Você compraria uma criatura de crochê?

Wal começou com a coisa do crochê já faz um tempo e de lá pra cá ganhei uma série de toquinhas, um chapéu de bruxo e uma regata. Nos primeiros dias ela acabou tendo um caso leve de tendinite porque ao contrário de mim mulher é muito boa em fazer a mesma coisa por muito tempo de uma maneira bastante obsessiva. No começo ela procurava e seguia receitas. Não demorou muito a começar a inventar as próprias ideias e pra atender um pedido de natal da mãe dela fez brotar no mundo o Triceratops - fui eu quem deu o nome. 



O Triceratops tem bastante vergonha de aparecer e gosta de lugares macios, coisas cheirosas e de comer capim. A gente não é muito amigos e logo mais ele vai morar no Cassino, em Rio Grande. E acho que pra além de ser adorável ele também acabou sendo importante pra descoberta de um novo interesse. A Wal que vivia dizendo que não queria fazer bonecos acabou alguns dias depois começando um novo projeto. 



A gente tava do lado de fora de casa por conta de uma dedetização, ela decidiu que queria fazer um rato. No meio de olhar fotos, falar bobagens e ficar esperando acabou que fiz esse desenho do primo do Ratattouile. Ela riu e imediatamente desmanchou o boneco que já tinha pela metade pra trazer ele a vida e dessa vez foi ela quem escolheu o nome - Guei. O Guei não é muito educado e odeia usar calças; foi fumante por bastante tempo e justamente por isso tem uma péssima capacidade pulmonar; ele adora deitar e ficar tranquilo, gosta da natureza e de gente maneira e a Wal quer vender ele e tem muita vergonha de falar isso muito alto no mundo. No momento ele só tem essa roupa que eu fiz e confesso que acho um pouco esquisito vender um rato anarquista. Infelizmente essa é uma coisa comum no mundo em que vivemos.


As vezes eu demoro muito pra rever as coisas.

Por um motivo ou outro fazia um bom tempo que eu não olhava o rolo de fotos da minha câmera - acho engraçado como as palavras analógicas seguem sendo importantes mesmo quando as coisas ficam digitais. Percebi que esqueci muitas das fotos que fiz. Revi as fotos do encontro do MPA e achei pertinente escrever alguma coisa sobre. 



Acho que em algum lugar da caixa de fotografias do meu pai ainda existe uma foto de mim com uns sete ou oito anos na frente de uma bandeira do Movimento dos Pequenos Agricultores. 

Meu pai participou da organização por uns bons anos até passar no concurso da EMATER onde trabalha até hoje. Ele conta que em uma das manifestações ele e outros dez homens levantaram do chão o carro de um sujeito que tentou ameaçar os manifestantes com o veículo. Lembro de ele falar bastante sobre queimar pneus e de pastas de documentos importantes durante os primeiros anos dos quais eu lembro da minha infância. 

Meu pai se concentrou no trabalho e eu fui correr um pedaço do mundo. Perdemos um pouco o contato com o movimento e em algum momento pra mim o MPA acabou virando mais uma história do passado. Mal sabia eu que o movimento segue vivo, organizado e cheio de potência enquanto forma uma próxima geração de indivíduos engajados no trabalho de transformação social. 





Do ano passado pra cá fui a algumas reuniões do movimento e tenho aos poucos descoberto o que aconteceu no movimento nos últimos dez ou doze anos e o que vem acontecendo hoje em dia. Comecei a leitura do plano camponês e entre uma pesquisa e outra descobri que existem outros movimentos organizados da luta campesina. Movimentos que raramente ou quase nunca chegam nas pautas da imprensa tradicional e justamente por isso escapam do conhecimento e do imaginário popular. Imagina que eu com quase trinta anos, vindo de uma família de camponeses, com parentes assentados e tudo não sabia direito sobre as mobilizações dos trabalhadores do campo. E isso que eu sou estudado, fui pra faculdade e tudo. Me pergunto o quanto as pessoas que não tem contato com o campo sabem sobre essas coisas.

Meus próximos passos são um pouco nebulosos, acho que sempre foram e talvez continuem sendo até o fim da vida. Espero pelo menos conseguir ligar os faróis e poder ver melhor o que existe ao meu redor.


Dormir, sonhar e acordar de novo.

Voltei a uns dias pra casa e tenho ensaiado o primeiro texto do ano. Nunca fui muito de fazer a coisa de listas e resoluções e essas coisas. Houve um tempo em que a época me parecia um bom momento pra olhar pro passado e nesse momento não sei muito bem como me sinto sobre a coisa toda. Eu e Wal fizemos nossa primeira roadtrip e exceto por alguns contratempos mecânicos a viagem toda foi bem bacana. Não levei o computador pra viagem e ainda assim escrevi um pouco nesse tempo. Quase não desenhei e não fiz nenhuma animação.

Visitamos nossas mães, primeiro a dela e depois a minha, aproveitando os entretempos para encontrar os amigos de terras distantes. É engraçada a constatação de que com o passar do tempo as pessoas seguem elas mesmas, crescendo cada uma a sua maneira. Tava lá o Vicente falando de trabalho, Pedro casou, João ainda emana a mesma energia, Camille também, Geminy ainda perde o carisma, mesmo que tenha parado de fumar o Repolho ainda é o Repolho, Bibi ainda fuma e tá tentando reduzir, O Denis ainda tá quase sempre no Repolho, a Ivana tá com o cabelo mais comprido e o Nadico as vezes parece um tipo muito específico de bonsai de gente. 

Teve também as pessoas que não vi. Sobre as quais sigo me informando à distância. Não econtrei Ari, Gabi e Lucas não colaram no ano novo e não vi Bruna, não vi Jana e nem Angélica. Acho que mesmo sem encontrar continuo sabendo mais ou menos como elas são através de um ou outro momento que o fluxo de conteúdo digital me mostra. 

2025 foi com certeza um ano e como em qualquer outro muita coisa a conteceu. Gostei muito de como a coisa toda começou e foi divertido acompanhar o desenvolvimento. As vezes alterno entre ligar muito e ligar pouco pra como exponho minha vida na internet, exposição parece ao mesmo tempo divertido e perigoso. Gosto do caminho que minha vida tem tomado e não é sempre que me sinto cem por cento capacitado pra caminhar nele e ainda assim caminho. Pensei bastante sobre realidade, ficção e teoria e tenho como objeto de fixação recente a ideia de mídia. Minha primeira experiência com uma lavoura experimental não foi exatamente um fracasso e com certeza não foi um sucesso. Comecei a me envolver com os eventos e movimentos sociais da minha região e me percebi um tanto quanto mais direto e explícito nas minhas elaborações. Já fiz coisas difíceis antes e consigo fazer elas de novo. 

Treinei Muay Thai por uns meses e foi uma experiência legal. Senti um pouco de falta da energia trocação violenta entre amigos e depois de ficar um ou dois meses parado, meu corpo ficou bem mais fraquinho. Acho essa coisa toda de músculo e gordura e nutrição e carboidratos uma loucura. Comecei a prestar mais atenção no meu peso e na minha forma e sinto um tipo muito específico de nojo quando penso na coisa toda de ter, ser ou viver em um corpo biológico. Quer dizer que eu consigo contrair um pedaço de carne e que se ele não estiver sendo usado ele encolhe e eu excreto excesso de peso pela respiração? É esquisito também reparar nos modos como a fome aumenta ou diminui de acordo com a atividade, acho legal também pensar na coisa toda da nutrição e de o que ou como comer de acordo com as necessidades do dia. Mesmo que eu ainda não saiba muito sobre nutrição. Soquei o nariz de alguém esse ano e acho que a parte legal do esporte é que no final não fiquei com medo de que alguém me emboscasse na rua. Também é muito esquisito porque apesar de ser muito mais seguro trocar soco sem óculos perco uma quantia considerável da minha capacidade de esquiva quando não consigo olhar o rosto da outra pessoa. Tenho pensado em comprar um daqueles óculos esportivos de jogadores de rugby. Fiquei um tempo sem alongar também e é muito ruim ficar com o corpo todo duro. Lí alguns livros e pensei muitas coisas, não sou uma daquelas pessoas super estudantes dez mil leituras e sempre tô lendo alguma coisa ou outra, um pouco de teoria, um pouco de ficção e gosto bastante da coisa toda. Tenho escrito progressivamente mais também e acho isso bastante positivo. Comecei a trabalhar alguns projetos novos de quadrinho e animação e aprendi bastante. Noivei e vivi muitas aventuras e sorri e corei e senti muitos sentimentos gostosos e difíceis e espero que a vida continue. 

Acho que pra esse ano quero continuar tudo o que já comecei, aprender, treinar e me dedicar no, na e com o desenho, a terra, a Wal e o mundo ao meu redor. Tenho um roteiro pra terminar e um galinheiro pra construir, quero trocar o forro de casa e levantar o piso da cozinha. Quero fazer mais do lado de fora e usar bem meu tempo do lado de dentro. Quero ficar cada vez mais cuidadoso e afiado nas minhas práticas e acho que quero ganhar um pouco mais de dinheiro também, que é um dos recursos que tenho um pouco em falta. 

