Homem é uma categoria inerentemente violenta porque coloca vítimas e perpetradores como iguais. A categoria homem me coloca ombro à ombro com sujeitos que abusaram sexual, emocional, e fisicamente de mim e me diz que eu e eles somos a mesma coisa. A categoria homem me coloca ao lado de sujeitos que me machucaram e humilharam ao longo da minha vida, me diz que nós somos iguais e uma série de discursos em torno desta categoria me dizem que sou eu quem precisa resolver o problema dos meus algozes. Essa categoria faz o mesmo com aqueles contra quem reproduzi as violências sofridas e lhes diz que somos iguais.
Homem também é uma categoria violenta porque é representativa de um ideal inalcançável de beleza moral e justamente por isso é uma categoria tão frágil. É justamente pelo status de ideal que a categoria homem carrega em sí que uma das primeiras coisas que é dita sobre sujeitos que se comportam de maneiras social ou pelo menos publicamente reprimíveis é que eles não são homens. A ideia de que homens de verdade são bons, honestos, corretos, justos, trabalhadores e assim por diante e qualquer um que não seja não é um homem de verdade é uma ideia bastante popular. Mesmo que isso não tem nada a ver com os homens reais que justamente por existirem no mundo material em nada se parecem com essa idealização. O ideal masculino é violento porque reprime de maneira enfática todo um conjunto de ferramentas de auto expressão que são fundamentais para o manejo de pulsões e faltas humanas que quando abandonadas transformam o humano em uma criatura faltante chamada homem. Este ideal, junto de sua contraparte é enfiado goela abaixo em crianças desde o momento em que elas começam a entender o mundo e ai delas se não engolirem. Todos aqueles categorizados como homens que se recusam à perseguir o ideal masculino sofrem violências proporcionais ao tamanho do desvio e tanto a ficção quanto a não-ficção estão cheios de relatos que colaboram com essa leitura.
A violência também é posta na categoria homem por conta da posição que ela ocupa dentro da estrutura social vigente. Historicamente são homens que ocupam as principais posições de poder em sistemas de opressão. Existe uma série de recortes que podem ser feitos de acordo com fatores políticos, geográficos, econômicos e raciais e muitas vezes, justamente por conta destes recortes é comum que um homem ocupe ao mesmo tempo as posições de opressor e oprimido simultaneamente em diferentes esferas. Os Panteras Negras apontaram percepções semelhantes ao fazer uma análise da situação social estadunidense a partir de marcadores raciais. É comum que uma parte considerável dos membros de uma categoria socialmente compreendida como opressora sejam também oprimidos por membros da mesma categoria e isso acontece também entre os membros de categorias entendidas como oprimidas. Essa contradição é necessária para a manutenção dos paradigmas sociais que sustentam a posição de um conjunto muito pequeno de pessoas nas camadas dominantes da sociedade.
A violência profissional é um campo que tem majoritariamente homens em sua força de trabalho. Polícias, exércitos, grupos de mercenários e organizações criminosas são instituições tradicionalmente masculinas que dependem da existência continuada de fenômenos e sujeitos violentos em pequena e larga escala. Estas instituições violentas fazem parte da estrutura da nossa sociedade e dependem da produção constante de vítimas e perpetradores. E pro sujeito violento o trabalho violento é profundamente encorajado por todas as condições materiais que permeiam os trabalhos violentos.
Uma parcela considerável dos principais estudiosos que se debruçam sobre o tema tem como horizonte a dissolução do sistema hegemônico de gênero e tendo sido colocado pelos espaços em que vivi na posição de homem me sinto compelido à caminhar na mesma direção. Não vejo sentido na reforma das estruturas de gêneros como nos são impostas hoje. É muito mais fácil do que fazer e a seguir vão algumas ideias de como atacar a parte difícil.
Nomear o inimigo pode ser interessante e acho divertido chama-lo de ideologia de gênero hegemônica. A ideologia de gênero hegemônica estabelece a relação masculino-feminino como contrários complementares definidos necessariamente de acordo com a genitália. Esta ideologia confina crianças à limitações específicas de crescimento e auto expressão, reprimindo e podando a sua humanidade até que ela se encaixe em um dos dois moldes aceitáveis pelo centro ideológico.
