Talvez não tenha nada em vida que comece de algum ponto que não seja o meio. Talvez as únicas histórias que comecem do começo sejam os grandes mitos da criação e mesmo eles já começam com algumas coisas estabelecidas. Mesmo que sejam apenas o caos e a escuridão. Até o big bang pressupõe algo antes do começo - mesmo que não se saiba o quê exatamente - e sabendo disso tudo, quem seria eu pra querer começar de algum lugar que não o meio. Começo no meio sabendo que o meio é uma palavra engraçada que significa ao mesmo tempo uma parte de um processo e o modo através do qual um processo acontece. Tanto o texto quando a imagem são meios, assim como a escultura, o cinema e o rádio. Mídias, meios. Começar pelo meio não é só começar a partir de algo, também é começar de acordo com o modo de fazer, com a mídia. Já faz um tempo que a usar internamente a ideia de que as pessoas também são meios. É através das pessoas que as ideias se manifestam no mundo. Então, de certa forma começar pelo meio pra mim é começar por mim e começar por mim é começar por algo que já começou a um tempinho.
Talvez a parte difícil pra mim de começar muitos textos seja essa ânsia esquisita que sinto as vezes de que o começo precisa de mais contexto e se o começo for um meio que começou mesmo de outro meio talvez eu nunca encontre o contexto necessário. Talvez o que eu quero dizer mesmo comece justamente aqui, a essa altura deste texto neste blog.
A maior parte da minha vida acontece do lado de fora da internet. Gosto bastante daqui e sei que este lugar não é e nunca será o suficiente nem pra mim e nem pras coisas que acredito que sejam importantes de se fazer no mundo. Plantei muitas árvores nesse mês e não é disso que esse texto trata ou talvez não exatamente disso. Inscrevi em um edital da prefeitura daqui do município um projeto de pintura pra Semana do Patrimônio e o projeto foi aprovado. Participei de uma encenação para o mesmo evento e mesmo que isso venha ao caso não faz parte do cerne deste texto em específico.
A realidade orçamentária e o prazo orientaram a construção do projeto: uma pintura em formato retrato de 2x1 metros onde formas e cores organizam uma certa reflexão de momentos temporais diferentes da história do município. Sempre gostei de tinta óleo. Assim que soube da aprovação corri em Porto Alegre comprar um monte de tinta, cortei um tapume que tinha aqui em casa pra usar de suporte, dei umas dez mãos de gesso acrílico e parti pro trabalho.
Sempre gostei de trabalhar na rua. Desde a época da faculdade. Talvez ainda muito antes disso. Passei muito tempo caminhando pelas calçadas de Maçambara e quase tanto tempo quanto pelas calçadas de Pelotas. Andei pelas calçadas de Floripa e também nas de Barra Velha, Piçarras e Penha. Surpreendentemente não ando tanto assim pelas calçadas de Taquari. Não conheço a cidade em que vivo tão bem quanto conheci outros lugares em que vivi e tenho tentado aos poucos mudar isso. Também tenho tentado aos poucos me deixar ser conhecido pela cidade.
Acho que nesse ponto essa foi uma ótima experiência, ao longo de cinco dias eu e o meu trabalho tivemos contato com crianças, jovens, adultos e idosos. A Wal tava por ali na maior parte do tempo tirando fotos e nem todo mundo quis ou pode aparecer nos registros. Tomamos o cuidado pra não fotografar o rosto de nenhuma das crianças e teve um grupo cuja responsável pediu que não fosse registrado. Algumas pessoas interagiam rapidamente na cruzada e algumas outras passavam um tempo conversando comigo, falando sobre arte, sobre a cidade e sobre as próprias vidas. Algumas pessoas pegaram o meu contato pra pedir orçamento mais pra frente e uma senhora me ofereceu um pouquinho de bolo.
