Só leio livro de teoria com um dicionário aberto do meu lado.

Homem é uma categoria inerentemente violenta porque coloca vítimas e perpetradores como iguais. A categoria homem me coloca ombro à ombro com sujeitos que abusaram sexual, emocional, e fisicamente de mim e me diz que eu e eles somos a mesma coisa. A categoria homem me coloca ao lado de sujeitos que me machucaram e humilharam ao longo da minha vida, me diz que nós somos iguais e uma série de discursos em torno desta categoria me dizem que sou eu quem precisa resolver o problema dos meus algozes. Essa categoria faz o mesmo com aqueles contra quem reproduzi as violências sofridas e lhes diz que somos iguais. 

Homem também é uma categoria violenta porque é representativa de um ideal inalcançável de beleza moral e justamente por isso é uma categoria tão frágil. É justamente pelo status de ideal que a categoria homem carrega em sí que uma das primeiras coisas que é dita sobre sujeitos que se comportam de maneiras social ou pelo menos publicamente reprimíveis é que eles não são homens.  A ideia de que homens de verdade são bons, honestos, corretos, justos, trabalhadores e assim por diante e qualquer um que não seja não é um homem de verdade é uma ideia bastante popular. Mesmo que isso não tem nada a ver com os homens reais que justamente por existirem no mundo material em nada se parecem com essa idealização. O ideal masculino é violento porque reprime de maneira enfática todo um conjunto de ferramentas de auto expressão que são fundamentais para o manejo de pulsões e faltas humanas que quando abandonadas transformam o humano em uma criatura faltante chamada homem. Este ideal, junto de sua contraparte é enfiado goela abaixo em crianças desde o momento em que elas começam a entender o mundo e ai delas se não engolirem. Todos aqueles categorizados como homens que se recusam à perseguir o ideal masculino sofrem violências proporcionais ao tamanho do desvio e tanto a ficção quanto a não-ficção estão cheios de relatos que colaboram com essa leitura. 

A violência também é posta na categoria homem por conta da posição que ela ocupa dentro da estrutura social vigente. Historicamente são homens que ocupam as principais posições de poder em sistemas de opressão. Existe uma série de recortes que podem ser feitos de acordo com fatores políticos, geográficos, econômicos e raciais e muitas vezes, justamente por conta destes recortes é comum que um homem ocupe ao mesmo tempo as posições de opressor e oprimido simultaneamente em diferentes esferas. Os Panteras Negras apontaram percepções semelhantes ao fazer uma análise da situação social estadunidense a partir de marcadores raciais. É comum que uma parte considerável dos membros de uma categoria socialmente compreendida como opressora sejam também oprimidos por membros da mesma categoria e isso acontece também entre os membros de categorias entendidas como oprimidas. Essa contradição é necessária para a manutenção dos paradigmas sociais que sustentam a posição de um conjunto muito pequeno de pessoas nas camadas dominantes da sociedade.

A violência profissional é um campo que tem majoritariamente homens em sua força de trabalho. Polícias, exércitos, grupos de mercenários e organizações criminosas são instituições tradicionalmente masculinas que dependem da existência continuada de fenômenos e sujeitos violentos em pequena e larga escala. Estas instituições violentas fazem parte da estrutura da nossa sociedade e dependem da produção constante de vítimas e perpetradores. E pro sujeito violento o trabalho violento é profundamente encorajado por todas as condições materiais que permeiam os trabalhos violentos. 

Uma parcela considerável dos principais estudiosos que se debruçam sobre o tema tem como horizonte a dissolução do sistema hegemônico de gênero e tendo sido colocado pelos espaços em que vivi na posição de homem me sinto compelido à caminhar na mesma direção. Não vejo sentido na reforma das estruturas de gêneros como nos são impostas hoje. É muito mais fácil do que fazer e a seguir vão algumas ideias de como atacar a parte difícil.

