cheguem ao fim.  Começamos mais um ano.

Não é de hoje que eu aponto que racismo precisa ser assunto de branco.

O conceito de raça como a gente entende hoje em dia é um negócio super recente na história da humanidade e foi elaborado a partir da construção de um coletivo entendido e denominado por algumas pessoas como branquitude. Esse coletivo tem limites imprecisos e suas expressões mudam bastante de acordo com fatores geográficos e econômicos. Ao mesmo tempo, sua expressão independente de fatores geográficos e econômicos carrega em seu cerne a ideologia racista. A ideologia racista é o elemento constituinte da separação humana entre os brancos e não-brancos. O racismo é uma expressão da ideologia racista - entendendo ideologia como o conjunto de elementos que formam a visão de mundo de um sujeito - e ele pode se manifestar de maneiras conscientes e inconscientes. A expressão sociopolítica do racismo é o que se convencionou chamar de racismo estrutural, um conjunto de faltas, dificuldades e impedimentos de ordem pública que fazem parte da fundação das sociedades racializadas, que organizam os mais variados campos da vida em sociedade e que afetam de maneira positiva as pessoas entendidas como brancas em detrimento das populações não-brancas. 

O racismo é o elemento comum que faz com que um sujeito que nunca roubou nada seja seguido por seguranças em lojas quase sempre que pisa em uma e com que outro que rouba ocasionalmente nunca tenha se percebido vigiado. Também é o racismo que faz com que o segundo que não se percebe vigiado acredite que a vigilância não exista mesmo quando o primeiro à descreve. 

Em um indivíduo a branquitude se expressa como quase tudo a partir da fala, da produção de sentido e de uma certa perspectiva que entende a sí mesmo como norma em todos os aspectos que compõem o entendimento de humanidade. Para um sujeito formado dentro de um sistema ideologicamente racista o corpo branco é o corpo normal, a fala branca é a fala normal, a religião branca é a religião normal e assim por diante. Para o sujeito que carrega nas entranhas o germe do racismo as vantagens que ele possui dentro de um estado racista são vistas como a norma, o racismo pode até escapar pela boca mas são os olhos e os ouvidos que ele controla. Por vezes a ideologia racista pode até ser capaz de permitir que um sujeito de dentro da esfera da branquitude perceba o efeito negativo da ideologia racista no negro e é a mesma ideologia racista que as vezes faz do branco psiquicamente incapaz de aceitar que ele talvez não esteja onde está porque mereceu.

Para o sujeito que carrega o racismo em si seu próprio racismo é invisível. Afinal ele não compreende o outro como diferente, compreende o outro como fora do normal - como errado. Como também não compreende o outro como indivíduo que faz parte de um coletivo. Para o sujeito que carrega o racismo o outro é sempre uma expressão do grupo do qual faz parte e apenas isso o sujeito que carrega em sí o racismo tem dificuldades em diferenciar os indivíduos que entende como não-brancos. E o racismo é muito mais do que a sua expressão individual.

O racismo é um conjunto de práticas históricas que resultam em um modo de vida e muita gente já escreveu muito mais e muito melhor do que eu sobre isso. Tem o Franz Fanon, tem o Martin Luther King,  tem o Malcon X, tem a Angela Davis, tem a Conceição Evaristo, tem a Bell Hooks, tem o James Baldwin e eu tô jogando aqui pra cima os nomes que tão mais na boca do povo e é um pouco engraçado notar a internacionalidade deles O movimento negro brasileiro tá aí a uma cota também e mesmo na internet a gente vai ter figuras como a Anielle Franco que também tá na política institucional, o Chavoso da Usp e o Jones Manoel que são figuras de fácil acesso. Acredito que todas as universidades possuem em seus acervos pelo menos uma pesquisa ou outra que elabora a partir das mais variadas perspectivas sobre o tema. O que eu quero dizer é que não é difícil saber mais sobre as organizações da ideologia racista se você quiser de fato saber mais sobre ela, principalmente se você sabe ler ou tem acesso à internet.

E é ai que vem a expressão do racismo que mais tem ocupado a minha cabeça no momento: percebo nas pessoas racistas, mesmo as mais progressistas uma dificuldade gigantesca de se perceber como sujeitos em um sistema racista; uma dificuldade em admitir o peso da posição que ocupam; uma dificuldade em constatar, aceitar e compreender a realidade do sistema racial que organiza a sociedade como um todo. Percebo nos sujeitos racistas uma certa negação de que a branquitude possa de qualquer maneira  ter informado ou feito parte da sua formação coletiva. Percebo naqueles afetados desde cedo pelo racismo uma certa dificuldade de perceber esta própria afetação. Infelizmente não existe um óculos ou um fone de ouvido que seja capaz de desfazer as ilusões impostas à esses sujeitos ao longo do cultivo de suas vidas. E as perguntas que me faço como alguém que acredita no potêncial de transformação dos seres humanos são as seguintes: Como um sujeito percebe o racismo em si? Essa percepção é o suficiente para que se inicie um movimento de transformação? Como um sujeito remove o racismo de sí? Como esse processo pode ser feito de maneira coletiva?

