Da pra voltar no espaço, mas não no tempo.

O timing realmente é um troço esquisito de mais, eu escrevi isso tudo logo que voltei de viajem, a uns dois meses atrás. Mas aconteceu simplesmente de tudo entre a escrita desse texto e o dia de hoje. Teve inclusive um pane no meu hd que me fez perder a primeira versão das fotos que acompanham essa postagem.  A organização delas era completamente diferente, com direito a grade e margem padronizada, mas esse arquivo foi corrompido e eu decidi que ia fazer outra coisa. Ai eu lembrei dessa postagem da Gabriela e das referências que ela trouxe e decidi tentar algo parecido. O resultado tá aqui. A seguir, minhas palavras de uns meses atrás, ainda um pouco molhadas de nostalgia. 

Eu sempre acho um pouco estranho reencontrar lugares, perceber o que mudou e o que ainda é igual me causa uma sensação estranha. Eu passei uma parte bastante importante da minha vida em Pelotas e em Pelotas eu construí algumas relações bastante importantes para mim. 

Voltando agora, a Gonçalves já não parece mais tão grande, a Pedro Osório não parece mais tão linda, os casarões não parecem mais tão imponentes e o calçadão não parece mais tão impressionante assim. Tudo parece um pouco familiar e completamente diferente. 

O meu restaurante favorito do calçadão não estava mais lá, como não estavam mais algumas das lojas, bares e casas que eu frequentava na cidade. A moça que tocava violão em frente ao Santander ainda estava lá, a gente nunca conversou, mas trocamos sorrisos quase diariamente por uns anos. Me perguntei se ela lembrava de mim. 

No Paraíso eu lembrei do tempo em que morava no Fátima, do meu emprego da época, das noites nos bares, do kitnet que eu dividia com o Arielson, da quantia de cigarros que eu fumava e do quão perto eu cheguei do alcoolismo.  Nem parece o mesmo mercado de antigamente. Passei por uma conhecida lá, a gente nunca conversou muito mas fiquei pensando sobre as vezes em que ela tentou me encontrar no meio da minha tristeza - ou sobre como hoje eu tenho a impressão de que era isso que ela tentava nas poucas vezes em que conversamos - e sobre como eu era incapaz de aceitar qualquer tipo de ajuda naquela época. Espero que ela esteja bem. Não fiz nenhuma pergunta, só cumprimentei mais ou menos de longe. 

Fiquei feliz quando percebi que o Rudi continuava igualzinho, a mesma disposição das frutas, a mesma recusa em aceitar cartões, o mesmo chão de cimento, o mesmo clima de quando eu fazia compras lá semanalmente. Foi assim também na casa da Bárbara.

Passei uns dez dias com ela e vi na minha frente todos os outros dias que passei alí antes disso. Todas as versões de mim que já tinham entrado naquele apartamento e todas as versões da Bárbara que já tinham me recebido. Nos encontramos todos e falamos sobre nossos passados, presentes e futuros. Eu com certeza saí de lá diferente de como cheguei.

Tava com a câmera porque ia pro Hermena depois de lá e aproveitei pra tirar algumas fotos. 









Comemos, dormimos, sorrimos, choramos e visitamos as duas outras pessoas com quem eu consegui me comunicar sem ter um telefone - quebrei o meu assim que saí de casa - ou o meu computador - que ficou em casa. O Arielson que me deixa sempre pelo menos 70% mais feliz todas as vezes em que a gente se encontra e o Vicente que as vezes morde um pouco mais do que consegue mastigar. 

Depois disso encontrei meu pai e a gente foi pro Hermena. Desde que eu consigo me lembrar, pelo menos uma vez por ano, eu e meu pai vamos pra algum lugar, olhar pra alguma coisa que é sempre pelo menos um pouco impressionante, mas essa é uma conversa pra outro dia.


Cadernos, memórias e práticas.


Vão fazer uns dez anos que eu uso o mesmo modelo de caderno pra estudar desenho e registrar as coisas nas quais tenho pensado. Olhar esses cadernos pra mim é de certa forma um jeito de olhar pra mim mesmo e pra todas as coisas que eu senti e pensei pelo período de tempo em que estes cadernos me acompanharam. Com o tempo e com a distância que vai crescendo entre o eu que observa e o eu que desenhava, as coisas vão adquirindo cada vez mais sentido e eu sinto que isso é o que faz com que o desenho valha a pena pra mim. Eu olho pra mim mesmo quando vejo as coisas pras quais eu olhava no passado. 

Manter esses cadernos é um trabalho autoindulgente, tanto o fazer quanto o resultado dessa ação tem como propósito me fazer sentir. Eu desenho pra guardar, pra rir, pra me acalmar, pra prestar atenção, pra entender, pra pensar, pra passar o tempo, pra fazer alguma coisa. Esses desenhos são capturas de mim mesmo, registros da minha capacidade técnica, do meu olhar, da minha atenção, dos meus sentimentos, da minha mente, do meu cuidado, dos meus gestos e do meu corpo. Meses ou anos da minha vida - varia de acordo com como anda a vida e com como eu me sinto sobre as coisas - compilados em um pequeno livro de 98 páginas que não é muito fácil de entender a não ser que você seja eu. Sinto que eu mantenho esses cadernos como um jeito de lembrar da minha própria vida e do quanto ela é preciosa pra mim. Mesmo que seja bobo, mesmo que seja corny, mesmo que seja cringe ou qualquer outra coisa do tipo eu gosto dos meus diários e do que eu sinto com e a partir deles. 

No começo desse ano eu terminei um caderno que já vinha me acompanhando desde 2019. Em todos os sentidos possíveis, teve uma distância enorme entre o momento em que ele começou em Florianópolis e o momento em que o Vicente me deu de presente o último desenho desse caderno no apartamento onde ele mora em Pelotas. 

Eu tinha pensado em fazer umas fotos das minhas páginas favoritas pra trazer pra cá. Se eu fizesse isso eu tenho certeza que não ia mostrar nenhuma das páginas que me dão um pouco de vergonha. Eu não quero mais me esforçar pra não parecer ridículo. Também não quero me dar o trabalho de fotografar ou escanear as páginas uma a uma e depois conferir a qualidade das imagens e upar elas e todo o resto e por isso acabei fazendo um vídeo da minha mãozinha folheando as páginas do meu último caderno que terminou.

Eu não quis falar nada enquanto filmava mas como eu também não queria que o vídeo tivesse ruídos de casa no fundo eu cantarolei uma musica enquanto filmava. Fique a vontade pra escrever aí se você pensou em alguma coisa enquanto lia esse texto ou via as imagens, eu gosto de ler. Até a próxima.