Nomear o inimigo pode ser interessante e acho divertido chama-lo de ideologia de gênero hegemônica. A ideologia de gênero hegemônica estabelece a relação masculino-feminino como contrários complementares definidos necessariamente de acordo com a genitália. Esta ideologia confina crianças à limitações específicas de crescimento e auto expressão, reprimindo e podando a sua humanidade até que ela se encaixe em um dos dois moldes aceitáveis pelo centro ideológico. 

Acho que foi da Audre Lorde que em algum momento saiu algo nas linhas de: Não destruiremos a casa de nossos mestres com as suas ferramentas. Me permitindo a extrapolação de uma ideia alheia: Não acredito que seja possível a libertação dos que vivem sob o jugo do masculino ou do feminino dentro da estrutura hegemônica de gênero. Talvez nenhum dos grandes problemas do nosso tempo possa ser resolvido dentro da estrutura hegemônica do capitalismo justamente porque em sua maioria estes grandes problemas são ao mesmo tempo os combustíveis e os motores do modo de vida global que os produz e que os sustenta. 

Dito isso, alguns coletivos humanos buscam saídas para este problema já a algum tempo e talvez um dos primeiros passos para quem de fato busca fazer alguma coisa é a leitura. É a cultura popular quem diz que de boas intenções o inferno está cheio e a história também nos mostra o quão danosa pode ser uma boa intenção mal informada. A leitura daqueles que estudaram, estudam, trabalharam e trabalham pela transformação do mundo é o primeiro e mais fundamental passo para a produção de ações efetivas. Ler os abolicionistas de gênero, ler as pessoas trans, ler as mulheres, ler os não-binaries e ler autores que escapam ou propõem possibilidades de vida pra além dos modos que a hegemônia impõem é necessário pra compreensão das condições e possibilidades materiais de nossos espaços e tempos. Para fazer o melhor possível hoje nos lugares onde habitamos e nas condições em que nos encontramos é importante compreender o que já foi feito, o que já foi pensado e quais os impactos das ações passadas no presente. Absorver ideias, analisar seus resultados e avançar simultaneamente nos campos da teoria e da prática talvez não seja o único caminho e com certeza é um dos mais efetivos. A leitura é tarefa fundamental para a conexão do presente com o passado e é da digestão e da transformação da leitura em pensamentos, ideias e ações que somos capazes de participar de uma continuidade histórica. 

Agir a partir dos conhecimentos que se tem nos espaços onde se vive parece mais fácil em um texto do que em uma quarta-feira qualquer. É importante nesse caso não se esquecer dos conhecimentos que se tem sobre os espaços em que se vive. Nem só de teoria revolucionária vive a interação nos ambientes coletivos. Também é importante conhecer, compreender e fazer parte daquilo que se pretende afetar. Para intervir em qualquer ambiente é sempre de grande ajuda abrir bem os olhos e os ouvidos, sentir os cheiros, observar e absorver - pra só depois pensar em transformar. Não se pode mudar o que não se conhece, não faz sentido ser ouvido sem ouvir e não se recebe respeito sem antes oferecê-lo. Existe quem acredite que o choque e a humilhação pública são boas ferramentas de transformação e não sou uma dessas pessoas. Acredito que a transformação surge a partir do respeito, do exemplo, do carinho e de um cuidado que só pode nascer de uma preocupação genuína com aquilo que se deseja transformar. Acredito que a ação transformadora é aquela que surge a partir de uma humanidade compartilhada apesar das diferentes limitações que lhe são arbitrariamente impostas. 

Pensar para agir, agir para pensar e assim sucessivamente. Um ciclo de começo, meio e começo de novo como apontava Nego Bispo. A partir deste começo acredito que o mundo mostra um caminho diferente pra cada um por conta das particularidades de cada sujeito e de cada lugar. Não existe uma receita pronta pra mudar o mundo e se ela existisse a gente pode ter certeza de que já existiria uma contra receita pra ela. 