------------------------------------------------------------------------------------------



Este texto não consta.

--------------------------------------------------------------------------------------------------



Este texto não consta.

------------------------------------------------------------------------------------------------------



Ficção em primeira pessoa.

A algumas semanas atrás assisti embasbacado um tio falando da escravatura e de seus reflexos contemporâneos com um tom de encanto na voz que um sujeito melhor do que eu talvez tivesse respondido com um soco. A coisa toda ficou um pouco mais bizarra quando ele decidiu explicar para uma mulher negra o quão legal eram as charqueadas e o modo como o trabalho escravo era organizado no local e eu me peguei ali, assistindo aquela cena bizarra sem oferecer nenhuma resposta. Nesse dia, a esposa do sujeito interviu pedindo à ele que se retirasse e nas últimas vezes que o vi ele se resguardou à só fazer comentários racistas com relação às populações indígenas. 

Algumas semanas atrás assisti embasbacado um tio falando da escravatura e de seus reflexos contemporâneos com um tom de encanto na voz que um sujeito melhor do que eu talvez tivesse respondido com um soco. A coisa toda ficou um pouco mais bizarra quando ele decidiu explicar para uma mulher negra o quão legal eram as charqueadas e o modo como o trabalho escravo era organizado no local e eu me peguei ali, assistindo aquela cena bizarra sem oferecer nenhuma resposta, a mulher apontou que achava a coisa toda das charqueadas um tanto insensível com a escravidão. E a esposa do sujeito interviu pedindo à ele que se retirasse, nas últimas vezes que o vi ele se resguardou à só fazer comentários racistas com relação às populações indígenas. 

Talvez eu seja mais um dos desgraçados que carrega a fragilidade branca por cima dos ombros. No aniversário da minha noiva um outro tio decidiu fazer uma série de comentários racistas e eu senti em mim a ambiguidade. Um desconhecido da minha idade talvez não tivesse terminado a primeira piada sem ser atingido por um soco. O irmão do meu pai falou tudo o que queria sobre a aparência de pessoas negras na minha frente sem ser interrompido. Quando apontei o desconforto, a feiura e a seletividade das palavras ele seguiu com uma justificativa igualmente racista, minha esposa se retirou e eu ainda fiquei ali por um tempo com um misto de surpresa e raiva até decidir também me retirar da interação. Minha tia é mulher e bater em uma mulher racista talvez seja predicado da minha noiva e não meu. A tia tentou concertar o racismo com uma versão mais amigável de racismo e eu honestamente não soube como responder. 

Eu acho a coisa toda ultrajante e me causa um tipo muito específico de repulsa que se choca diretamente com o mesmo pensamento todas as vezes: báh, fazer o que eu queria aqui vai se pá vai dar um merdão pro meu pai. E sei lá meu pai justifica um pouco a ignorância e a postura deles com o histórico da família e ao mesmo tempo em que sei que as experiências de formação são parte importante na formação de um sujeito também sei que essas são todas pessoas adultas. Conheço um monte de gente que cresceu em ambiente merda e que nem por isso se comporta como um pedaço de bosta e talvez essa tenha sido a gota que faltava pro meu copinho transbordar. 

------------------------------------------------------------------------------------------------------------



Tava conversando com a Wal esses dias sobre essa coisa toda e quando perguntei pra ela sobre as maneiras de se libertar um opressor ela me disse de maneira categórica: Você não pode ser um oprimido. Demorei um pouco a entender e ela me disse que pra ouvir algo de alguém em primeiro lugar é necessário respeito e é costumas que alguém que ocupa uma posição de opressor não respeite alguém em uma posição de oprimido. E fazendo a volta pra pensar, sinto que quem ouvi apontar pela primeira vez o racismo em mim,  foi Isis e acho mesmo que uma coisa que eu sempre tive por essa pessoa foi respeito. Lembro do choque e da grande sensação de "eu não tinha visto isso" que bateu em mim e ai me surge a pergunta, como é que se constrói respeito. Será que alguém já escreveu sobre isso? 

Quanto mais o tempo passa mais eu percebo o tamanho das coisas que não sei, existe um sem fim de informações, ideias e estruturas de pensamento que desconheço e a cada passo em frente percebo com uma mistura de animação e terror o tamanho da escuridão. Falanges avançam em direção os limites do conhecimento humano sem a devida conexão com seus arredores e também com seus campos mais distantes. A inteligência oferece ao sujeito a armadilha de acreditar que se pode saber de tudo sozinho e não existe ignorante mais complicado do que aquele que acredita que não precisa saber de mais nada. Talvez pra além de se construir o respeito seja importante construir a humildade, será que alguém já escreveu sobre isso?

