O fim é o meio.

Dia desses falando com Vicente sobre a minha prática recebi um retorno do qual gostei muito: "Tem um quê de excelência né meu". Acho que tem mesmo. Talvez já tenha ficado claro pra quem lê esses textinhos, eu sou um completo maluco dos significados. Acho que um dos primeiros livros que li inteiros foi um dicionário e gosto de olhar pra linguagem pelas raízes. Se não me engano foi Lacan que escreveu em algum momento que somos moldados pela linguagem e essa é uma coisa na qual acredito profundamente. Gosto de pensar sobre as palavras que são usadas na minha direção e penso bastante sobre as palavras que uso também. 

Acho engraçado como o uso transforma o significado das palavra e como as vezes algumas raízes acabam com múltiplos sentidos. Me alegra perceber a linguagem como uma coisa viva e ter nela uma das minhas melhores companhias. Me divirto com a linguagem mais do que me divirto com qualquer outra coisa, inclusive quando meu único interlocutor sou eu mesmo, talvez mais nesses momentos do que em muitos outros. Amo comunicar, entender o que é comunicado e não é sempre que consigo. 

Volta e meia constato de novo a minha própria burrice e acho que nada nunca me fez tão bem quanto admitir tudo de que não sei. Poder ser burro é um grande alívio e nada me liberta mais do que poder dizer um "não sei o suficiente sobre esse assunto" ou um "sei muito pouco sobre isso". Passei um tempo encarando a vida como uma prova onde eu precisava responder tudo sempre da maneira correta e hoje me alegro em cometer erros. Não quero acertar, quero aprender.

Surpreendentemente, foi quando assumi que era burro que o meu pique de aprender foi aumentando cada vez mais. Sabendo de tudo que não sei me peguei lendo livros introdutórios e assistindo aulas para iniciantes com muito mais humildade, carinho, respeito e atenção. Li algumas biografias de pessoas que admiro e percebi que no começo, ninguém sabe de nada e que o saber surge mesmo na busca por ele. Sei mais hoje do que já soube antes de agora e fico muito feliz sempre que me percebo sabendo. Sinto um tipo muito específico de prazer com o saber e a minha vida mudou profundamente quando deixei de estudar por vontade de acertar e comecei a estudar por vontade de saber. A coisa melhorou bastante também quando aprendi a tratar os saberes como perspectivas e não como verdades. O doutorado do Nick Sousanis mudou a minha vida, sou grato por ele, um quadrinho teórico foi uma coisa muito legal de ler e as ideias daquele livro nunca mais saíram da minha cabeça.  

Tenho exercitado bastante muitas coisas das quais gosto muito e tenho conseguido perceber meus progressos por conta disso. Atualmente tenho separado meus processos de desenho em várias etapas diferentes de treino. Meus focos no momento são o espaço, a materialidade, a iluminação e a organização das cores. Tenho trabalhado um pouco com as linhas também e, mesmo que elas eventualmente sejam cobertas como o resto da estrutura, acho divertido perceber que a presença delas no processo resulta em algumas características de desenho muito específicas. 

As vezes meus amigos discordam de mim quando digo que não vejo a separação entre o desenho e a pintura. A verdade é que quase nunca vejo as separações, já faz um tempo que prefiro integrar ao invés de separar - inclusive quando isso torna tudo muito mais difícil. Gosto das coisas difíceis, gosto de poder dizer que fiz algo difícil, gosto de como me sinto quando faço algo difícil, normalmente a dificuldade exige de mim um estado muito específico de concentração que é um dos meus lugares preferidos e que normalmente só consigo alcançar quando faço algo que ainda tá um pouco fora das minhas capacidades. Ficam aqui alguns dos meus exercícios mais recentes de desenho e imaginação.
































 






A luta desarmada dos subalternos é um ótimo livro também.