Eu odeio o ideal de homem imorrível, invencível e imbrochável que vem nos últimos anos ocupando um certo espaço no imaginário coletivo dessa invenção chamada povo brasileiro. Odeio o ideal do homem bilionário, do patrão, do comandante, do general e do soldado. Odeio a ideia de que um sujeito precisa viver uma vida preso às expectativas que o mundo tem ao redor de sua genitália. Odeio a quantidade de morte e violência que o ideal masculinista impõe sobre o mundo e faço o que posso à minha maneira pra diminuir a influência dele nos ambientes onde vivo, na vida daqueles que amo e carrego a responsa que me cabe como ser humano. Amo profundamente a humanidade e espero que um dia ela se liberte das amarras que limitam, pecarizam e abreviam a sua experiência. 

Você compraria uma criatura de crochê?

Wal começou com a coisa do crochê já faz um tempo e de lá pra cá ganhei uma série de toquinhas, um chapéu de bruxo e uma regata. Nos primeiros dias ela acabou tendo um caso leve de tendinite porque ao contrário de mim mulher é muito boa em fazer a mesma coisa por muito tempo de uma maneira bastante obsessiva. No começo ela procurava e seguia receitas. Não demorou muito a começar a inventar as próprias ideias e pra atender um pedido de natal da mãe dela fez brotar no mundo o Triceratops - fui eu quem deu o nome. 



O Triceratops tem bastante vergonha de aparecer e gosta de lugares macios, coisas cheirosas e de comer capim. A gente não é muito amigos e logo mais ele vai morar no Cassino, em Rio Grande. E acho que pra além de ser adorável ele também acabou sendo importante pra descoberta de um novo interesse. A Wal que vivia dizendo que não queria fazer bonecos acabou alguns dias depois começando um novo projeto. 



A gente tava do lado de fora de casa por conta de uma dedetização, ela decidiu que queria fazer um rato. No meio de olhar fotos, falar bobagens e ficar esperando acabou que fiz esse desenho do primo do Ratattouile. Ela riu e imediatamente desmanchou o boneco que já tinha pela metade pra trazer ele a vida e dessa vez foi ela quem escolheu o nome - Guei. O Guei não é muito educado e odeia usar calças; foi fumante por bastante tempo e justamente por isso tem uma péssima capacidade pulmonar; ele adora deitar e ficar tranquilo, gosta da natureza e de gente maneira e a Wal quer vender ele e tem muita vergonha de falar isso muito alto no mundo. No momento ele só tem essa roupa que eu fiz e confesso que acho um pouco esquisito vender um rato anarquista. Infelizmente essa é uma coisa comum no mundo em que vivemos.


As vezes eu demoro muito pra rever as coisas.

Por um motivo ou outro fazia um bom tempo que eu não olhava o rolo de fotos da minha câmera - acho engraçado como as palavras analógicas seguem sendo importantes mesmo quando as coisas ficam digitais. Percebi que esqueci muitas das fotos que fiz. Revi as fotos do encontro do MPA e achei pertinente escrever alguma coisa sobre. 



Acho que em algum lugar da caixa de fotografias do meu pai ainda existe uma foto de mim com uns sete ou oito anos na frente de uma bandeira do Movimento dos Pequenos Agricultores. 

Meu pai participou da organização por uns bons anos até passar no concurso da EMATER onde trabalha até hoje. Ele conta que em uma das manifestações ele e outros dez homens levantaram do chão o carro de um sujeito que tentou ameaçar os manifestantes com o veículo. Lembro de ele falar bastante sobre queimar pneus e de pastas de documentos importantes durante os primeiros anos dos quais eu lembro da minha infância. 

Meu pai se concentrou no trabalho e eu fui correr um pedaço do mundo. Perdemos um pouco o contato com o movimento e em algum momento pra mim o MPA acabou virando mais uma história do passado. Mal sabia eu que o movimento segue vivo, organizado e cheio de potência enquanto forma uma próxima geração de indivíduos engajados no trabalho de transformação social. 





