Talvez a gente precise conversar mais entre nós.

 Se a expressão do espírito é de fato o que ele compele o corpo à fazer, o que eles fizeram conosco importa realmente muito pouco e talvez Sartre estivesse mesmo correto ao perguntar: o que faremos com o que fizeram de nós? Cada um de nós vive ao longo de um conjunto de eixos que nos aproximam ou distanciam dos mais variados tipos de poderes sociais. Classe, raça, gênero, sexualidade, nacionalidade, cargo e assim sucessivamente. Majoritariamente ocupamos posições distantes do centro do capitalismo, da democracia burguesa, de brasília, dos estados unidos e da inglaterra. Estamos perto dos bairros, dos ladrões, das igrejas, dos bares, das praças, dos campos, de nossos vizinhos e colegas. Sinto que passamos um longo tempo nos perguntando o quão longe estamos do centro, da riqueza, do privilégio, da propriedade e do poder e muito pouco tempo nos perguntando das nossas relações com essas coisas, do que podemos fazer com o que temos e de quais são as nossas responsabilidades no mundo em que vivemos. 

Em algum momento a identificação de eixos de opressão se confundiu com a identificação com os eixos de opressão. Deixamos de ser pessoas que sofrem a opressão de outras pessoas e sistemas e nos tornamos oprimidos. Removemos do nosso sofrimento o conceito de transitoriedade, nos agarramos com unhas e dentes na ideia de sermos oprimidos. Começamos então uma grande competição hierárquica cujo vencedor é aquele capaz de se identificar com a maior quantidade de sofrimento possível e como nenhuma dessas identificações é genuinamente humana todos sempre perdem. 

Nem mesmo o Buda de mil braços foi capaz de livrar o mundo do sofrimento e frente as mazelas do mundo, mesmo que por um único instante ele também exitou. Não é sempre que consigo fazer algo de útil ou importante, não é sempre que consigo fazer o melhor que posso e mesmo quando sou capaz de algo, não é sempre que sou bem sucedido. Longe de mim querer ser Buda, tenho apego de mais pra isso. E sei que existem caminhos diferentes pra humanidade. Nem tudo precisa ser uma competição. 

E se a espressão do espírito realmente é o que ele compele o corpo a produzir no mundo talvez falte algo aos que existem em sí e para si mesmos. Talvez alguns espíritos ainda precisem aprender a existir para o mundo. 

O que eu quero dizer com isso é que tem um limite de o quão útil é saber qual é o conjunto de opressões sofridas por um determinado sujeito e seus semelhantes históricos dentro de uma sociedade nascida a partir de um processo extrativista. Acho que esse limite se encontra justamente no momento em que o pensamento se torna prática. Compreender o que foi sofrido fala sobre o que precisa ser feito, sobre o que se pode fazer e talvez não exista nada menos mobilizante do que observar uma tarefa hercúlea sem entender as próprias capacidades. 

E sabendo disso acho que se faz importante desde que esta sociedade se estabeleceu que os sujeitos pensem também sobre suas capacidades: Quais os recursos que temos disponíveis? Quais são as pessoas com quem temos contato? Quanto tempo estamos dispostos à oferecer para nossas comunidades? Do que estamos dispostos à abrir mão pela melhora da vida coletiva? Como podemos nos organizar para agir a partir das posições que ocupamos? Podem ser algumas perguntas que nos levem a uma perspectiva de mundo um pouco mais ativa do que passiva, existem muitas outras que não fiz e mais ainda que não sou capaz de formular. Até mesmo pra pensar de maneira efetiva acredito que precisamos uns dos outros. 


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