A matemática é uma linguagem descritiva.

"Pra quê?" é uma das minhas perguntas preferidas e talvez tenha sido uma das que mais me atormentou ao longo da minha vida e talvez tenha sido agora na beirada dos trinta anos que eu tenha percebido que pra mim o propósito de uma coisa importa muito mais do que a coisa em sí. E talvez o propósito exista como uma coisa bastante ampla e variada que atravessa perspectivas individuais e coletivas. Não faço ideia do quão fácil ou difícil é mudar a perspectiva do modo de pensar, por pouco tempo acho que pouco e por muito tempo acho que muito. Eu me importo muito mais com a semântica do que com a sintáxe e acredito nos valores inerentemente estéticos e poderosos das palavras. Estética é estrutura de produção e o poder é a capacidade de produzir. John Dewey pensa sobre as capacidades específicas de cada modo estrutural de comunicar. Ou seja, o que é específico de cada uma das maneiras possíveis de se produzir e transmitir significado. 

A estrutura de produção da palavra escrita é completamente diferente da palavra falada e talvez o método de escrita também seja um modulador dessa estrutura afinal existe uma diferença tátil considerável entre escrever com os punhos, com os dedos, com os polegares e assim por diante. A palavra escrita se organiza em uma lógica diferente da palavra falada. Amor e love podem ser traduzidos de maneira intercambiável na palavra escrita ou transformada em onda e nunca serão a mesma coisa porque dentro da boca o amor acerta o lábio inferior e o love escorre para o lado de fora. Talvez seja por isso que traduções sejam tão difíceis. E essa é só uma perspectiva em um módulo específico de comunicação com uma quantidade específica de cuidado semântico. Nem toda palavra escrita se organiza dessa forma, esta não é a única maneira possível de se articular os mesmos significados e é uma forma possível de apresentar uma perspectiva específica de uma mente específica através de um código específico para sujeitos específicos que compartilham do conhecimento necessário pra extração de significado simbólico a partir de um conjunto de convenções historicamente estabelecido por um número crescente de sujeitos inseridos em um mesmo sistema linguístico. Com certeza é possível expressar a mesma coisa com uma equação que pode acabar parecendo mais ou menos simples e eu não sou capaz de produzir essa equação porque não sou fluente em matemática. Essa é uma fração pequena do modo como costumo pensar em cada coisa de cada vez e não tenho certeza de como são os funcionamentos biológicos deste modo de processar os pensamentos. 

"Pra quê?" geralmente é uma das primeiras perguntas que me faço, levo muitas coisas em conta na hora de produzir uma resposta, nem sempre sou capaz de produzir, nem todas as que produzo são boas e pra evitar alguns prejuízos algumas são descartadas. Prejuízo. De quem? De quanto? Em quê? Quais são os cálculos de quantificação? Como é que se atribuem os valores? Como se confere adequação? Ao que é que se adequa? E as vezes elaborar uma resposta satisfatória pra cada uma dessas questões me parece uma questão fundamental antes de qualquer movimento. O que significa que passo uma quantidade considerável de tempo parado. Sem laborar meus interesses qualquer elaboração deles corre o risco de imprecisão. Como medir a precisão de um propósito?

Primeiro se faz necessária a compreensão desse conceito dentro do emaranhado linguístico que o produziu. A linguagem - em seus diferentes modos de expressão - como parte de um tronco linguístico e elemento fundamental de um fenômeno que compreende todas as áreas do conhecimento humano, da matemática à poesia e vice-versa. Todos os desvios e faltas são sempre claros aos olhos de quem os conhece. Como são as virtudes. A humanidade se reconhece no outro porque é através do outro que conhece. E este é um processo constante estejamos nós conscientes disso ou não. Tudo o que oferecemos ao mundo nos fala e toda vida é testemunha de sí mesma e possui um vasto conjunto de referências quantificáveis e não-quantificáveis. 

