Um texto pra quem me lê.

 Eu me senti bastante surpreso ao ser confrontado com o sulflix. Não era uma coisa que eu tava esperando e não era uma coisa que eu sabia que ia gostar, mas quando eu vi alguém falando sobre eu com certeza achei uma boa ideia. Dez reais por mês pelo poder de assistir filmes feitos em lugares que eu já vi, com pessoas que falam de um jeito que parece com o meu é um bom negócio pra mim.

Me agrada a ideia de que existe gente tentando viabilizar e distribuir o cinema regional apesar dos pesares. E o nosso cinema regional é interessantíssimo. Eu assisti Antes que o mundo acabe hoje. Eu pensei bastante sobre a minha adolescência enquanto assistia. As poucas vezes em que andei por Porto Alegre, os mal entendidos, os desentendimentos, os meus amigos, os meus amores, os desamores e todo o resto das coisas que afligem um adolescente.

Eu também pensei bastante sobre filmes com esse filme, ele usa uma série de recursos de áudio, fotografia e vídeos de uma maneira específica, brincando com a atmosfera do som e com como percebemos as imagens, oferecendo a quem assiste um pouco mais do que uma representação da realidade. A montagem me divertiu e a ideia dos vários narradores ao longo da história contribui bastante pro retrato que o filme pinta. Um retrato em filme, de um sentimento muito específico. Eu gostei bastante.

Fim de ano, não sei o quê, não sei que lá, acho que esse é um bom momento pra pensar sobre o passado. Me pergunto por quanto tempo vou pensar sobre as mesmas coisas e se mais alguém pensa nelas. Se alguém pensa sobre o que eu faço e como pensa sobre isso.

Na adolescência a vida era outra, me pergunto como vai ser quando o outro for o eu de agora.

p.s.: A banda dos créditos do filme, caso você não assista cham os the darma lóvers e eu gostei muito dela. 

Dez vistas de dois mil e vinte e um.

Tenho tentado menos nos últimos tempos. Sinto que tenho entendido um pouco das coisas que vejo.
Ando brincando mais com o desenho. Eu nunca aceitei muito bem a ideia de que desenho não é pintura. Tenho pintado. 













Estes são alguns desenhos que fiz com todo o tempo que quis. Usando o que eu queria. Algumas vistas que desenhei por impulso ao longo deste ano. Nenhuma delas demorou muito, não contei o tempo em nenhuma delas, mas reparei que o sol não mudou muito entre o começo e o final de nenhum destes desenhos. 
Tenho me divertido. 
Tenho tentado entender os meus impulsos.

Eu nunca sei muito bem o que fazer com as coisas que eu penso.

Eu sei que tá na moda falar mal da televisão e etc e tal mas eu nasci no meio dos anos 90 no Brasil e a televisão, principalmente através dos programas de auditório foi uma parte importante da minha formação. Foi através da televisão que eu conheci uma parte considerável das ideias sobre as quais eu pensei ao longo da minha adolescência e nesse começo de idade adulta. 

Eu não assistia ao Faustão ao vivo em 2003, eu tinha sete anos. Mas hoje eu pude assistir a um programa que passou em um dos melhores horários da televisão à época, com um dos maiores apresentadores da televisão brasileira com uma das figuras mais proeminentes do movimento hip hop e me peguei pensando sobre tudo o que aconteceu nessas quase duas décadas que separam o momento em que assisti essa entrevista do dia em que ela foi ao ar. 

O que aconteceu com a televisão, com as favelas, com a CUFA, com o Faustão, com o MV Bill e com todo o resto que das coisas que mudaram ao longo desse tempo e o que a gente faz a partir de agora são perguntas importantes. Quais foram os nossos acertos e erros coletivos também são boas coisas pra se perguntar. Assim como podemos nos perguntar o que é que queremos dizer quando falamos em nós. 

Eu acredito que é importante que a gente faça essas perguntas pra todo mundo, tem que perguntar pra político, pra artista, pra jornalista, pra empresário, pra trabalhador, pra vagabundo e principalmente é importante perguntar pra nós mesmos. E é interessante que a gente saiba que não precisa aceitar resposta alguma, podemos inventar as nossas próprias.

Mas também pode ser que eu só esteja falando bobagem na internet, eu sou bom nisso. Enfim, se você leu essa merda aqui até o fim e não tem nada melhor pra fazer assiste aí o MV Bill no Faustão em 2003 e pensa um pouco sobre o assunto. Pode ser que você curta.



Uma conversa com Gigi


Existe um tipo de novidade que só pode ser vista a partir da observação contínua e cotidiana. O tempo é uma dimensão e eu acho esquisito pensar sobre isso. 

Com o uso de um instrumento de registro um sujeito é capaz de produzir um corte do mundo, recortado de sua própria realidade. Produzindo um tipo de janela para um aspecto específico de uma existência específica. Ainda não pensei muito sobre o que significa olhar pelas janelas alheias, mas é algo a se pensar.