Muitas crianças pararam pra conversar comigo, pra me assistir pintar ou pra me perguntar o que era o quê na tela, se eu ganhava dinheiro pintando e quando é que a pintura ia ficar pronta. Teve um sujeito que me contou que no primeiro dia achou que eu só tava fingindo que tava pintando pra tirar foto. Recebi até algumas cartinhas. Conversei com algumas pessoas sobre o distanciamento que existe entre as práticas artísticas e o dia-a-dia. Também tive alguns papos sobre a história de Taquari, sobre os processos de colonização e desenvolvimento do município assim como sobre o que se herda disso tudo e o que se busca deixar como patrimônio daqui pra frente. Teve um menino que apareceu com um cachorro lindo e ficou um bom tempo sentado comigo, me contou sobre o que vinha estudando na escola sobre a cidade, sobre as músicas que escuta, sobre os passeios com o cachorro e sobre como achou que as minhas mãos sujas de tinta demonstravam meu comprometimento com o trabalho.
Não vou entrar no espaço simbólico do trabalho porque acho que a partir de feita a obra ganha uma certa vida própria que faz com que já não caiba mais ao autor dizer o que uma imagem significa ou deixa de significar. Inclusive porque muitas vezes as palavras do artista, as do espectador e as do crítico raramente são as mesmas. Também porque assim como o Criolo eu também odeio explicar gíria.
No aspecto técnico eu me diverti pra caramba, gosto muito da materialidade e da maleabilidade da tinta óleo. Me sinto um pouco mágico sempre que misturo exatamente a cor que quero e também quando modifico a textura da tinta com óleo ou solvente. Amo demais jogar e raspar tinta na tela com a espátula também. O fazer da tinta óleo me diverte e também acho que tem uma coisa específica da parte de pintar com prazo que me coloca em um estado de trabalho que não gosto de manter o tempo todo e que é legal de tempos em tempos. Normalmente demoro entre duas ou cinco semanas entre uma camada e outra quando pinto daqui do meu escritório e aí pintar uma imagem em quatro dias de trabalho meio que da uma rasteira no meu processo e acaba exigindo de mim uma postura na qual só o prazo é capaz de me colocar. Brinquei com a iluminação, com contrastes, com cores, com cinzas coloridos - sempre lembro da Vivi quando penso neles -, com texturas, misturas e volumes. Me diverti com as tintas porque é disso que sinto que nasce um bom trabalho e quando senti que não tinha mais nada pra fazer dei o trabalho por terminado.
E agora a tela fica, era pra ter sido fixada em uma parede externa e pelo que a Sabrina - que é a secretária de cultura daqui no momento - me disse acho que vai pro saguão da prefeitura. Acho que podem surgir outras oportunidades a partir dessa daqui pra frente e as vezes acho engraçado pensar sobre essa coisa toda de ser artista e os percursos através dos quais isso me levou e talvez siga me levando daqui pra frente.
Tem um monte de outras coisas acontecendo e algumas que já aconteceram a bastante tempo sobre as quais quero escrever aqui e infelizmente o corre nosso de cada dia tem me impedido de sentar e organizar tudo da maneira como eu gostaria. De aprendizado desse projeto acho que fica a noção de que um trabalho de dois metros é bem grande e que as vezes é bom pensar também no transporte e no armazenamento. Acho que também seria legal ter uma ata de pessoas que viram o trabalho na rua, mesmo sabendo que nem todo mundo vai assinar, como nem todo mundo quis tirar uma foto. Também acho que seria legal colher depoimentos das pessoas que viram os trabalhos, tô fazendo um curso sobre indicadores de economia cultural e criativa e essas coisas acabam sendo bastante importantes pra validação da ação e do seu impacto e essas coisas. Tinta branca nunca é demais e as vezes é importante cuidar a previsão do tempo antes de sair de casa.
Fazer e pensar cultura talvez seja muito mais difícil do que parece. Trabalhar com a reflexão e a valoração do cotidiano é uma coisa que nunca me imaginei fazendo enquanto lia Certeau. Essa coisa toda de cultura também acaba aparecendo bastante nos meus pensamentos sobre ecologia, campesinato, trabalho rural e toda uma outra troça de coisas que fazem parte do solo da vida cotidiana. Talvez as pessoas sejam mesmo apenas árvores com as raízes do lado de dentro.