Certa vez Nadico me perguntou de onde eu era e respondi que tinha vindo de dentro da terra. Meu pai, por muito tempo me disse que ele e os irmãos nasceram de dentro de um pé de couve. Não por acaso, por esses dias fui parar em brasília, no quarto encontro nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores em comemoração aos trinta anos do movimento e ao legado do Frei Sérgio. De onde eu vim, tem mais gente que também veio.
Chorei nas plenários do primeiro e do último dia. Na primeira porque é realmente impressionante ver tanta gente unida por um desejo fundamentalmente humano. Na última chorei porque foi a primeira vez na minha vida em que vi crianças sendo tratadas com tanto respeito dentro de um ambiente político. Pra mim essa foi uma das partes mais legais do evento. 88 crianças subiram ao palco e cinco delas leram para os adultos em plenária uma carta onde elencavam coisas que gostavam e que não gostavam do atual momento da vida camponesa. Elas estavam preocupadas com a falta de espaços para brincar, com o desaparecimento das escolas rurais, com as crises ambientais e também tinham esperança e alegria no contato com os pais, com a natureza e na manutenção de um modo de vida que tem a vida e a comunidade como centro.
Os oradores também apontavam bastante ao longo do evento a relação histórica da luta camponesa com a luta dos povos negros e indígenas. Entendendo o movimento camponês como parte específica de um todo diverso sem esquecer da diversidade interna do próprio movimento camponês. Um dia inteiro de plenária foi dedicado à discussões sobre o feminismo camponês, sobre o respeito à diversidade de sexualidade e gênero e sobre o combate ao racismo. Essa diversidade se fazia ver e ouvir a todo instante e as discussões deixaram como dever de casa para os camponeses a participação ativa na luta contra a intolerância, o desrespeito e o preconceito no campo.
O movimento entende que sem comida não existe liberdade e tem como bandeira principal a soberania alimentar. Sabendo que sem terra não é possível a produção de alimento o movimento também luta pela soberania territorial. Nas plenárias do movimento também se falou muito sobre a distribuição de alimentos. Em algum momento alguém disse que "não adianta plantar orgânico, em sistema ecológico tudo bonitinho e depois entregar pro WalMart vender". Também é clara para o movimento a importância de manter o domínio das tecnologias de produção e reprodução biológica, fazendo a guarda de sementes e espécies crioulas e mantendo junto dos povos a capacidade de plantar e replantar o próprio alimento.
Pra quem não tem muito contato com o campo: talvez você não saiba, mas existe uma série de empresas que vendem sementes geneticamente modificadas que são capazes de produzir mesmo expostas a grandes quantidade de veneno e que não são capazes de se reproduzir a partir de processos tradicionais de plantio e quando são, podem acabar gerando processo contra os agricultores por usar essas sementes sem pagar por isso. A indústria do agro chama isso de sementes proprietárias. E é muito importante apontar aqui que: a agricultura camponesa não é o agronegócio e que a maior parte da comida que acaba na mesa da população brasileira é proveniente das agriculturas camponesas, tradicionais e familiares.
Em algum momento também se falou bastante sobre a soberania digital e essa é uma parte sobre a qual as estratégias do movimento ainda não ficaram muito claras pra mim. Ao mesmo tempo entendo que existir e organizar a vida a partir de plataformas comandadas por bilionários americanos é sim um problema que precisa ser enfrentado, assim como também precisa ser enfrentado o discurso mentiroso do agronegócio que corre solto nas redes .
O que a cada vez mais aparece e se repete pra mim ao longo dessa movimentação é o sentimento claro de que existe uma outra coisa pra além dos caminhos hegemônicos e de que não sou o único disposto a caminhar por outras trilhas. O ar seco de Brasília é horroroso, a comida dos camponeses estava ótima, aprendi muito e tenho ainda muito o que aprender. Queria ter fotografado mais, mas acabei passando uma parte considerável do evento acometido por uma doença e não estava em condições de ficar carregando a câmera de um lado pro outro. Dito isso o evento estava lindo, cheio de gente muito bem vestida, comida gostosa, ótimas ideias e boas intenções. Vamos ver o que vem daí pra frente!
As primeiras fotos são do pessoal da caravana aqui da região e depois tem algumas fotos lá do evento. Na próxima espero não ficar doente pra poder fotografar mais.
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