Fiz esse desenho depois do seguinte exercício de escrita:
Pedro como é que você não liga pra isso Pedro!! Eles arrancaram os seus olhos PEDRO!! PEDRO VOCÊ ENCHERGA COM UM PEDAÇO DE VIDRO LIGADO DIRETAMENTE NO SEU CÉREBRO QUE TÁ LIGADO EM TODOS OS OUTROS PEDAÇOS DE VIDRO E QUE TRANSMITE IMAGENS PARA O MUNDO INTEIRO O TEMPO TODO! PEDRO VOCÊ NÃO TÊM UMA CÂMERA APONTADA PEDRO VOCÊ É A CÂMERA!!! COMO É QUE VOCÊ NÃO LIGA DE SER UM TIPO MUITO ESQUISITO DE MICROFONE CAPTANDO DADOS PRA UM BANDO DE MILIONÁRIO QUE VOCÊ NÃO CONHECE E NEM NUNCA VIU SABER EXATAMENTE COMO É TUDO AO SEU REDOR!! PEDRO PELO AMOR DE DEUS ME ESCUTA PEDRO ELES CORTARAM AS TUAS PERNAS PEDRO!!!! TU NÃO CAMINHA MAIS PRA VER AS COISAS PEDRO, TU SÓ FICA PARADO VENDO VÍDEO DE BONECO SE MOVENDO PRA SENTIR A IDEIA DE MOVIMENTO PEDRO PELO AMOR DE DEUS VOCÊ TÁ DERRETENDO PEDRO VOCÊ É O CARA DO TUBO DO LADO DO CARA QUE É O PROTAGONISTA DE MATRIX PEDRO, VOCÊ É O CARA QUE ESCOLHEU FICAR NA MATRIX COMENDO PICANHA FALSA!! VOCÊ É O FILHO DA PUTA QUE SÓ LIGA PRA SENTIR ALGUMA PORCARIA DE COISA GOSTOSINHA NESSA SUA CABEÇA DE MERDA EU TE ODEIO PEDRO!!!! VOCÊ É UM BOSTA! e eu não preciso te matar, eu só preciso desligar as máquinas e com elas desligadas ou você definha, ou você se mata ou você muda. Nada. A única coisa que você não vai poder fazer é nada.
A ideia é ler o texto como alguém que vai ficando progressivamente mais desesperado.
Já com o desenho pela metade, escrevi o seguinte texto:
E se todo mundo acabar feito o Pedro? Experienciando uma versão simulada do mundo, será que Baudrillard ia sorrir ou ia chorar? O Deleuze talvez arrancasse a própria pele fora. E você, o que você faria? Será que você prefere mesmo um mundo humano á um mundo digital? Será que tendo a escolha você preferiria uma vida de sangue, carne, osso, fome, trabalho e dor ou será que você preferiria o prazer sendo injetado diretamente no seu cérebro sem nenhum tipo de esforço ou intenção. Será que você vai querer mesmo lembrar dos seus pais como eles foram em vida ou você vai preferir que uma máquina simule imagens deles que tragam algum tipo de alegria ou conforto? Será que você gosta mesmo de ser uma pessoa consciente ou será que você não tá só esperando a próxima dose de seja lá o que for?
A parte da destruição de todas as convenções e estruturas sociais que os avanços tecnológicos propõem honestamente não me assusta muito. Se tem uma coisa que eu odeio são as convenções e estruturas vigentes da sociedade da qual eu faço parte. O que me assusta um pouco com a coisa toda do avanço tecnológico é a parte em que me parece que cada vez mais os seres humanos tem terceirizado a própria capacidade cognitiva. O Sam Altman dizendo que o plano da OpenAI é vender inteligência como se vende energia elétrica é uma coisa que talvez nem mesmo os maiores escritores de distopias capitalistas tivessem pensado em colocar na boca de um personagem porque ia soar caricato e irreal. No fim das contas o Capitão Planeta era mesmo um retrato da realidade.
Um amigo me perguntou a um tempo atrás se eu não gostaria de usar ferramentas de inteligência artificial como parte do meu processo criativo e chegou a me encurralar em um determinado momento me mostrando imagens produzidas por algum desses geradores como se fossem desenhos dele e eu sei que a coisa é capaz de executar um grande conjunto de tarefas com uma velocidade que ultrapassa em muito as capacidades humanas e isso me importa muito pouco. Não me importa o que o uma máquina é capaz de escrever sobre o que escreveu Hegel, ou Winnicot, ou Deleuze, ou Dewey, ou Hall, ou Beauvoir, ou Carolina de Jesus, ou Lispector, ou Evaristo, ou Le Guin ou qualquer outra pessoa humana que tenha pensado. O que me importa é o que essas leituras vão fazer no fundo da minha cabeça quando eu não estiver prestando atenção. Não me interessa produzir mais e mais rápido. Diabo, essa foi a mentalidade que trouxe o mundo pro lugar onde ele está hoje. O que me importa é viver como alguém que interage com o mundo em primeira pessoa. Me interessam o cultivo, o cuidado, a observação, o sono, o inconsciente, o costume, a prática e seus resultados.
Alguma coisa em mim tem a impressão de que a adequação ao uso dessas tecnologias vai acabar fazendo alguma coisa com a definição de humanidade e por mais que eu goste de tentar coisas novas, ]algumas coisas eu não estou disposto à mudar. Talvez seja só o meu ego. Uma estrutura de identidade construída ao redor de uma noção falida de humanidade e um apego à uma construção intelectual que talvez se torne obsoleta. E talvez esse seja mesmo o começo de Idiocracia. Talvez daqui a uns cinquenta anos a gente descubra.

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