No fim escrevi um texto de ano novo. Acho um pouco engraçada essa coisa toda de livre associação. O intuito inicial era trazer aqui o pouco que escrevi durante esse período de recesso e quando parei pra ver percebi que eles ainda não acabaram e acho que isso é um bom sinal. Por um longo tempo tive um tipo esquisito de dificuldade em dar continuidade às coisas que escrevo e agora sinto que preciso de um pouco mais de espaço pra colocar em palavras todas as coisas necessárias pra que os textos cheguem ao fim.  Começamos mais um ano.

Não é de hoje que eu aponto que racismo precisa ser assunto de branco.

O conceito de raça como a gente entende hoje em dia é um negócio super recente na história da humanidade e foi elaborado a partir da construção de um coletivo entendido e denominado por algumas pessoas como branquitude. Esse coletivo tem limites imprecisos e suas expressões mudam bastante de acordo com fatores geográficos e econômicos. Ao mesmo tempo, sua expressão independente de fatores geográficos e econômicos carrega em seu cerne a ideologia racista. A ideologia racista é o elemento constituinte da separação humana entre os brancos e não-brancos. O racismo é uma expressão da ideologia racista - entendendo ideologia como o conjunto de elementos que formam a visão de mundo de um sujeito - e ele pode se manifestar de maneiras conscientes e inconscientes. A expressão sociopolítica do racismo é o que se convencionou chamar de racismo estrutural, um conjunto de faltas, dificuldades e impedimentos de ordem pública que fazem parte da fundação das sociedades racializadas, que organizam os mais variados campos da vida em sociedade e que afetam de maneira positiva as pessoas entendidas como brancas em detrimento das populações não-brancas. 

O racismo é o elemento comum que faz com que um sujeito que nunca roubou nada seja seguido por seguranças em lojas quase sempre que pisa em uma e com que outro que rouba ocasionalmente nunca tenha se percebido vigiado. Também é o racismo que faz com que o segundo que não se percebe vigiado acredite que a vigilância não exista mesmo quando o primeiro à descreve. 

Em um indivíduo a branquitude se expressa como quase tudo a partir da fala, da produção de sentido e de uma certa perspectiva que entende a sí mesmo como norma em todos os aspectos que compõem o entendimento de humanidade. Para um sujeito formado dentro de um sistema ideologicamente racista o corpo branco é o corpo normal, a fala branca é a fala normal, a religião branca é a religião normal e assim por diante. Para o sujeito que carrega nas entranhas o germe do racismo as vantagens que ele possui dentro de um estado racista são vistas como a norma, o racismo pode até escapar pela boca mas são os olhos e os ouvidos que ele controla. Por vezes a ideologia racista pode até ser capaz de permitir que um sujeito de dentro da esfera da branquitude perceba o efeito negativo da ideologia racista no negro e é a mesma ideologia racista que as vezes faz do branco psiquicamente incapaz de aceitar que ele talvez não esteja onde está porque mereceu.

Para o sujeito que carrega o racismo em si seu próprio racismo é invisível. Afinal ele não compreende o outro como diferente, compreende o outro como fora do normal - como errado. Como também não compreende o outro como indivíduo que faz parte de um coletivo. Para o sujeito que carrega o racismo o outro é sempre uma expressão do grupo do qual faz parte e apenas isso o sujeito que carrega em sí o racismo tem dificuldades em diferenciar os indivíduos que entende como não-brancos. E o racismo é muito mais do que a sua expressão individual.

O racismo é um conjunto de práticas históricas que resultam em um modo de vida e muita gente já escreveu muito mais e muito melhor do que eu sobre isso. Tem o Franz Fanon, tem o Martin Luther King,  tem o Malcon X, tem a Angela Davis, tem a Conceição Evaristo, tem a Bell Hooks, tem o James Baldwin e eu tô jogando aqui pra cima os nomes que tão mais na boca do povo e é um pouco engraçado notar a internacionalidade deles O movimento negro brasileiro tá aí a uma cota também e mesmo na internet a gente vai ter figuras como a Anielle Franco que também tá na política institucional, o Chavoso da Usp e o Jones Manoel que são figuras de fácil acesso. Acredito que todas as universidades possuem em seus acervos pelo menos uma pesquisa ou outra que elabora a partir das mais variadas perspectivas sobre o tema. O que eu quero dizer é que não é difícil saber mais sobre as organizações da ideologia racista se você quiser de fato saber mais sobre ela, principalmente se você sabe ler ou tem acesso à internet.