Do ano passado pra cá fui a algumas reuniões do movimento e tenho aos poucos descoberto o que aconteceu no movimento nos últimos dez ou doze anos e o que vem acontecendo hoje em dia. Comecei a leitura do plano camponês e entre uma pesquisa e outra descobri que existem outros movimentos organizados da luta campesina. Movimentos que raramente ou quase nunca chegam nas pautas da imprensa tradicional e justamente por isso escapam do conhecimento e do imaginário popular. Imagina que eu com quase trinta anos, vindo de uma família de camponeses, com parentes assentados e tudo não sabia direito sobre as mobilizações dos trabalhadores do campo. E isso que eu sou estudado, fui pra faculdade e tudo. Me pergunto o quanto as pessoas que não tem contato com o campo sabem sobre essas coisas.

Meus próximos passos são um pouco nebulosos, acho que sempre foram e talvez continuem sendo até o fim da vida. Espero pelo menos conseguir ligar os faróis e poder ver melhor o que existe ao meu redor.


Dormir, sonhar e acordar de novo.

Voltei a uns dias pra casa e tenho ensaiado o primeiro texto do ano. Nunca fui muito de fazer a coisa de listas e resoluções e essas coisas. Houve um tempo em que a época me parecia um bom momento pra olhar pro passado e nesse momento não sei muito bem como me sinto sobre a coisa toda. Eu e Wal fizemos nossa primeira roadtrip e exceto por alguns contratempos mecânicos a viagem toda foi bem bacana. Não levei o computador pra viagem e ainda assim escrevi um pouco nesse tempo. Quase não desenhei e não fiz nenhuma animação.

Visitamos nossas mães, primeiro a dela e depois a minha, aproveitando os entretempos para encontrar os amigos de terras distantes. É engraçada a constatação de que com o passar do tempo as pessoas seguem elas mesmas, crescendo cada uma a sua maneira. Tava lá o Vicente falando de trabalho, Pedro casou, João ainda emana a mesma energia, Camille também, Geminy ainda perde o carisma, mesmo que tenha parado de fumar o Repolho ainda é o Repolho, Bibi ainda fuma e tá tentando reduzir, O Denis ainda tá quase sempre no Repolho, a Ivana tá com o cabelo mais comprido e o Nadico as vezes parece um tipo muito específico de bonsai de gente. 

Teve também as pessoas que não vi. Sobre as quais sigo me informando à distância. Não econtrei Ari, Gabi e Lucas não colaram no ano novo e não vi Bruna, não vi Jana e nem Angélica. Acho que mesmo sem encontrar continuo sabendo mais ou menos como elas são através de um ou outro momento que o fluxo de conteúdo digital me mostra. 

2025 foi com certeza um ano e como em qualquer outro muita coisa a conteceu. Gostei muito de como a coisa toda começou e foi divertido acompanhar o desenvolvimento. As vezes alterno entre ligar muito e ligar pouco pra como exponho minha vida na internet, exposição parece ao mesmo tempo divertido e perigoso. Gosto do caminho que minha vida tem tomado e não é sempre que me sinto cem por cento capacitado pra caminhar nele e ainda assim caminho. Pensei bastante sobre realidade, ficção e teoria e tenho como objeto de fixação recente a ideia de mídia. Minha primeira experiência com uma lavoura experimental não foi exatamente um fracasso e com certeza não foi um sucesso. Comecei a me envolver com os eventos e movimentos sociais da minha região e me percebi um tanto quanto mais direto e explícito nas minhas elaborações. Já fiz coisas difíceis antes e consigo fazer elas de novo. 