Gigi conversou comigo sobre a ideia de mostrar quando fiz essas fotos. No que mostramos, pra quem mostramos e o que poderíamos querer com isso. Dar a ver. 



Finalmente esse filme ficou pronto.

feat. Gigi e Ezeqqi.



É mais comum do que eu gostaria na minha vida ter coisas quase prontas. Algumas ficam assim pra sempre. Não foi assim dessa vez e isso me deixa contente de uma forma ou outra. 

Nesse caso não faltava quase nada. Tudo foi animado na primeira semana de abril pra um desses eventos de coisas feitas em uma semana. Menos o som, o som a gente deixou pra depois. E agora ele tá pronto. 

Eu gosto bastante desse curta porque apesar de uma semana ser bem pouco tempo, a gente conseguiu organizar o projeto de maneira que nenhum dos três membros da equipe tenha precisado passar uma noite sequer em claro pra cumprir o prazo. Eu considero isso um projeto bem sucedido.

Pra isso a gente acabou dividindo as tarefas de acordo com as vontades e capacidades de cada um. Pensamos sobre o argumento e o roteiro em conjunto, numa reunião de umas quatro horas e depois organizamos o resto. A pré-produção foi dividida entre eu e Gigi; ela trabalhou nos storyboards enquanto eu desenvolvia os personagens e cenários. E a animação foi dividida entre nós três. Eu fiquei com todas as cenas onde aparece algum bichinho, o Ezeqqi animou a explosão do começo, a menina com a bicicleta e os personagens do final e o resto ficou com a Gigi que também cuidou da montagem do filme. Tudo ficou pronto mais ou menos umas seis horas antes do prazo e como a gente tinha pouquíssima experiência com som, à princípio o filme tinha ficado em silêncio mesmo.

Até que a gente resolveu mexer no som. Comecei à tocar pífano à uns dois anos e todo mundo concordou em me deixar tentar compor alguma coisa pro filme e Gigi que agora está fazendo um curso de produção musical adicionou todo o resto dos sons e organizou a minha flautinha pra que ela fizesse sentido junto da animação. E o resultado foi esse. 

Ver esse filme pronto me fez lembrar dos outros projetos que eu tenho que estão quase prontos e me da um pouco de vontade de voltar a trabalhar neles. É difícil terminar as coisas, mas eu gosto de ver elas prontas.

Desenhos de olhos e abstrações disso.

 Olhos me perseguem à muitos anos. Nas escolas, nas ruas, nos bares, nos rolês, nos supermercados, eu sempre notei gente me olhando. Sempre olhei de volta. Sempre tive olhos em mente. 

Talvez por isso eu tenha desenhado tantos olhos ao longo da minha vida. Nos meus cadernos, no meu corpo, nos meus trabalhos, nas paredes do meu quarto e em todos os lugares onde pude. Muitos desses desenhos se perderam no meio das mudanças e crises de identidade que me também me perseguiam.

Por um tempo eu tentei não desenhar olhos. Eles sempre apareciam quando eu parava de prestar atenção. Ano passado eu fiz uma série de abstratos que eu queria já ter postado aqui, mas que nunca soube muito bem como escrever ou falar sobre. Quando comecei escrever esse texto, percebi que eram olhos. Depois disso que entendi que não ligo muito pro formato anatômico dos olhos. Me interessa a ideia de um olho. Um círculo ou uma esfera, dentro de outro círculo ou esfera que é ao mesmo tempo mira e alvo de uma coisa tão potente e inofensiva quanto um olhar.

Eu desenho olhos. Isolados ou com coisas ao redor. Uma vez o Vicente me desenhou com quatro olhos e isso foi mais importante pra mim do que eu entendi que era quando aconteceu. 

Tô aprendendo a escrever em hiragana também. Risquei a letra fu várias vezes em uma parede aqui de casa simplesmente porque eu acho gostoso de escrever ela nos lugares. Ficou horroroso. Coloquei uma madeira que pintei com a Gigi esses dias na frente e deu uma resolvida no Feng Shui. 

Dia desses entre treinar minha caligrafia em japonês e desenhar olhos acabei inventando os Zóis. Eu queria saber o que é que eles enxergam com esses olhos que eu inventei e se eles gostam disso. Esses e outros desenhos, de olhos ou não, citados no corpo desse texto ou não, podem ser vistos à seguir. Olhe, sabendo que eles olham de volta. 

Os olhos que desenhei no meu corpo:


Os olhos das minhas paredes:



Os abstratos que são olhos: 







Alguns dos olhos que apareceram pelo meu caderno em nenhuma ordem em particular:







Alguns desenhos de hiraganas, minha parede e a madeira pintada:









Os olhos mais recentes e os Zóis que surgiram deles: 




p.s.: Um dia eu ainda quero tatuar um zói em alguém, porque eu acho que ele ia poder ver muita coisa se estivesse preso em um corpo