E é ai que vem a expressão do racismo que mais tem ocupado a minha cabeça no momento: percebo nas pessoas racistas, mesmo as mais progressistas uma dificuldade gigantesca de se perceber como sujeitos em um sistema racista; uma dificuldade em admitir o peso da posição que ocupam; uma dificuldade em constatar, aceitar e compreender a realidade do sistema racial que organiza a sociedade como um todo. Percebo nos sujeitos racistas uma certa negação de que a branquitude possa de qualquer maneira  ter informado ou feito parte da sua formação coletiva. Percebo naqueles afetados desde cedo pelo racismo uma certa dificuldade de perceber esta própria afetação. Infelizmente não existe um óculos ou um fone de ouvido que seja capaz de desfazer as ilusões impostas à esses sujeitos ao longo do cultivo de suas vidas. E as perguntas que me faço como alguém que acredita no potêncial de transformação dos seres humanos são as seguintes: Como um sujeito percebe o racismo em si? Essa percepção é o suficiente para que se inicie um movimento de transformação? Como um sujeito remove o racismo de sí? Como esse processo pode ser feito de maneira coletiva?

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Este texto não consta.

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Este texto não consta.

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Ficção em primeira pessoa.

A algumas semanas atrás assisti embasbacado um tio falando da escravatura e de seus reflexos contemporâneos com um tom de encanto na voz que um sujeito melhor do que eu talvez tivesse respondido com um soco. A coisa toda ficou um pouco mais bizarra quando ele decidiu explicar para uma mulher negra o quão legal eram as charqueadas e o modo como o trabalho escravo era organizado no local e eu me peguei ali, assistindo aquela cena bizarra sem oferecer nenhuma resposta. Nesse dia, a esposa do sujeito interviu pedindo à ele que se retirasse e nas últimas vezes que o vi ele se resguardou à só fazer comentários racistas com relação às populações indígenas. 

Algumas semanas atrás assisti embasbacado um tio falando da escravatura e de seus reflexos contemporâneos com um tom de encanto na voz que um sujeito melhor do que eu talvez tivesse respondido com um soco. A coisa toda ficou um pouco mais bizarra quando ele decidiu explicar para uma mulher negra o quão legal eram as charqueadas e o modo como o trabalho escravo era organizado no local e eu me peguei ali, assistindo aquela cena bizarra sem oferecer nenhuma resposta, a mulher apontou que achava a coisa toda das charqueadas um tanto insensível com a escravidão. E a esposa do sujeito interviu pedindo à ele que se retirasse, nas últimas vezes que o vi ele se resguardou à só fazer comentários racistas com relação às populações indígenas. 

Talvez eu seja mais um dos desgraçados que carrega a fragilidade branca por cima dos ombros. No aniversário da minha noiva um outro tio decidiu fazer uma série de comentários racistas e eu senti em mim a ambiguidade. Um desconhecido da minha idade talvez não tivesse terminado a primeira piada sem ser atingido por um soco. O irmão do meu pai falou tudo o que queria sobre a aparência de pessoas negras na minha frente sem ser interrompido. Quando apontei o desconforto, a feiura e a seletividade das palavras ele seguiu com uma justificativa igualmente racista, minha esposa se retirou e eu ainda fiquei ali por um tempo com um misto de surpresa e raiva até decidir também me retirar da interação. Minha tia é mulher e bater em uma mulher racista talvez seja predicado da minha noiva e não meu. A tia tentou concertar o racismo com uma versão mais amigável de racismo e eu honestamente não soube como responder. 

Eu acho a coisa toda ultrajante e me causa um tipo muito específico de repulsa que se choca diretamente com o mesmo pensamento todas as vezes: báh, fazer o que eu queria aqui vai se pá vai dar um merdão pro meu pai. E sei lá meu pai justifica um pouco a ignorância e a postura deles com o histórico da família e ao mesmo tempo em que sei que as experiências de formação são parte importante na formação de um sujeito também sei que essas são todas pessoas adultas. Conheço um monte de gente que cresceu em ambiente merda e que nem por isso se comporta como um pedaço de bosta e talvez essa tenha sido a gota que faltava pro meu copinho transbordar. 