Foi a partir de um relato sobre o Durruti que ouvi falar pela primeira vez na ideia de liderança pelo exemplo. Foi aos poucos, ao longo dos últimos anos que a coisa toda começou a fazer cada vez mais sentido dentro da minha cabeça. Por muitos anos fui um desacreditado crônico, ninguém acreditava em mim e eu não acreditava em mim mesmo. Mas sempre acreditei em algo. 

Não lembro quando foi a primeira vez em que ouvi falar em Canudos e lembro do quanto saber da existência dessa experiência mudou meu jeito de ver o mundo. Lembro de quando descobri o papel da ala anarquista na revolução russa, de como ela foi tratada com a consolidação dos bolcheviques no poder e de como isso me fez sentir. Lembro de quando descobri sobre a revolução espanhola, sobre o Malatesta, sobre a Emma Goldman, sobre o julgamento dos oito de Chicago, sobre o Oiticica e sobre uma série de outras coisas incríveis das quais parece sempre que quase ninguém quer falar.

Existe uma grande noção difusa, desinformada e equivocada em geral sobre o que é a anarquia. Na maior parte dos espaços essa palavra sequer é levada a sério e mesmo entre os que se dizem comunistas e revolucionários ela é encarada com uma grande camada de preconceito. Acho engraçado pensar sobre o reconhecimento Bakuninista sobre as ideias de Marx e aquela aspa atribuída a ele em que ele diz algo na direção de: "O Capital talvez seja a leitura mais importante para todos os trabalhadores do mundo, uma pena que seja tão chato e complicado". E acho esquisito pensar sobre a movimentação da ala marxista que levou à expulsão do Bakunin da AIT 1872 e que eventualmente levou à dissolução da organização. Mais do que isso tudo, depois que decidi finalmente ler a porcaria d'O Capital, acho surpreendente de um jeito ridiculamente triste perceber que uma parte considerável dos Marxistas que conheci sequer conhecem uma parte considerável das ideias que compõem a base do pensamento do raio do velho. Não que eu já tenha lido os cinco volumes, é chato pra caramba mesmo, a tradução que eu peguei em pdf e converti pro kindle tem sérios problemas de formatação, o texto é ridiculamente complicado e eu não sou a mente mais brilhante do brasil - leio em ritmo de lesma com grandes pausas e de tempos em tempos preciso ler um ou dois livros antes de retornar. Ainda assim, com a leitura do primeiro volume, da pra identificar na fala de muita gente o quanto as pessoas sequer passaram perto do livrinho. E se uma parte considerável dos comunistas que conheço sequer leu Marx, é de se esperar que eles não saibam nada mesmo sobre o que escreveram os anarquistas a partir dessas ideias. 

Aponto esse desconhecimento porque reconheci ele em mim mesmo a uns anos atras, em um tempo onde eu acreditava que não precisava ler ou estudar pra saber de algo, um tempo onde cultivava em mim a preguiça e a soberba características de quem se acha mais inteligente do que o resto do mundo. Hoje sei da minha burrice e sei que a única coisa que posso fazer pra compensar a minha incapacidade intelectual é buscar ler e entender da melhor maneira possível pensadores e ideias que desconheço, tratando suas ideias com a característica boa-fé com a qual espero que as minhas sejam tratadas.

Fiquei feliz comigo mesmo a uns meses atrás, quando no meio de uma conversa sobre matemática tive a coragem de dizer que não sabia o suficiente do assunto pra participar da discussão. Em outros tempos, teria tentado construir um pensamento improvisado que certamente estaria cheio de furos e demonstrado de um jeito muito menos honesto a minha falta de conhecimento sobre o assunto. 

E escrevo tudo isso pra dizer que por mais que eu queira expressar muita coisa, ainda não tenho conhecimento, prática e sensibilidade o suficiente pra isso. Escrevo pra dizer que sigo em formação, em treinamento, que talvez nunca alcance o lugar ideal que imagino; escrevo pra dizer que isso não importa, porque muito mais importante do que o fim é o meio através do qual me mantenho no caminho que escolhi. O fazer é muito mais importante que o ter feito e honestamente não sei se consigo expressar o quanto. Fico feliz em não precisar. 