Acho que foi da Audre Lorde que em algum momento saiu algo nas linhas de: Não destruiremos a casa de nossos mestres com as suas ferramentas. Me permitindo a extrapolação de uma ideia alheia: Não acredito que seja possível a libertação dos que vivem sob o jugo do masculino ou do feminino dentro da estrutura hegemônica de gênero. Talvez nenhum dos grandes problemas do nosso tempo possa ser resolvido dentro da estrutura hegemônica do capitalismo justamente porque em sua maioria estes grandes problemas são ao mesmo tempo os combustíveis e os motores do modo de vida global que os produz e que os sustenta.
Dito isso, alguns coletivos humanos buscam saídas para este problema já a algum tempo e talvez um dos primeiros passos para quem de fato busca fazer alguma coisa é a leitura. É a cultura popular quem diz que de boas intenções o inferno está cheio e a história também nos mostra o quão danosa pode ser uma boa intenção mal informada. A leitura daqueles que estudaram, estudam, trabalharam e trabalham pela transformação do mundo é o primeiro e mais fundamental passo para a produção de ações efetivas. Ler os abolicionistas de gênero, ler as pessoas trans, ler as mulheres, ler os não-binaries e ler autores que escapam ou propõem possibilidades de vida pra além dos modos que a hegemônia impõem é necessário pra compreensão das condições e possibilidades materiais de nossos espaços e tempos. Para fazer o melhor possível hoje nos lugares onde habitamos e nas condições em que nos encontramos é importante compreender o que já foi feito, o que já foi pensado e quais os impactos das ações passadas no presente. Absorver ideias, analisar seus resultados e avançar simultaneamente nos campos da teoria e da prática talvez não seja o único caminho e com certeza é um dos mais efetivos. A leitura é tarefa fundamental para a conexão do presente com o passado e é da digestão e da transformação da leitura em pensamentos, ideias e ações que somos capazes de participar de uma continuidade histórica.
Agir a partir dos conhecimentos que se tem nos espaços onde se vive parece mais fácil em um texto do que em uma quarta-feira qualquer. É importante nesse caso não se esquecer dos conhecimentos que se tem sobre os espaços em que se vive. Nem só de teoria revolucionária vive a interação nos ambientes coletivos. Também é importante conhecer, compreender e fazer parte daquilo que se pretende afetar. Para intervir em qualquer ambiente é sempre de grande ajuda abrir bem os olhos e os ouvidos, sentir os cheiros, observar e absorver - pra só depois pensar em transformar. Não se pode mudar o que não se conhece, não faz sentido ser ouvido sem ouvir e não se recebe respeito sem antes oferecê-lo. Existe quem acredite que o choque e a humilhação pública são boas ferramentas de transformação e não sou uma dessas pessoas. Acredito que a transformação surge a partir do respeito, do exemplo, do carinho e de um cuidado que só pode nascer de uma preocupação genuína com aquilo que se deseja transformar. Acredito que a ação transformadora é aquela que surge a partir de uma humanidade compartilhada apesar das diferentes limitações que lhe são arbitrariamente impostas.
Pensar para agir, agir para pensar e assim sucessivamente. Um ciclo de começo, meio e começo de novo como apontava Nego Bispo. A partir deste começo acredito que o mundo mostra um caminho diferente pra cada um por conta das particularidades de cada sujeito e de cada lugar. Não existe uma receita pronta pra mudar o mundo e se ela existisse a gente pode ter certeza de que já existiria uma contra receita pra ela.
Eu odeio o ideal de homem imorrível, invencível e imbrochável que vem nos últimos anos ocupando um certo espaço no imaginário coletivo dessa invenção chamada povo brasileiro. Odeio o ideal do homem bilionário, do patrão, do comandante, do general e do soldado. Odeio a ideia de que um sujeito precisa viver uma vida preso às expectativas que o mundo tem ao redor de sua genitália. Odeio a quantidade de morte e violência que o ideal masculinista impõe sobre o mundo e faço o que posso à minha maneira pra diminuir a influência dele nos ambientes onde vivo, na vida daqueles que amo e carrego a responsa que me cabe como ser humano. Amo profundamente a humanidade e espero que um dia ela se liberte das amarras que limitam, pecarizam e abreviam a sua experiência.
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