Nem só de surtos literários vive uma pessoa.

 Mil e uma unidades de coisas se acumulam em todos os lugares ao mesmo tempo e de tanto me esticar não me sinto mais tão fino enquanto seguro tudo que posso. Entre a, b e 1997 ainda tenho uns duzentos quilos de memória que de tempos em tempos me esmagam o pensamento. As vezes fico curioso de como vou ser quando chegar na velhice e as vezes me pergunto como vai ser na semana que vem. Nennhuma coisa faz muito sentido e todas as coisas fazem algum. 

Desenho mais porque quero viver como alguém que passou uma vida desenhando do que porque quero chegar em algum resultado específico com o desenho. Uma das coisas mais importantes que o Pellegrin me disse durante as aulas de pintura é que não dá pra ser artista sem ter obra e não dá pra ter obra sem ter muita obra. Bolei essa metáfora a um tempo atrás de que desenhar é só pegar um desenho da pilha de desenhos que a gente tem dentro da cabeça e colocar pra fora e não existe atalho pra chegar nos desenhos do fundo da pilha. O único caminho é desenhar e tirar os desenhos de dentro pra fora um por um. Gosto dessa ideia. 

Tô fazendo alguns cursos, trabalhando em alguns projetos e acho doido como um ou outro foco mudam completamente uma prática. Quando mais novo uma das coisas que mais me entristecia era uma certa dificuldade que eu tinha de conseguir desenhar a mesma coisa mais do que duas ou três vezes. Uma parte considerável do meu tempo nos últimos meses tem sido colocado em desenhar os mesmos personagens de novo e de novo e de novo com pequenas variações de formato e posição. Acho legal também o como esse tipo de prática transforma profundamente os outros tipos de desenho quando volto pra eles. 

Acho que finalmente acabou meu momento de desenhista do paint. Foi bem legal pra me libertar das paranóias do modo de trabalho digital que me fazia construir imagens de um jeito um pouco mais covarde do que eu gostaria. Não que eu não seja mais covarde, ao mesmo tempo sinto que minha covardia tem se enfraquecido um pouco. Bati a minha meta de peso e tô começando minha segunda tentativa de plantio regenerativo, dessa vez com assistência técnica. Agora sou vice-presidente do conselho de cultura do meu município e também tô aprendendo mecânica automotiva. Tenho sido um pouco menos inventivo na cozinha e o projeto da hora lá fora segue em cosistência moderada. Quase não escrevi mais poesia desde que comecei a namorar e me pergunto se existe alguma correlação. Finalmente terminei um roteiro que eu vinha cozinhando à anos e enviei ele pra um concurso. Mais pra frente quero seguir com o desenvolvimento e a pré produção do projeto. Tava pensando esses dias que logo mais quero olhar com mais atenção pros materiais de anatomia que tenho aqui em casa. Minhas leituras tem avançado muito lentamente e como todas as outras coisas tem avançado. Acho que teria sido legal ler os Contos de Terramar quando eu era adolescente e tem sido legal ler eles agora também. 

Migrei meu desenho digital pro Krita. Sempre fui um pouco entusiasta de programas de código aberto e a hora de abandonar o kit pirata da adobe finalmente chegou.