Treinei Muay Thai por uns meses e foi uma experiência legal. Senti um pouco de falta da energia trocação violenta entre amigos e depois de ficar um ou dois meses parado, meu corpo ficou bem mais fraquinho. Acho essa coisa toda de músculo e gordura e nutrição e carboidratos uma loucura. Comecei a prestar mais atenção no meu peso e na minha forma e sinto um tipo muito específico de nojo quando penso na coisa toda de ter, ser ou viver em um corpo biológico. Quer dizer que eu consigo contrair um pedaço de carne e que se ele não estiver sendo usado ele encolhe e eu excreto excesso de peso pela respiração? É esquisito também reparar nos modos como a fome aumenta ou diminui de acordo com a atividade, acho legal também pensar na coisa toda da nutrição e de o que ou como comer de acordo com as necessidades do dia. Mesmo que eu ainda não saiba muito sobre nutrição. Soquei o nariz de alguém esse ano e acho que a parte legal do esporte é que no final não fiquei com medo de que alguém me emboscasse na rua. Também é muito esquisito porque apesar de ser muito mais seguro trocar soco sem óculos perco uma quantia considerável da minha capacidade de esquiva quando não consigo olhar o rosto da outra pessoa. Tenho pensado em comprar um daqueles óculos esportivos de jogadores de rugby. Fiquei um tempo sem alongar também e é muito ruim ficar com o corpo todo duro. Lí alguns livros e pensei muitas coisas, não sou uma daquelas pessoas super estudantes dez mil leituras e sempre tô lendo alguma coisa ou outra, um pouco de teoria, um pouco de ficção e gosto bastante da coisa toda. Tenho escrito progressivamente mais também e acho isso bastante positivo. Comecei a trabalhar alguns projetos novos de quadrinho e animação e aprendi bastante. Noivei e vivi muitas aventuras e sorri e corei e senti muitos sentimentos gostosos e difíceis e espero que a vida continue. 

Acho que pra esse ano quero continuar tudo o que já comecei, aprender, treinar e me dedicar no, na e com o desenho, a terra, a Wal e o mundo ao meu redor. Tenho um roteiro pra terminar e um galinheiro pra construir, quero trocar o forro de casa e levantar o piso da cozinha. Quero fazer mais do lado de fora e usar bem meu tempo do lado de dentro. Quero ficar cada vez mais cuidadoso e afiado nas minhas práticas e acho que quero ganhar um pouco mais de dinheiro também, que é um dos recursos que tenho um pouco em falta. 

No fim escrevi um texto de ano novo. Acho um pouco engraçada essa coisa toda de livre associação. O intuito inicial era trazer aqui o pouco que escrevi durante esse período de recesso e quando parei pra ver percebi que eles ainda não acabaram e acho que isso é um bom sinal. Por um longo tempo tive um tipo esquisito de dificuldade em dar continuidade às coisas que escrevo e agora sinto que preciso de um pouco mais de espaço pra colocar em palavras todas as coisas necessárias pra que os textos cheguem ao fim.  Começamos mais um ano.

Não é de hoje que eu aponto que racismo precisa ser assunto de branco.

O conceito de raça como a gente entende hoje em dia é um negócio super recente na história da humanidade e foi elaborado a partir da construção de um coletivo entendido e denominado por algumas pessoas como branquitude. Esse coletivo tem limites imprecisos e suas expressões mudam bastante de acordo com fatores geográficos e econômicos. Ao mesmo tempo, sua expressão independente de fatores geográficos e econômicos carrega em seu cerne a ideologia racista. A ideologia racista é o elemento constituinte da separação humana entre os brancos e não-brancos. O racismo é uma expressão da ideologia racista - entendendo ideologia como o conjunto de elementos que formam a visão de mundo de um sujeito - e ele pode se manifestar de maneiras conscientes e inconscientes. A expressão sociopolítica do racismo é o que se convencionou chamar de racismo estrutural, um conjunto de faltas, dificuldades e impedimentos de ordem pública que fazem parte da fundação das sociedades racializadas, que organizam os mais variados campos da vida em sociedade e que afetam de maneira positiva as pessoas entendidas como brancas em detrimento das populações não-brancas. 

O racismo é o elemento comum que faz com que um sujeito que nunca roubou nada seja seguido por seguranças em lojas quase sempre que pisa em uma e com que outro que rouba ocasionalmente nunca tenha se percebido vigiado. Também é o racismo que faz com que o segundo que não se percebe vigiado acredite que a vigilância não exista mesmo quando o primeiro à descreve. 

Em um indivíduo a branquitude se expressa como quase tudo a partir da fala, da produção de sentido e de uma certa perspectiva que entende a sí mesmo como norma em todos os aspectos que compõem o entendimento de humanidade. Para um sujeito formado dentro de um sistema ideologicamente racista o corpo branco é o corpo normal, a fala branca é a fala normal, a religião branca é a religião normal e assim por diante. Para o sujeito que carrega nas entranhas o germe do racismo as vantagens que ele possui dentro de um estado racista são vistas como a norma, o racismo pode até escapar pela boca mas são os olhos e os ouvidos que ele controla. Por vezes a ideologia racista pode até ser capaz de permitir que um sujeito de dentro da esfera da branquitude perceba o efeito negativo da ideologia racista no negro e é a mesma ideologia racista que as vezes faz do branco psiquicamente incapaz de aceitar que ele talvez não esteja onde está porque mereceu.

Para o sujeito que carrega o racismo em si seu próprio racismo é invisível. Afinal ele não compreende o outro como diferente, compreende o outro como fora do normal - como errado. Como também não compreende o outro como indivíduo que faz parte de um coletivo. Para o sujeito que carrega o racismo o outro é sempre uma expressão do grupo do qual faz parte e apenas isso o sujeito que carrega em sí o racismo tem dificuldades em diferenciar os indivíduos que entende como não-brancos. E o racismo é muito mais do que a sua expressão individual.

O racismo é um conjunto de práticas históricas que resultam em um modo de vida e muita gente já escreveu muito mais e muito melhor do que eu sobre isso. Tem o Franz Fanon, tem o Martin Luther King,  tem o Malcon X, tem a Angela Davis, tem a Conceição Evaristo, tem a Bell Hooks, tem o James Baldwin e eu tô jogando aqui pra cima os nomes que tão mais na boca do povo e é um pouco engraçado notar a internacionalidade deles O movimento negro brasileiro tá aí a uma cota também e mesmo na internet a gente vai ter figuras como a Anielle Franco que também tá na política institucional, o Chavoso da Usp e o Jones Manoel que são figuras de fácil acesso. Acredito que todas as universidades possuem em seus acervos pelo menos uma pesquisa ou outra que elabora a partir das mais variadas perspectivas sobre o tema. O que eu quero dizer é que não é difícil saber mais sobre as organizações da ideologia racista se você quiser de fato saber mais sobre ela, principalmente se você sabe ler ou tem acesso à internet.

E é ai que vem a expressão do racismo que mais tem ocupado a minha cabeça no momento: percebo nas pessoas racistas, mesmo as mais progressistas uma dificuldade gigantesca de se perceber como sujeitos em um sistema racista; uma dificuldade em admitir o peso da posição que ocupam; uma dificuldade em constatar, aceitar e compreender a realidade do sistema racial que organiza a sociedade como um todo. Percebo nos sujeitos racistas uma certa negação de que a branquitude possa de qualquer maneira  ter informado ou feito parte da sua formação coletiva. Percebo naqueles afetados desde cedo pelo racismo uma certa dificuldade de perceber esta própria afetação. Infelizmente não existe um óculos ou um fone de ouvido que seja capaz de desfazer as ilusões impostas à esses sujeitos ao longo do cultivo de suas vidas. E as perguntas que me faço como alguém que acredita no potêncial de transformação dos seres humanos são as seguintes: Como um sujeito percebe o racismo em si? Essa percepção é o suficiente para que se inicie um movimento de transformação? Como um sujeito remove o racismo de sí? Como esse processo pode ser feito de maneira coletiva?

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Este texto não consta.

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Este texto não consta.

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Ficção em primeira pessoa.

A algumas semanas atrás assisti embasbacado um tio falando da escravatura e de seus reflexos contemporâneos com um tom de encanto na voz que um sujeito melhor do que eu talvez tivesse respondido com um soco. A coisa toda ficou um pouco mais bizarra quando ele decidiu explicar para uma mulher negra o quão legal eram as charqueadas e o modo como o trabalho escravo era organizado no local e eu me peguei ali, assistindo aquela cena bizarra sem oferecer nenhuma resposta. Nesse dia, a esposa do sujeito interviu pedindo à ele que se retirasse e nas últimas vezes que o vi ele se resguardou à só fazer comentários racistas com relação às populações indígenas. 

