Eu tenho sentido vontade de ilustrar livros!

 Vontade é uma coisa esquisita né? As vezes ela simplesmente vem e não tem muito o que fazer além de aceitar que ela veio. E agora eu percebi que eu tenho uma! 

Já vai fazer um ano ou dois que eu recebi pra ler um livro chamado "Out Stealing horses" do Per Peterson. Eu li ele em inglês, o que foi interessante, traduções são interessantes. As vezes eu gosto de ler a mesma coisa em idiomas diferentes pra ver como é que as pessoas dizem essas coisas em cada idioma e como eu entendo o que elas dizem. Dependendo do idioma, toda a linguagem se transforma e algumas linguagens transformam completamente os idiomas.

Romeo + Juliet de 1996 é a minha versão favorita desse que foi um dos romances que eu mais vi contado em versões diferentes. Eventualmente quero ler o original. Mas esse filme faz uma coisa divertidíssima. Eu não sei como ficou na dublagem - no inglês, o filme usa os diálogos da peça original de Romeu e Julieta, como eu não li a peça, não posso falar se são letrinha por letrinha assim como tá escrito lá pelo Shakeaspere, mas passa a impressão de que sim. Os personagens falam essas palavras enormes, daquele jeito super poético, com uns ângulos de câmera mega dramáticos e todo o resto da linguagem é filme adolescente e clipes de rock dos anos noventa, o resultado é incrível. Tem uma cena onde um dos personagens entrega um monólogo enquanto ele dá tiros de pistola no mar. Eu chorei vendo esse filme. 

Tenho tentado aprender japônes através de lições do Duolingo, sinto que a partir do momento em que esse idioma começar a fazer sentido pra mim eu vou pensar de um jeito muito diferente. Tenho uma amiga que vive em Montevideo que quando fala português é super-blasé e é a pessoa mais animada do mundo quando fala espanhol. Eu penso muito sobre isso as vezes. Sinto que a minha fala é completamente diferente da minha escrita e não faço ideia de o quanto essas duas coisas se parecem ou não com o que eu desenho ou se elas tem a ver com como me visto. 

Me interessa muito perceber as diferenças que surgem com os diferentes modos de comunicar. As vezes eu gosto de assistir gente conversando e ficar tentando entender o que é que tá sendo dito pr'além das palavras faladas. Quais são os ritmos das falas, os tons, as forças, os significados, os sentimentos e as relações entre quem se comunica. Nem sempre eu entendo. As vezes eu não entendo nem o que dizem pra mim. Também não é sempre que eu sinto que consigo comunicar com a precisão que eu gostaria.

Penso que a tradução habita um lugar que eu não sei se é paradoxal, mas com certeza é um pouco esquisito que é o lugar de uma tarefa teóricamente impossível, afinal, os entendimentos são tão diverso quanto são os entendedores, e que ainda assim é feita cotidianamente e da melhor maneira possível. Talvez seja um desentendimento entre a teoria e a prática.

Tenho sentido falta de práxis. Tenho sentido falta de fazer e entender ao mesmo tempo. Tenho sentido vontade de traduzir texto pra imagem. Tenho sentido vontade de pensar sobre ideias que não são minhas. Tenho sentido vontade de ilustrar livros!

Um exercício de imaginação!

Imaginemos um mundo outro, um mundo onde não existem patrões ou reis, onde não existam donos para as terras, para as fábricas, para os prédios, para os rios ou para quaisquer outros bens necessários à vida. Um mundo onde quem precisa morar constrói ou habita uma casa, onde quem precisa comer é alimentado e onde quem precisa de algo além disso tem os meios necessários de produzir ou receber qualquer bem através da participação no esforço coletivo de seus pares. Um mundo onde somos pares, onde nossos vizinhos e amigos ocupam a mesma importância nas nossas vidas que as nossas famílias e que aqueles que não conhecemos, um mundo onde as pessoas tem valor por fazerem parte dele. 

Imaginemos um mundo onde as diferenças são encorajadas e aceitas, onde os sentimentos são levados em consideração e respeitados, onde as responsabilidades são coletivas, onde se faz o que se pode e se recebe o que se precisa. Imaginemos um mundo onde as tecnologias servem ao bem coletivo, onde o objetivo do trabalho é produzir mais tempo e qualidade de vida, onde não existem nações ou fronteiras, onde a natureza faz parte da vida coletiva, onde todas as inteligências são reconhecidas e incentivadas ao seu desenvolvimento máximo, um mundo onde podemos nos fazer ouvir e onde sabemos como ouvir aos que nos falam. 

Imaginemos um mundo onde o cuidado é uma responsabilidade de todos para com todos, onde se pode ser muito mais do que apenas um, onde o erro e o fracasso encontram sempre o acolhimento, onde se possa ser amado de maneira incondicional.

Em suma, imaginemos um mundo melhor, mais bonito, mais divertido, mais alegre, mais brilhante e mais potente. Imaginemos um mundo onde podemos ser felizes!

E depois disso, pensemos, como essa imagem se parece e o que ela nos faz sentir.

Eventualmente eu ainda quero me dedicar ao desenho de gente vestida.

Quase tudo que encontro eventualmente se perde, seja em sentido ou de maneira literal. O que permanece é a busca. Um horizonte se distanciando a cada passo em sua direção. Queria dizer que gosto mais da busca do que da coisa que eu imagino que vá encontrar, mas ainda não sou capaz de fazer essa afirmação de maneira cem por cento honesta.

Entre as coisas que tenho precisado fazer e as dificuldades que enfrento em fazê-las tenho desenhado. Eventualmente quero me debruçar a pensar sobre o que o desenho é pra mim. O paint acabou se tornando o meu novo espaço de experimentos e tenho gostado bastante disso. Me sinto menos pressionado com o paint do que com os programas mais "sérios" de produção e edição de imagens e poder infinitamente desenhar por cima do que eu já desenhei antes também funciona bem com o meu processo. 

Dito isso, ficam aqui as imagens mais recentes produzidas no paint. Uma mistura de brincadeiras, estudos e experimentos que tem aos poucos construído uma visualidade bastante específica e que tem me interessado bastante.