Parece que quanto mais leituras deixo pra trás maior o número que se faz necessário. Me sinto pequeno e incapaz e dentro da minha pequenez e da minha incapacidade faço o que posso. Falo sobre o que acredito ser importante com a complexidade da qual sou capaz nos espaços onde sinto que consigo ser ouvido. E você, qual a sua estratégia?


Entrar por uma orelha e sair pela outra é fazer um percurso.

Carrego comigo uma crença firme de que poucas coisas são mais estúpidas do que separar os diferentes campos do conhecimento. Esse texto talvez seja de uma maneira ou outra algum tipo de defesa das humanidades ou talvez uma defesa da humanidade em sí. As artes em geral apresentam a muito tempo a ideia de um mundo onde a humanidade é dominada pelas máquinas, Matrix é uma referência bastante acessível - pelo menos pras pessoas da minha geração. Nesse filme a humanidade se desenvolve em uma simulação da vida mediada por um conjunto de máquinas que usam dos humanos como combustível ou alimento para o desenvolvimento da própria vida e talvez esse seja mesmo o ciclo natural das coisas ou pelo menos seja parte da natureza das máquinas. 

A Natureza Humana. A capacidade de alterar a realidade a partir da manipulação e do uso do próprio corpo. O manifesto ciborgue. A industrialização do trabalho artesanal. A alienação da técnica. A transformação do sujeito em operador. A revolução das máquinas. A transformação do operador em um programador. Os grandes modelos de linguagem. A alienação da técnica. Qual a próxima transformação? O que acontece com a humanidade quando ela é cultivada por aqueles que tem como objetivo o lucro e não a continuidade? 

Quando falo em continuidade também não me refiro à continuidade biológica, nem mesmo à continuidade econômica. A continuidade que me importa é a continuidade cultural, a continuidade artística, a continuidade humana. Como vai a humanidade em meio aos carros, aos prédios, às jornadas exaustivas de trabalho, às comidas envenenadas, às tragédias climáticas, às guerras comerciais dos grandes estados e nações, às máquinas e inteligências artificiais? Como vai a humanidade? Como vai o cuidado? Como vai o carinho? Como tem se cultivado o respeito e a admiração? Como anda a escuta? Como anda o olhar? Como andam as ruas e as calçadas? Como andam os pobres e os miseráveis? Como anda a humanidade em 2025? Como você tem andado? 

Me surpreende a atenção que se dá à economia, ao agronegócio, às exportações de microchips em um mundo onde as pessoas ainda dormem ao relento e passam fome. Que sistema econômico bem sucedido é esse onde a cada dia aumentam os números indicativos de problemas mentais entre os seus participantes? Que sociedade bem sucedida é essa onde pais sequer passam tempo com seus filhos? Que sistema político eficiente é esse onde a educação é tratada como mero elemento instrumental? Que humanidade é essa que abandona tudo o que é fundamentalmente humano em nome de um único ideal cuja realização torna o mundo cada vez mais inóspito e a vida cada vez menos livre? Que mundo esclarecido é esse que valoriza mais um marqueteiro do que um agricultor? Que intelectual é esse que participa ativamente da destruição do próprio mundo? 

E no meio à tantas perguntas me atenho a responder apenas a última. O intelectual que participa desse mundo desumano é justamente aquele que também foi privado da própria humanidade. Ecologia sem luta de classes é jardinagem. A intelectualidade sem humanidade talvez seja apenas o espaço que existe entre Eco e Narciso. 

Que porcaria é essa? Ou qualquer outra coisa assim.

 Muito tem se falado na coisa toda de simulação e simulacro e a Ana Bandeira se deparada com esse começo de texto ia sublinhar a primeira oração e indicar a seguinte pergunta: quem tem falado isso e aonde? Talvez a Wal me perguntasse porque é que eu escolhi esse espantalho dessa vez e eu as vezes me sinto profundamente cansado de precisar apontar com o dedo literalmente todas as coisas todas as vezes e talvez isso indique mesmo alguma quantia pequena de esquizofrenia. Sai por um tempo com uma mulher que queria muito ficar bem ao mesmo tempo em que não tinha uma definição precisa de bem e quando tentei apontar isso ela me cortou na hora porque não precisava ou não queria ficar filosofando sobre isso.  Espero que ela esteja bem.

As vezes eu tenho vontade de colocar algum tipo de ferramenta de auto impacto na ponta de uma marreta e sair por aí estourando a maior quantidade de cabeças possíveis. Tenho plena consciência dos problemas que isso causaria e esse é um dos motivos pelos quais eu nunca cometi nenhum assassinato. Essa coisa de escrever e ser lido e querer ser lido é um inferno maldito e as vezes sente como se uma mistura muito esquisita de todas as pessoas que eu odeio e acho ridículas pendurada no meu pescoço com um punhal atravessado na minha cabeça passando por cima do olho direito e indo até o fundo da minha nuca e é profundamente desconfortável. 