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Tava conversando com a Wal esses dias sobre essa coisa toda e quando perguntei pra ela sobre as maneiras de se libertar um opressor ela me disse de maneira categórica: Você não pode ser um oprimido. Demorei um pouco a entender e ela me disse que pra ouvir algo de alguém em primeiro lugar é necessário respeito e é costumas que alguém que ocupa uma posição de opressor não respeite alguém em uma posição de oprimido. E fazendo a volta pra pensar, sinto que quem ouvi apontar pela primeira vez o racismo em mim,  foi Isis e acho mesmo que uma coisa que eu sempre tive por essa pessoa foi respeito. Lembro do choque e da grande sensação de "eu não tinha visto isso" que bateu em mim e ai me surge a pergunta, como é que se constrói respeito. Será que alguém já escreveu sobre isso? 

Quanto mais o tempo passa mais eu percebo o tamanho das coisas que não sei, existe um sem fim de informações, ideias e estruturas de pensamento que desconheço e a cada passo em frente percebo com uma mistura de animação e terror o tamanho da escuridão. Falanges avançam em direção os limites do conhecimento humano sem a devida conexão com seus arredores e também com seus campos mais distantes. A inteligência oferece ao sujeito a armadilha de acreditar que se pode saber de tudo sozinho e não existe ignorante mais complicado do que aquele que acredita que não precisa saber de mais nada. Talvez pra além de se construir o respeito seja importante construir a humildade, será que alguém já escreveu sobre isso?

Parece que quanto mais leituras deixo pra trás maior o número que se faz necessário. Me sinto pequeno e incapaz e dentro da minha pequenez e da minha incapacidade faço o que posso. Falo sobre o que acredito ser importante com a complexidade da qual sou capaz nos espaços onde sinto que consigo ser ouvido. E você, qual a sua estratégia?


Entrar por uma orelha e sair pela outra é fazer um percurso.

Carrego comigo uma crença firme de que poucas coisas são mais estúpidas do que separar os diferentes campos do conhecimento. Esse texto talvez seja de uma maneira ou outra algum tipo de defesa das humanidades ou talvez uma defesa da humanidade em sí. As artes em geral apresentam a muito tempo a ideia de um mundo onde a humanidade é dominada pelas máquinas, Matrix é uma referência bastante acessível - pelo menos pras pessoas da minha geração. Nesse filme a humanidade se desenvolve em uma simulação da vida mediada por um conjunto de máquinas que usam dos humanos como combustível ou alimento para o desenvolvimento da própria vida e talvez esse seja mesmo o ciclo natural das coisas ou pelo menos seja parte da natureza das máquinas. 

A Natureza Humana. A capacidade de alterar a realidade a partir da manipulação e do uso do próprio corpo. O manifesto ciborgue. A industrialização do trabalho artesanal. A alienação da técnica. A transformação do sujeito em operador. A revolução das máquinas. A transformação do operador em um programador. Os grandes modelos de linguagem. A alienação da técnica. Qual a próxima transformação? O que acontece com a humanidade quando ela é cultivada por aqueles que tem como objetivo o lucro e não a continuidade? 

Quando falo em continuidade também não me refiro à continuidade biológica, nem mesmo à continuidade econômica. A continuidade que me importa é a continuidade cultural, a continuidade artística, a continuidade humana. Como vai a humanidade em meio aos carros, aos prédios, às jornadas exaustivas de trabalho, às comidas envenenadas, às tragédias climáticas, às guerras comerciais dos grandes estados e nações, às máquinas e inteligências artificiais? Como vai a humanidade? Como vai o cuidado? Como vai o carinho? Como tem se cultivado o respeito e a admiração? Como anda a escuta? Como anda o olhar? Como andam as ruas e as calçadas? Como andam os pobres e os miseráveis? Como anda a humanidade em 2025? Como você tem andado? 

Me surpreende a atenção que se dá à economia, ao agronegócio, às exportações de microchips em um mundo onde as pessoas ainda dormem ao relento e passam fome. Que sistema econômico bem sucedido é esse onde a cada dia aumentam os números indicativos de problemas mentais entre os seus participantes? Que sociedade bem sucedida é essa onde pais sequer passam tempo com seus filhos? Que sistema político eficiente é esse onde a educação é tratada como mero elemento instrumental? Que humanidade é essa que abandona tudo o que é fundamentalmente humano em nome de um único ideal cuja realização torna o mundo cada vez mais inóspito e a vida cada vez menos livre? Que mundo esclarecido é esse que valoriza mais um marqueteiro do que um agricultor? Que intelectual é esse que participa ativamente da destruição do próprio mundo? 

E no meio à tantas perguntas me atenho a responder apenas a última. O intelectual que participa desse mundo desumano é justamente aquele que também foi privado da própria humanidade. Ecologia sem luta de classes é jardinagem. A intelectualidade sem humanidade talvez seja apenas o espaço que existe entre Eco e Narciso.