Fazer sentido ou fazer outra coisa?

 Não encontro palavras que signifiquem o que eu quero. Apago parágrafos e parágrafos que dizem muitas coisas que eu eu não quero dizer. Comunicar é dolorosamente difícil. E pior ainda é não fazê-lo. 

Os pensamentos se enrolam e me apertam a cabeça. Silêncio. Grito sem significado. Arranco palavras do centro do crânio e as edito assim que as leio. Ignoro o que quer ser dito. Encaro. Respiro.

Já apaguei muitas versões desse texto e de tantos outros. 

Raso e profundo. Uma construção lenta e trabalhosa de um ótimo argumento filosófico sobre abstrações. Os livros do Kandinsky. A obra de arte na era depois da sua reprodutibilidade técnica e os campos do Bordiueu que vão a merda. 

Tenho brincado com abstrações. Tem um texto do Matisse falando sobre o que acontece quando se introduz um vermelho a uma tela em branco que me marcou pra sempre. As vezes eu penso no Oiticica e em como ninguém nunca me contou que ele era anarquista. 

Penso na Vivian me ensinando a conversar com um desenho. No que significa um desenho em uma tela digital. Nessa busca incessante por significado. Nem sempre eu quero pensar. Eventualmente preciso reorganizar o layout desse blog.



















Eu gosto de como eu quase nunca consigo fazer as coisas na ordem em que eu planejo.

Pensei em adicionar uns parágrafos em uma crônica que comecei escrever a alguns anos e percebi que ela precede a era organizada dos meus documentos digitais. Acabei me distraindo com as pequenas histórias que escrevi depois de começar a me organizar. A bagunça é uma grande amiga do acaso. E eu e o acaso com certeza somos ótimos amigos.

Já faz um tempo que eu venho tentando me dedicar à escrita levando em conta que o material dos quais os textos são feitos é o resultado de um trabalho colaborativo e contínuo executado diariamente por todos os falantes. As palavras me assustam um pouco, séculos de usos e significados amassados em uma sequência de símbolos de fácil reprodução. 

Sempre que uso as palavras tento organiza-las com cuidado e com respeito. A linguagem é um presente precioso que recebemos dos nossos antepassados e que remonta uma história que transparece na escolha das palavras, dos temas, das suas posições e dos entendimentos que surgem a partir dela sempre que ela é usada. E é esse presente vivo, mutante e imaterial que nos permite ser como somos e que dá sentido à nossa existência.

Escrevo, porque sou feito de palavras e através delas coloco no mundo um pouco mais do que existe em mim. Escrevo como quem faz um experimento sem ser capaz de entender por completo o resultado.


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Os pés doíam já a algum tempo, mas não era como se isso importasse. De frente pra imensidão quase nada importa. O corpo não importava. Ninguém esperava em casa. Ninguém sabia onde estava e ninguém ligava pra isso. Ou pelo menos era isso que parecia.

O vento corria solto pelas curvas da terra, contornava o que podia e levava consigo tudo aquilo que se deixava carregar. Sonhava em ser como o vento, se deleitava em seu abraço e se deixava ir na direção que ele apontava. Era pesado de mais para ser carregado.

Conhecia o lugar onde estava tão bem como conhecia o resto do mundo. Voltava porque seguir em frente não fazia mais sentido e precisava ir pra algum lugar. Afinal uma viagem só é de fato viagem quando termina. E essa viagem precisava terminar.

Sedento, mastigava com calma e sentia a garganta umedecer com a carne e o suco da fruta. Racionava tudo. Não sabia quando poderia ter mais de qualquer coisa e sabia que estava longe de onde pretendia chegar.

O olho aberto alternava seu foco entre o longe e o perto. O outro se preparava para o escuro. O sol do alto do céu banhava a terra com sua luz e seu calor. Queimava lentamente a pele e a pele respondia com suor. 

As cordas vocais tremiam. Cantando sobre a grama, a estrada, as árvores e o mar. Entregando ao vento para que ele carregasse as esperanças, os desejos, as tristezas, os desenganos, os sonhos e todo o resto. Na estrada tudo isso pesa muito pra quem anda e o vento leva tudo com carinho. 


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- Hey, vem cá ver meu ritual. - me disse do meio do corredor enquanto me observava com os olhos de alguém que via mais um dia à sua frente. Tinha consigo um baú de madeira, do tamanho das palmas das mãos que o seguravam. Segui.

- o quê? 

- eu vou fazer um ritual agora, quer ver? 

- um ritual de quê? 

- ué, de mágica né! - a descrença e a curiosidade se misturaram no meu rosto, me deu as costas e lentamente caminhamos abraçados até o fim do corredor. Entramos no banheiro. 

- Eu vou jogar isso fora. - A caixa carregava um vício. Não vai me entupir o vaso aí ô porra! - uma voz rouca gritava da cozinha. Eu não acho que dá pra entupir o vaso com isso! - Respondeu a voz bem ao meu lado. 

Um sorriso, um beijo, as tampas, os dedos, os rasgos, o despejo, a descarga. Feito.

- Foram muito bons os momentos que tivemos juntos, agora preciso seguir um caminho diferente. 

- Vai guardar o que na caixinha agora? 

A resposta escapou por um sorriso - Meus remédios. 


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O que vamos comer hoje?

De joelhos, a criatura oferecia a sí própria. Com as entranhas entre os dedos ensanguentados segurava a própria vida. Era este o seu único propósito. Não o fazia necessariamente de bom grado e não havia nada que lhe obrigasse a tal. Exceto, talvez, por si mesma. 

Eu faço qualquer coisa por você! Anda! Pega logo! Isso é tudo que eu tenho!

Um rosto imóvel aceitava a oferenda. Lambia as entranhas, sugava-lhe o sangue da ponta dos dedos como de costume. Deixava-se ver por entre frestas da cortina. 

O que foi? Não é o suficiente pra você?

Lambendo a própria boca o rosto respondia. Era mais do que o suficiente e não era o que ele queria. Era apenas o que tinha pra hoje.


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Sem dúvida alguma era um dependente. Sempre entendeu sua força e nunca negou a própria fraqueza. Reconheceu as próprias virtudes e nunca deixou de considerar os próprios vícios. Demorou à perceber que o equilíbrio além de dinâmico é também uma questão de perspectiva. 

Dependia de todas as coisas que se faziam necessárias para a própria existência e fazia qualquer coisa em nome delas. Comida, abrigo, educação, conhecimento, carinho, amizade, respeito, alegria, lazer, amor. Sabendo que a vida levava a morte sentia o tempo escorrendo pela pele e caminhava em seus sentidos sempre tão lentamente quanto lhe era possível.

Viciado na própria existência, fazia sem prazer o necessário pela manutenção da própria continuidade e vivia.

Entregue ao vício esperava com pavor a própria morte.


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Não sei se era o ângulo, o tamanho ou a expressão que compunham. Mas algo ali me atravessava profundamente. Jogava o tempo pela janela e me observava por uma eternidade inteira. Percorria dimensões de mim que eu sequer percebia. Me faziam sentir na pele aquilo que me percebia. Sublime.