Hegel é tão importante na minha escrita quanto o dicionário que me auxilia na leitura quanto meus olhos, meus ouvidos, meu ambiente, meus amigos, minha família e minha história. Os textos do Hegel são verificáveis, muitas outras coisas não são e algumas necessitam de conjuntos de dados para a sua verificação que a humanidade não é capaz de produzir de maneira material. E talvez a precisão em uma quantia considerável de fatores se encontre restrita a um campo poético eternamente nebuloso cuja compreensão necessita de concessões e conhecimentos de um mundo que de muitas maneiras não cabe dentro de uma estrutura científica. Tudo que eu sei de Luhmann ouvi de Arielson do Carmo e a estrutura científica não comporta, não contempla e nem verifica a transmissão não formalizada de conhecimento. 

Onde cresci algumas pessoas sabiam e eu sabia que elas sabiam porque via como eram tratadas pelas pessoas com quem conviviam. Eu que não costumava escutar ninguém escutei o Marcelinho e o Marcelinho era um cara que sabia. Poucos foram os caras que eu vi na minha vida que desviavam de problema tão bem quanto o Marcelinho desviava. E quando não tava pra desviar o Marcelinho batia de peito. O Xael sempre me tratou como igual, mesmo que fosse muito mais esperto, muito mais desenrolado e muito mais forte que eu na época. Num tempo onde maluco me tirava pra saco de pancada o Xael me tirou pra irmão. Eu nem me lembro de quando foi que me senti amigo do Ericson, tenho de memória o quão bem recebido eu era na casa dele e a cara dele dando risada. O Patrola as vezes me torrava profundamente o saco e não dá pra dizer que não tinha os méritos dele. O que aprendi deles, com eles e tantos outros e outras como eles não tem diploma que comprove e talvez seja essa capacidade de verificação coletiva que se perca no modo de vida ultraliberal tecno-artificialista pós capitalista três o inimigo ainda é exatamente o mesmo e faz parte da sua organização social. A vida isolada em categorias cada vez mais específicas é vivente e se livra dos inconvenientes, deixando para trás as benesses do convívio. 

Talvez nenhuma dessas coisas tenha relação com nenhuma das versões maiores e mais abrangentes da ideia de propósito, tem com a minha. Essa não é uma elaboração prescritiva. Meu propósito com esse texto é o de organizar um conjunto de pensamentos e percepções em uma estrutura formal capaz e transmiti-la à qualquer um que esteja interessado em recebê-la, tenha a boa fé necessária para tal e disposição para decodificá-la.

O propósito do fio é cortar. O quê e pra quê vai depender da ocasião e de quem segura a faca. Talvez propósito seja mais variável do que me pareceu inicialmente.




Só leio livro de teoria com um dicionário aberto do meu lado.

Homem é uma categoria inerentemente violenta porque coloca vítimas e perpetradores como iguais. A categoria homem me coloca ombro à ombro com sujeitos que abusaram sexual, emocional, e fisicamente de mim e me diz que eu e eles somos a mesma coisa. A categoria homem me coloca ao lado de sujeitos que me machucaram e humilharam ao longo da minha vida, me diz que nós somos iguais e uma série de discursos em torno desta categoria me dizem que sou eu quem precisa resolver o problema dos meus algozes. Essa categoria faz o mesmo com aqueles contra quem reproduzi as violências sofridas e lhes diz que somos iguais. 

Homem também é uma categoria violenta porque é representativa de um ideal inalcançável de beleza moral e justamente por isso é uma categoria tão frágil. É justamente pelo status de ideal que a categoria homem carrega em sí que uma das primeiras coisas que é dita sobre sujeitos que se comportam de maneiras social ou pelo menos publicamente reprimíveis é que eles não são homens.  A ideia de que homens de verdade são bons, honestos, corretos, justos, trabalhadores e assim por diante e qualquer um que não seja não é um homem de verdade é uma ideia bastante popular. Mesmo que isso não tem nada a ver com os homens reais que justamente por existirem no mundo material em nada se parecem com essa idealização. O ideal masculino é violento porque reprime de maneira enfática todo um conjunto de ferramentas de auto expressão que são fundamentais para o manejo de pulsões e faltas humanas que quando abandonadas transformam o humano em uma criatura faltante chamada homem. Este ideal, junto de sua contraparte é enfiado goela abaixo em crianças desde o momento em que elas começam a entender o mundo e ai delas se não engolirem. Todos aqueles categorizados como homens que se recusam à perseguir o ideal masculino sofrem violências proporcionais ao tamanho do desvio e tanto a ficção quanto a não-ficção estão cheios de relatos que colaboram com essa leitura. 