Já tentei algumas vezes ao longo dos últimos anos montar grupos de estudos sobre as anarquias e fracassei em todas. O máximo que consegui foi ler e discutir em um chat de texto três capítulos de um livro do Proudhon com alguns amigos. De tempos em tempos alguém me pede recomendações de leituras introdutórias e sempre me senti meio perdido nas indicações. Até hoje. 

Ontem a noite terminei a primeira leitura de um livro chamado Os Despossuídos, da Ursula K. le Guin e acho que nunca na minha vida me emocionei tanto com um trabalho literário quanto me emocionei com esse. Senti profundamente o orgulho, o medo, a arrogância, o nojo, a vergonha, a tristeza, a resignação, a revolta, a frustração, o amor, o respeito e todos os outros sentimentos maravilhosamente articulados pela autora ao longo do texto. Eu podia escrever sobre os aspectos técnicos, sobre a organização dos capítulos, sobre as características narrativas, sobre a complexidade dos personagens, sobre o respeito ao leitor e sobre uma série de outras coisas que me impressionaram ao longo da leitura. Mas vou escrever apenas que essa história é uma utopia anarquista, que eu não sabia o que isso significava até terminar a leitura e que se isso te interessa ou se te interessa saber com o que é que sonho todos os dias da minha vida, recomendo de mais a leitura.

Pronóia!

 Sempre que digo isso as pessoas duvidam um pouco: sou um grande covarde. Passei a maior parte da minha vida fugindo e evitando e desviando do que me assusta porque também já sofri muito com muitas coisas das quais não consegui desviar. Não é difícil me assustar e por algum motivo quase ninguém percebe quando assusto. Acho que um tanto pela postura de malandro e outro tanto pelo modo como o medo funciona em mim. 

Em mim o medo parece frieza. Demorei muito tempo a perceber o modo como as minhas emoções tomam conta da minha racionalidade e faz pouco tempo em que descobri que sempre que me sinto muito lógico é porque tem uma emoção escondida pilotando meus pensamentos. Meu pânico parece calma e resignação, quanto pior a crise mais calmo parece meu lado de fora. Do jeito que cresci, demonstrar medo raramente era uma boa opção. 

A vida já não é mais como era antigamente, eu também não e algumas coisas demoram mais que outras a mudar. Sempre fui bastante paranóico e o medo irracional de que tudo dê errado ainda me acompanha e eu ainda demoro um pouco mais do que gostaria até perceber os momentos em que ele se apossa da minha frágil cabecinha, mas percebo. E tenho aos poucos tentado substituir a paranóia pela pronóia uma palavra nova que descobri na internet à pouco tempo.

Pronóia é um tipo de paranóia ao contrário é uma ideia recorrente de que as coisas todas vão dar certo, de que tudo vai ficar bem, de que dessa vez as coisas vão ser melhores, de que nenhum problema vai acontecer e de que a gente vai conseguir mesmo fazer o que quer. Acho que pronóia é só um jeito novo que a internet inventou de dizer otimismo. E namoral eu tô cansado de achar que as coisas vão dar errado, tô cansado de me proteger de situações que não são perigosas e tô cansado de fugir de boas coisas porque pode ser que talvez em algum momento do futuro elas fiquem ruins. Agora eu quero aproveitar o que tem de bom e o que tiver de ruim eu mato no peito mesmo e foda-se é isso ai mesmo. Sofrer é bem ruim e não é a pior coisa do mundo.

Passei muito tempo me preparando pra quando as coisas dessem errado e isso não fez com que nada desse certo e nem diminuiu o impacto dos problemas que tive. A partir de agora quero deixar pra sofrer só quando for preciso, por antecedência só quero curtir.