Escrevo de maneira quase compulsiva na maior parte do tempo. Acho que ao longo da minha vida uma das coisas que mais tentei parar de fazer foi me expressar e nunca consegui. Acho que o pensamento muda de acordo com o modo de expressão e escrever é um jeito muito específico de sair da minha própria cabeça. É um pouco engraçado saber onde ficam as teclas sem olhar pro teclado e de uma maneira ou outra escrever pra mim é quase como pensar com os dedos. Mesmo que eu ainda escute as palavras na cabeças elas soam mais como o tec tec das teclas do que como palavras de verdade. Escrever olhando para os lados me ajuda a levar essas palavras pra algum lugar que não é exatamente o lugar pra onde elas costumam ir de outras maneiras. Adicionar a rima nisso tudo as vezes descontextualiza mais ainda e ver as palavras aos poucos se alinhando na tela me causa um tipo muito específico de satisfação.
Acho que o conteúdo das poesias mais recentes tem mudado bastante. Acho que tenho mudado bastante também. Tenho percebido a intensidade da rigidez de dentro da minha cabeça e pensado com carinho sobre os lugares onde ela precisa ser quebrada. Tenho tentado mudar meu jeito de fazer as coisas. Não quero mais me abandonar e talvez esteja tentando me permitir um pouco mais o espaço de ser contraditório e controverso e incoerente e complicado.
Uma placa de censura no meu corpo diz: não recomendado à sociedade. Faço questão de mostrá-la pra todo mundo que aparece, sou um vagabundinho, um malandro, um tipo muito específico de inútil e as pessoas mais alinhadas com a sociedade até me acham engraçadinho no começo e no final dá problema porque no fim das contas essa não é uma piada. Esse é o meu charme, na maior parte do tempo eu não presto pra nada e não quero prestar, não quero ser útil e causo problema. De um jeito ou de outro todas essas coisas são mentira e verdade ao mesmo tempo. Numa parte considerável do tempo não acho nem que da pra saber a diferença entre a verdade e a mentira. É um pouco por isso que tendo a tomar cuidado com as palavras que uso, não gosto de dizer nada que não consiga sustentar. Ao mesmo tempo em que tento me permitir falhar.
A falha e o fracasso tem sido constantes pra mim nos últimos tempos e acho que é um daqueles movimentos compensatórios. Passei tanto tempo negando em mim a possibilidade de falhar ou de aceitar falhas e fracassos que agora que finalmente me sinto capaz disso por vezes tenho vontade de vestir uma placa no peito onde se pode ler em letras garrafais um gigantesco "eu falho".