A violência também é posta na categoria homem por conta da posição que ela ocupa dentro da estrutura social vigente. Historicamente são homens que ocupam as principais posições de poder em sistemas de opressão. Existe uma série de recortes que podem ser feitos de acordo com fatores políticos, geográficos, econômicos e raciais e muitas vezes, justamente por conta destes recortes é comum que um homem ocupe ao mesmo tempo as posições de opressor e oprimido simultaneamente em diferentes esferas. Os Panteras Negras apontaram percepções semelhantes ao fazer uma análise da situação social estadunidense a partir de marcadores raciais. É comum que uma parte considerável dos membros de uma categoria socialmente compreendida como opressora sejam também oprimidos por membros da mesma categoria e isso acontece também entre os membros de categorias entendidas como oprimidas. Essa contradição é necessária para a manutenção dos paradigmas sociais que sustentam a posição de um conjunto muito pequeno de pessoas nas camadas dominantes da sociedade.

A violência profissional é um campo que tem majoritariamente homens em sua força de trabalho. Polícias, exércitos, grupos de mercenários e organizações criminosas são instituições tradicionalmente masculinas que dependem da existência continuada de fenômenos e sujeitos violentos em pequena e larga escala. Estas instituições violentas fazem parte da estrutura da nossa sociedade e dependem da produção constante de vítimas e perpetradores. E pro sujeito violento o trabalho violento é profundamente encorajado por todas as condições materiais que permeiam os trabalhos violentos. 

Uma parcela considerável dos principais estudiosos que se debruçam sobre o tema tem como horizonte a dissolução do sistema hegemônico de gênero e tendo sido colocado pelos espaços em que vivi na posição de homem me sinto compelido à caminhar na mesma direção. Não vejo sentido na reforma das estruturas de gêneros como nos são impostas hoje. É muito mais fácil do que fazer e a seguir vão algumas ideias de como atacar a parte difícil.

Nomear o inimigo pode ser interessante e acho divertido chama-lo de ideologia de gênero hegemônica. A ideologia de gênero hegemônica estabelece a relação masculino-feminino como contrários complementares definidos necessariamente de acordo com a genitália. Esta ideologia confina crianças à limitações específicas de crescimento e auto expressão, reprimindo e podando a sua humanidade até que ela se encaixe em um dos dois moldes aceitáveis pelo centro ideológico. 

Acho que foi da Audre Lorde que em algum momento saiu algo nas linhas de: Não destruiremos a casa de nossos mestres com as suas ferramentas. Me permitindo a extrapolação de uma ideia alheia: Não acredito que seja possível a libertação dos que vivem sob o jugo do masculino ou do feminino dentro da estrutura hegemônica de gênero. Talvez nenhum dos grandes problemas do nosso tempo possa ser resolvido dentro da estrutura hegemônica do capitalismo justamente porque em sua maioria estes grandes problemas são ao mesmo tempo os combustíveis e os motores do modo de vida global que os produz e que os sustenta. 

Dito isso, alguns coletivos humanos buscam saídas para este problema já a algum tempo e talvez um dos primeiros passos para quem de fato busca fazer alguma coisa é a leitura. É a cultura popular quem diz que de boas intenções o inferno está cheio e a história também nos mostra o quão danosa pode ser uma boa intenção mal informada. A leitura daqueles que estudaram, estudam, trabalharam e trabalham pela transformação do mundo é o primeiro e mais fundamental passo para a produção de ações efetivas. Ler os abolicionistas de gênero, ler as pessoas trans, ler as mulheres, ler os não-binaries e ler autores que escapam ou propõem possibilidades de vida pra além dos modos que a hegemônia impõem é necessário pra compreensão das condições e possibilidades materiais de nossos espaços e tempos. Para fazer o melhor possível hoje nos lugares onde habitamos e nas condições em que nos encontramos é importante compreender o que já foi feito, o que já foi pensado e quais os impactos das ações passadas no presente. Absorver ideias, analisar seus resultados e avançar simultaneamente nos campos da teoria e da prática talvez não seja o único caminho e com certeza é um dos mais efetivos. A leitura é tarefa fundamental para a conexão do presente com o passado e é da digestão e da transformação da leitura em pensamentos, ideias e ações que somos capazes de participar de uma continuidade histórica. 

