As vezes eu demoro muito pra rever as coisas.

Por um motivo ou outro fazia um bom tempo que eu não olhava o rolo de fotos da minha câmera - acho engraçado como as palavras analógicas seguem sendo importantes mesmo quando as coisas ficam digitais. Percebi que esqueci muitas das fotos que fiz. Revi as fotos do encontro do MPA e achei pertinente escrever alguma coisa sobre. 



Acho que em algum lugar da caixa de fotografias do meu pai ainda existe uma foto de mim com uns sete ou oito anos na frente de uma bandeira do Movimento dos Pequenos Agricultores. 

Meu pai participou da organização por uns bons anos até passar no concurso da EMATER onde trabalha até hoje. Ele conta que em uma das manifestações ele e outros dez homens levantaram do chão o carro de um sujeito que tentou ameaçar os manifestantes com o veículo. Lembro de ele falar bastante sobre queimar pneus e de pastas de documentos importantes durante os primeiros anos dos quais eu lembro da minha infância. 

Meu pai se concentrou no trabalho e eu fui correr um pedaço do mundo. Perdemos um pouco o contato com o movimento e em algum momento pra mim o MPA acabou virando mais uma história do passado. Mal sabia eu que o movimento segue vivo, organizado e cheio de potência enquanto forma uma próxima geração de indivíduos engajados no trabalho de transformação social. 





Do ano passado pra cá fui a algumas reuniões do movimento e tenho aos poucos descoberto o que aconteceu no movimento nos últimos dez ou doze anos e o que vem acontecendo hoje em dia. Comecei a leitura do plano camponês e entre uma pesquisa e outra descobri que existem outros movimentos organizados da luta campesina. Movimentos que raramente ou quase nunca chegam nas pautas da imprensa tradicional e justamente por isso escapam do conhecimento e do imaginário popular. Imagina que eu com quase trinta anos, vindo de uma família de camponeses, com parentes assentados e tudo não sabia direito sobre as mobilizações dos trabalhadores do campo. E isso que eu sou estudado, fui pra faculdade e tudo. Me pergunto o quanto as pessoas que não tem contato com o campo sabem sobre essas coisas.

Meus próximos passos são um pouco nebulosos, acho que sempre foram e talvez continuem sendo até o fim da vida. Espero pelo menos conseguir ligar os faróis e poder ver melhor o que existe ao meu redor.


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