A falta de rigor com a própria intelectualidade é uma vergonha.

 Não mais sabe qual é que é também? Ignorância é sim uma falha moral e, peço desculpa à todos os burros e preguiçosos; não estudar as coisas do mundo é um comportamento objetivamente ruim. Ah mas a gente devia estudar o tempo inteiro? Obviamente não. Ah mas a gente precisa estudar o cânone de algum tipo específico de ciências? Não exatamente. Ah mas então o que é um comportamento que você, sujeito anônimo da internet considera moralmente correto? Que bom que você perguntou meu caro internauta. Vou responder suas dúvidas. 


Não acho que todo mundo precise saber de tudo e nem que toda vida precise ser dedicada ao conhecimento e acredito do fundo do meu peito que uma parcela da vida precisa se dedicar à tal tarefa. Não acho que é socialmente produtivo que uma parcela da população se dedique ao estudo em tempo integral enquanto outra não recebe nenhum incentivo para o estudo. Não é atoa que aqueles que pretendem dominar as nossas vidas dedicam tanto tempo aos estudos, ou pelo menos não é atoa que eles fingem que dedicam tanto tempo aos estudos. Pra qualquer um que tenha estudado até uma certa quantia fica bem fácil de saber o quanto os outros estudaram só de ouvir como eles falam. Estudar é a única coisa que pode nos impedir de ser enganados por alguém que tenha estudado um pouco mais do que nós e também é o que nos impede de ser enganados por alguém que só finge que estudou. 

A importância de conhecer as bases do pensamento cietífico e filosófico está menos no conhecimento em sí e mais na capacidade que esse conhecimento oferece de verificar a qualidade e a veracidade do pensamento alheio. Conhecer de economia, ciências políticas, ciências sociais, atropologia, filosofia, artes, psicologia, biologia, química, geografia e matemática é o que nos torna capazes de diferenciar verdade de mentira. Em um mundo que vive a era da pós-verdade nada mais importante do que a capacidade de verificar informações e infelizmente com o excesso de informações, com o amalgamento de fontes, com a quantidade gigantescas de mentirosos e falsários; sem conhecimentos estruturantes das áreas basilares das ciências comuns nos tornamos vulneráveis. Não atoa cada vez mais e mais campos científicos são suprimidos dos currículos de nossas escolas e são substituídos por "conteúdos práticos" e "importantes para o dia a dia". Uma parcela da sociedade vibra quando são diminuidas as cargas horárias de geografia, ciências sociais, químicas e biológicas, artes e literatura. E conforme isso acontece surgem cada vez mais cultos à ideias malucas que não se sustentam frente ao mais básico escrutínio teórico. A terra plana, o negacionismo climático, o neo-liberalismo, a exportação de commodities e assim por diante. E sentado em cima de cada ideia de merda dessas tá um desgraçado aproveitador chupando o sangue de gente que não sabe de nada direito. Seja porque não teve acesso, seja porque não teve vontade, seja porque não teve o tempo necessário pra se dedicar a tal. E independente do motivo, pra cada minuto que perdemos sendo ignorantes, uma parcela da nossa vida é roubada enquanto somos incapazes de perceber. Ser burro e ignorante é péssimo pra todo mundo e é pior ainda pra gente que por burrice e ignorância abandona amigos, perde oportunidades, ocupa empregos subalternos por salários irrisórios, fica sem ter roupa boa pra vestir, come mal, bebe mal e vive mal. Ser burros e ignorantes é o pior que podemos fazer pra nós mesmos e acho que é meio burro e ignorante fazer o pior que se pode fazer pra sí mesmo. O mínimo que deveríamos pra viver no mundo era entender o que acontece ao nosso redor.

Talvez a gente precise conversar mais entre nós.

 Se a expressão do espírito é de fato o que ele compele o corpo à fazer, o que eles fizeram conosco importa realmente muito pouco e talvez Sartre estivesse mesmo correto ao perguntar: o que faremos com o que fizeram de nós? Cada um de nós vive ao longo de um conjunto de eixos que nos aproximam ou distanciam dos mais variados tipos de poderes sociais. Classe, raça, gênero, sexualidade, nacionalidade, cargo e assim sucessivamente. Majoritariamente ocupamos posições distantes do centro do capitalismo, da democracia burguesa, de brasília, dos estados unidos e da inglaterra. Estamos perto dos bairros, dos ladrões, das igrejas, dos bares, das praças, dos campos, de nossos vizinhos e colegas. Sinto que passamos um longo tempo nos perguntando o quão longe estamos do centro, da riqueza, do privilégio, da propriedade e do poder e muito pouco tempo nos perguntando das nossas relações com essas coisas, do que podemos fazer com o que temos e de quais são as nossas responsabilidades no mundo em que vivemos. 

Em algum momento a identificação de eixos de opressão se confundiu com a identificação com os eixos de opressão. Deixamos de ser pessoas que sofrem a opressão de outras pessoas e sistemas e nos tornamos oprimidos. Removemos do nosso sofrimento o conceito de transitoriedade, nos agarramos com unhas e dentes na ideia de sermos oprimidos. Começamos então uma grande competição hierárquica cujo vencedor é aquele capaz de se identificar com a maior quantidade de sofrimento possível e como nenhuma dessas identificações é genuinamente humana todos sempre perdem. 

Nem mesmo o Buda de mil braços foi capaz de livrar o mundo do sofrimento e frente as mazelas do mundo, mesmo que por um único instante ele também exitou. Não é sempre que consigo fazer algo de útil ou importante, não é sempre que consigo fazer o melhor que posso e mesmo quando sou capaz de algo, não é sempre que sou bem sucedido. Longe de mim querer ser Buda, tenho apego de mais pra isso. E sei que existem caminhos diferentes pra humanidade. Nem tudo precisa ser uma competição. 

E se a espressão do espírito realmente é o que ele compele o corpo a produzir no mundo talvez falte algo aos que existem em sí e para si mesmos. Talvez alguns espíritos ainda precisem aprender a existir para o mundo. 

O que eu quero dizer com isso é que tem um limite de o quão útil é saber qual é o conjunto de opressões sofridas por um determinado sujeito e seus semelhantes históricos dentro de uma sociedade nascida a partir de um processo extrativista. Acho que esse limite se encontra justamente no momento em que o pensamento se torna prática. Compreender o que foi sofrido fala sobre o que precisa ser feito, sobre o que se pode fazer e talvez não exista nada menos mobilizante do que observar uma tarefa hercúlea sem entender as próprias capacidades. 

E sabendo disso acho que se faz importante desde que esta sociedade se estabeleceu que os sujeitos pensem também sobre suas capacidades: Quais os recursos que temos disponíveis? Quais são as pessoas com quem temos contato? Quanto tempo estamos dispostos à oferecer para nossas comunidades? Do que estamos dispostos à abrir mão pela melhora da vida coletiva? Como podemos nos organizar para agir a partir das posições que ocupamos? Podem ser algumas perguntas que nos levem a uma perspectiva de mundo um pouco mais ativa do que passiva, existem muitas outras que não fiz e mais ainda que não sou capaz de formular. Até mesmo pra pensar de maneira efetiva acredito que precisamos uns dos outros. 


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