Dia desses meu pai me perguntou se a minha mãe lê as coisas que eu escrevo e se eu não pensava nisso e eu penso em todas as pessoas que leem. Uma vez apaguei dois versos de um poema onde eu descrevia com detalhes o modo como eu esperava que um cachorro morresse porque achei que tinha passado um pouco do ponto porque a verdade é que pouquíssimo se entende de fato sobre o que é literatura, sobre o que ela significa e sobre o que as palavras dizem. De novo nessa parte do texto a Ana Bandeira me perguntaria quem são essas pessoas que sabem pouco e eu espero que ela esteja feliz em algum lugar corrigindo a ciência de algum outro idiota. Respondendo a pergunta feita por essa figura imaginária afirmo: acho que nem eu sei ler direito, quiçá escrever.

Mas eu posso fingir que sei e se com tempo suficiente um primata pode acabar por pura sorte e acaso batendo todas as teclas necessárias pra escrever uma versão de Hamlet em uma máquina de escrever. Pode ser que dado ao tempo e ao acaso em algum momento alguma parte dessa grande quantidade de palavras que eu escrevo acabe significando alguma coisa pra alguém. Até lá eu sigo fingindo que sei escrever e você segue fingindo que sabe ler. Ou qualquer coisa assim. 

Eu também não ligo muito. A literatura talvez seja um tipo muito específico de piada de mal gosto que não significa muita coisa e que no fim das contas podia ser muito mais simples do que acaba sendo e também não dá pra afirmar muito isso porque são mesmo pouquíssimas as coisas que podem ser afirmadas sem nenhum tipo de ressalva e como a boa fé intelectual segue em baixa não faço afirmação nenhuma sem antes fazer todas as ressalvas e sinta aqui que elas foram feitas. Não li todos os livros, não conheço todas as pessoas, não escuto todas as conversas e nem conheço todos os perfis digitais. Falo a partir do que conheço e ao mesmo tempo em que acho fundamental essa ressalva também me ofende um pouco sentir que ela é necessária. 

Não existe uma página exata em nenhum livro do Winnicot onde ele diga com palavras diretas que um estado é dotado de elementos conscientes e inconscientes. Ainda assim essa é uma coisa que surge com a leitura, ta lá, na fresta, na franja ou em qualquer uma dessas outras palavras que a gente use pra descrever algo que não cabe às claras. 

Tenho me entreverado bastante com o que precisa ser dito e com todas as melhores maneiras de fazê-lo. Na maior parte do tempo eu sou sutil feito uma pedrada e em uma quantia considerável das situações esse é um grau inadequado de sutileza pra quem ouve. Infelizmente alguma coisa soa profundamente errada em mim ou comigo quando faço escorrer com gentileza uma faca por entre os dentes. As vezes me pergunto se o Lacan ia ou não gostar de mim. E ao mesmo tempo: E daí?

Quem é que liga pra qualquer coisa e porque é que alguém ligaria? Eu vivo sob o regime de um estado nação imperialista e genocida cujo lema é ordem e progresso. Ninguém educado por esse regime maldito liga muito pra qualquer coisa além da própria paz e do próprio processo de acumulação de capital. Eu incluso. 

Acho que no fundo eu tenho comigo esse sentimento idiota e estúpido de que eu deveria ser alguma coisa além de um qualquer e como um qualquer é um marcador profundamente abrangente acaba que me sobram pouquíssimas coisas pra ser e na maior parte das vezes me sinto só um qualquer um pouco mais específico do que um qualquer genérico. As vezes eu queria que existisse algum fio metafórico que eu pudesse puxar pra desligar todo e qualquer pensamento que passasse pela minha cabeça e talvez assim eu conseguisse descansar de fato. 

Tem uma quantia estupidamente grande de coisas que eu tenho feito, que eu preciso fazer, que precisam ser feitas, que eu gostaria que fossem feitas, que são de minha responsabilidade, que seriam legais se eu fizesse e as vezes eu até descanso do lado de fora. Infelizmente é muito difícil pra mim descansar do lado de dentro. 

Eu sei desenhar e já fiz alguns quadrinhos e sou um animador mediano e entendo um pouco da teoria de algumas coisas. E daí? No fim das contas essa é a pergunta que eu não consigo responder. E daí? Pra que que isso serve?

É óbvio que eu sinto uma certa satisfação quando escrevo alguma coisa charmosa ou quando alcanço algum tipo de harmonia difícil em um desenho ou em uma pintura e ainda assim a pergunta permanece. E daí? As vezes uma pessoa ou outra chora com algo que eu escrevi. E daí?