Agir a partir dos conhecimentos que se tem nos espaços onde se vive parece mais fácil em um texto do que em uma quarta-feira qualquer. É importante nesse caso não se esquecer dos conhecimentos que se tem sobre os espaços em que se vive. Nem só de teoria revolucionária vive a interação nos ambientes coletivos. Também é importante conhecer, compreender e fazer parte daquilo que se pretende afetar. Para intervir em qualquer ambiente é sempre de grande ajuda abrir bem os olhos e os ouvidos, sentir os cheiros, observar e absorver - pra só depois pensar em transformar. Não se pode mudar o que não se conhece, não faz sentido ser ouvido sem ouvir e não se recebe respeito sem antes oferecê-lo. Existe quem acredite que o choque e a humilhação pública são boas ferramentas de transformação e não sou uma dessas pessoas. Acredito que a transformação surge a partir do respeito, do exemplo, do carinho e de um cuidado que só pode nascer de uma preocupação genuína com aquilo que se deseja transformar. Acredito que a ação transformadora é aquela que surge a partir de uma humanidade compartilhada apesar das diferentes limitações que lhe são arbitrariamente impostas. 

Pensar para agir, agir para pensar e assim sucessivamente. Um ciclo de começo, meio e começo de novo como apontava Nego Bispo. A partir deste começo acredito que o mundo mostra um caminho diferente pra cada um por conta das particularidades de cada sujeito e de cada lugar. Não existe uma receita pronta pra mudar o mundo e se ela existisse a gente pode ter certeza de que já existiria uma contra receita pra ela. 

Eu odeio o ideal de homem imorrível, invencível e imbrochável que vem nos últimos anos ocupando um certo espaço no imaginário coletivo dessa invenção chamada povo brasileiro. Odeio o ideal do homem bilionário, do patrão, do comandante, do general e do soldado. Odeio a ideia de que um sujeito precisa viver uma vida preso às expectativas que o mundo tem ao redor de sua genitália. Odeio a quantidade de morte e violência que o ideal masculinista impõe sobre o mundo e faço o que posso à minha maneira pra diminuir a influência dele nos ambientes onde vivo, na vida daqueles que amo e carrego a responsa que me cabe como ser humano. Amo profundamente a humanidade e espero que um dia ela se liberte das amarras que limitam, pecarizam e abreviam a sua experiência. 

Você compraria uma criatura de crochê?

Wal começou com a coisa do crochê já faz um tempo e de lá pra cá ganhei uma série de toquinhas, um chapéu de bruxo e uma regata. Nos primeiros dias ela acabou tendo um caso leve de tendinite porque ao contrário de mim mulher é muito boa em fazer a mesma coisa por muito tempo de uma maneira bastante obsessiva. No começo ela procurava e seguia receitas. Não demorou muito a começar a inventar as próprias ideias e pra atender um pedido de natal da mãe dela fez brotar no mundo o Triceratops - fui eu quem deu o nome. 



O Triceratops tem bastante vergonha de aparecer e gosta de lugares macios, coisas cheirosas e de comer capim. A gente não é muito amigos e logo mais ele vai morar no Cassino, em Rio Grande. E acho que pra além de ser adorável ele também acabou sendo importante pra descoberta de um novo interesse. A Wal que vivia dizendo que não queria fazer bonecos acabou alguns dias depois começando um novo projeto. 



A gente tava do lado de fora de casa por conta de uma dedetização, ela decidiu que queria fazer um rato. No meio de olhar fotos, falar bobagens e ficar esperando acabou que fiz esse desenho do primo do Ratattouile. Ela riu e imediatamente desmanchou o boneco que já tinha pela metade pra trazer ele a vida e dessa vez foi ela quem escolheu o nome - Guei. O Guei não é muito educado e odeia usar calças; foi fumante por bastante tempo e justamente por isso tem uma péssima capacidade pulmonar; ele adora deitar e ficar tranquilo, gosta da natureza e de gente maneira e a Wal quer vender ele e tem muita vergonha de falar isso muito alto no mundo. No momento ele só tem essa roupa que eu fiz e confesso que acho um pouco esquisito vender um rato anarquista. Infelizmente essa é uma coisa comum no mundo em que vivemos.