Eu odeio comentaristas.

Ano de copa é ano de eleição e entre os analistas de futebol e os analistas políticos eu honestamente não sei quais são os piores. Talvez estejamos vivendo uma grande crise da analise. Um psicanalista em algum lugar da um trago agora em um cachimbo que com certeza é só um cachimbo. Por algum motivo me parece cada vez mais comuns que os grandes analistas analisem o que não existe, o que não está presente e o que não pode ser verificado. No futebol isso aparece quando se discute como o jogo seria se jogador a ou b estivesse em campo enquanto se ignora os pormenores das movimentações dos jogadores, os modos como os espaços são ocupados, como são feitos os avanços e os recuos, quais são as estratégias e as táticas da partida, de onde vêm as oportunidades e como são as construções técnicas de cada time. É comum que um analista fale sobre a qualidade de um time levando em conta uma série histórica que muito pouco fala sobre o presente observado. Como também é comum que em um momento explícito de projeção os comentários de uma partida revolvam a um suposto estado emocional de um jogador ou de um time inteiro. Na política a coisa piora.

Metade das discussões políticas que vejo por aí começam a partir de um conjunto tão absurdo de pressuposições, achismos e desconhecimentos que me assustam profundamente. De gente que se defende de problemas que não existem a gente que reclama de livros que não leu. Planos e propostas de governo e fiscalização ficam em segundo plano e o que se discute é uma posição moral que materialmente não faz diferença nenhuma no cotidiano de ninguém. Se comemora entre os analistas políticos muito mais uma frase bem colocada em um corte de vídeo da internet do que uma política pública bem aplicada ou mesmo uma organização popular que resolve algum problema especifico da população. Importa muito mais aos analistas o que um deputado, vereador ou senador fala em público do que os projetos que ele apresenta e os votos que ele faz no lusco fusco das câmaras. 

A gente afundou tanto o nosso pé coletivo no mundo nojento, antiético e preguiçoso do marketing e da propaganda do capitalismo que tratamos tudo hoje a partir da lógica do maldito marketing 3 ou 4.0. O que importa aos analista de hoje em dia não é a qualidade que um time, jogador, partido ou candidato específico apresenta. Pouco importam a formação e a trajetória. Também não importa a função que o time, jogador, partido ou candidato cumpre dentro do ambiente no qual se insere. O que importa para eles é como eles se sentem com relação a algo e como eles querem que o público ouvinte ou leitor se sinta. Porque infelizmente nesse mundo de prazeres instantâneos, internet ultrarrápida, anti-intelectualísmo e antidepressivo os sentimentos importam muito mais do que qualquer tipo de lógica ou relação de causalidade constatável. Principalmente porque cada vez mais surgem ferramentas que removem do sujeito a habilidade, a capacidade e a possibilidade de constatar por sí mesmo como são as coisas ao seu redor.

E o enfrentamento à essas perspectivas tacanhas, preguiçosas e muitas vezes mal-intencionadas que nos são apresentadas sem nenhum tipo de indicador de viés infelizmente é mais trabalho. É leitura, é cuidado, é desconfiança, é observação e é pensamento consciente, complexo e deliberado. O único modo de se lutar contra a idiotice que nos permeia é deixando de lado todas as práticas cotidianas dos idiotas. E isso não passa apenas por ler e estudar mais, passa também por ler e estudar as coisas que não gostamos, os ideólogos dos nossos supostos inimigos e os métodos daqueles que desejam nos manter na idiotice. Saber muito de uma única coisa se parece muito com não saber de quase nada. 

E aí eu sei que é uma merda, tá todo mundo super ocupado em sustentar esse modelo de vida que exige de uma parcela majoritária da população uma quantidade grotesca de tempo e de trabalho que não deixa sobrar direito nem pro descanso, imagina pra mais trabalho. Entre a escala 6 por 1 do mercado, o cuidado da casa e muitas vezes dos pais ou dos filhos e uma busca voraz por qualquer tipo de alegria ou prazer não sobra muito espaço pra ler Hegel, ou Marx, ou Friedman ou qualquer outro autor importante pra qualquer outro campo importante do conhecimento. Principalmente quando o analfabetismo funcional corre solto entre nós todos. 

E aí um pensamento que pode correr com essa leitura pode ser algo na linha de: ai mais e o que que eu faço então? qual é a solução pra esse problema? quem poderá nos ajudar? E infelizmente não podemos chamar o Chapolín Colorado pra esse serviço. A única coisa que posso sugerir é mais trabalho. Conversar com os amigos, compartilhar tempo e recursos, diminuir a carga individual aumentando a confiança coletiva, estudar e conhecer iniciativas locais de ação direta e apoio mútuo. Participar das reuniões, conselhos e partidos ao nosso alcance e fazer o melhor que pudermos com as ferramentas que temos. A transformação coletiva não vira sem o esforço coletivo. Até agora esperar pelo salvador da pátria não ofereceu resultados muito positivos. Talvez tenha chegado a hora de descobrir o que acontece quando começamos a salvar uns aos outros. 

E quanto ao futebol, talvez o melhor mesmo seja assistir o jogo no mudo e em boa companhia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário