Sem título.


Não acho que o que escrevo é exatamente ficção e claramente esse amontoado de palavra também não deve contar como ciência. Não são exatamente crônicas, nem contos e muito menos confissões. Um emaranhado de verdades e mentiras percebidas, digeridas e regurgitadas por alguma coisa que fica ou vive entre o consciente e o inconsciente. Não me pretendo nada sabendo que sou alguma coisa. 

Desde muito cedo a ideia de ser me persegue como um alçapão no qual caí sem nunca chegar ao fundo ou como uma grande rasteira que me acerta sempre que coloco firmes e lado à lado os dois pés ao chão. Sou o que preciso ser enquanto for necessário e depois disso sou mais nada ou outra coisa. Ou pelo menos foi assim que me senti por muito tempo. Fui muitas coisas sem saber o que elas eram e me transformei muito mais em dúvidas do que em certezas ao longo da minha breve, esquisita e complicada existência. Não penso muito sobre o fim enquanto ainda sinto que me encontro pelo meio. 

Escrevo porque a ideia de ser um e outro ao mesmo tempo me compeliu à escrever. Principalmente quando um e outro são ao mesmo tempo contrários e contraditórios. Sinto que o pensamento científico me ensinou a isolar e talvez eu tenha passado uma década entre um isolamento e outro. Nem todos os muros são iguais e não sinto que sei quais deles são necessários. Tenho levantado e destruído muros como quem se entende capaz de fazer as duas coisas e aos poucos tenho descobertos que nem todas as coisas podem ser separadas ou unidas com facilidade. 

Houve um tempo em que tive dificuldades de diferenciar eu mesmo do mundo. Houve um tempo em que tentei diluir à mim mesmo no mundo. Hoje em dia ainda me pego confuso com os limites que existem entre o mundo e eu. O fim do eu no tempo até que é muito bem delimitado, como o fim do mundo também parece ser. Wal me perguntou o que eu acho que acontece quando uma pessoa morre e respondi que me parece um pouco como um sono do qual não se acorda mais. Não sei se o sonho deve ou não fazer parte da coisa. 

Talvez sonhar seja coisa de quem vive e como não tenho memória de ter morrido me ocupo em pensar sobre as coisas da vida. Quase todos os dias de uma maneira ou outra o passado me bate à porta em forma de palavra. A maior parte do que me passa pela cabeça é palavra ou pelo menos a maior parte do que percebo que me passa pela cabeça é palavra. 

Fiz uma pausa grande depois do último parágrafo e por uma pausa grande quero dizer que passei alguns minutos com os olhos completamente fixados no nada enquanto pressionava uma bola de fisioterapia contra meu canino superior direito. Pensando sobre o quanto da escrita é fluxo e o quanto é um ato laborioso que se resume à arrancar com a menor quantia de julgamento possível um conjunto de palavras do lado de dentro e projetá-las do lado de fora. Gosto de pensar que não falo do mesmo jeito que escrevo e ao mesmo tempo sei que essa é uma questão que me assombra também na fala. 

Me pergunto quais partes do meu inconsciente se manifestam quando falo e tenho sempre em cheque o que entendo como a minha própria consciência. Acho que sei que existe alguma coisa interessante no que escrevo quando a escrita me faz sentir alguma coisa e acho difícil diferenciar o que a escrita me causa da coisa que faz com que eu escreva. Medo, medo, medo, medo, medo, medo. Como dizia Belchior. 

Ao contrário do Sócrates, sei que sei de algumas coisas, ou pelo menos sinto que sei. O que não sei na maior parte do tempo é o que fazer com isso ou mais precisamente o que fazer com isso estando nas minhas condições e no ambiente em que vivo. Sei do poder transformador da dedicação e do aprendizado e muitas vezes não sou capaz de me dedicar ou de aprender tudo que gostaria. Vivo querendo saber como vou ser quando estiver pronto, o que quer dizer que vivo pensando sobre a leitura que vai poder ser feita de mim quando estiver morto e talvez seja por isso mesmo que eu escreva tanto. Porque não acredito que a escrita dê conta. Talvez nada dê. Talvez sobre de mim um pouco mais do que uma pilha de ossos e talvez pra mim isso já seja o suficiente. Talvez não e essa não é uma coisa que me assombra ou pelo menos não é uma coisa que percebo como um assombro. 

No fim das contas a pintura morreu e segue conosco. Talvez seja assim com o resto das coisas também. 

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