Algumas semanas atrás assisti embasbacado um tio falando da escravatura e de seus reflexos contemporâneos com um tom de encanto na voz que um sujeito melhor do que eu talvez tivesse respondido com um soco. A coisa toda ficou um pouco mais bizarra quando ele decidiu explicar para uma mulher negra o quão legal eram as charqueadas e o modo como o trabalho escravo era organizado no local e eu me peguei ali, assistindo aquela cena bizarra sem oferecer nenhuma resposta, a mulher apontou que achava a coisa toda das charqueadas um tanto insensível com a escravidão. E a esposa do sujeito interviu pedindo à ele que se retirasse, nas últimas vezes que o vi ele se resguardou à só fazer comentários racistas com relação às populações indígenas. 

Talvez eu seja mais um dos desgraçados que carrega a fragilidade branca por cima dos ombros. No aniversário da minha noiva um outro tio decidiu fazer uma série de comentários racistas e eu senti em mim a ambiguidade. Um desconhecido da minha idade talvez não tivesse terminado a primeira piada sem ser atingido por um soco. O irmão do meu pai falou tudo o que queria sobre a aparência de pessoas negras na minha frente sem ser interrompido. Quando apontei o desconforto, a feiura e a seletividade das palavras ele seguiu com uma justificativa igualmente racista, minha esposa se retirou e eu ainda fiquei ali por um tempo com um misto de surpresa e raiva até decidir também me retirar da interação. Minha tia é mulher e bater em uma mulher racista talvez seja predicado da minha noiva e não meu. A tia tentou concertar o racismo com uma versão mais amigável de racismo e eu honestamente não soube como responder. 

Eu acho a coisa toda ultrajante e me causa um tipo muito específico de repulsa que se choca diretamente com o mesmo pensamento todas as vezes: báh, fazer o que eu queria aqui vai se pá vai dar um merdão pro meu pai. E sei lá meu pai justifica um pouco a ignorância e a postura deles com o histórico da família e ao mesmo tempo em que sei que as experiências de formação são parte importante na formação de um sujeito também sei que essas são todas pessoas adultas. Conheço um monte de gente que cresceu em ambiente merda e que nem por isso se comporta como um pedaço de bosta e talvez essa tenha sido a gota que faltava pro meu copinho transbordar. 

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Tava conversando com a Wal esses dias sobre essa coisa toda e quando perguntei pra ela sobre as maneiras de se libertar um opressor ela me disse de maneira categórica: Você não pode ser um oprimido. Demorei um pouco a entender e ela me disse que pra ouvir algo de alguém em primeiro lugar é necessário respeito e é costumas que alguém que ocupa uma posição de opressor não respeite alguém em uma posição de oprimido. E fazendo a volta pra pensar, sinto que quem ouvi apontar pela primeira vez o racismo em mim,  foi Isis e acho mesmo que uma coisa que eu sempre tive por essa pessoa foi respeito. Lembro do choque e da grande sensação de "eu não tinha visto isso" que bateu em mim e ai me surge a pergunta, como é que se constrói respeito. Será que alguém já escreveu sobre isso? 

Quanto mais o tempo passa mais eu percebo o tamanho das coisas que não sei, existe um sem fim de informações, ideias e estruturas de pensamento que desconheço e a cada passo em frente percebo com uma mistura de animação e terror o tamanho da escuridão. Falanges avançam em direção os limites do conhecimento humano sem a devida conexão com seus arredores e também com seus campos mais distantes. A inteligência oferece ao sujeito a armadilha de acreditar que se pode saber de tudo sozinho e não existe ignorante mais complicado do que aquele que acredita que não precisa saber de mais nada. Talvez pra além de se construir o respeito seja importante construir a humildade, será que alguém já escreveu sobre isso?

Parece que quanto mais leituras deixo pra trás maior o número que se faz necessário. Me sinto pequeno e incapaz e dentro da minha pequenez e da minha incapacidade faço o que posso. Falo sobre o que acredito ser importante com a complexidade da qual sou capaz nos espaços onde sinto que consigo ser ouvido. E você, qual a sua estratégia?