As poesias que escrevi antes do ano acabar.

 Essa coisa toda de palavra é sempre uma loucura e essa coisa de ser uma pessoa é mais ainda. Cada dia que passa me sinto cada vez menos e mais consistente ao mesmo tempo. Tô lendo a fenomenologia do espírito e é um pouco engraçado como enquanto eu leio sempre parece que eu não tô entendendo nada e ao mesmo tempo é como se a estrutura do meu pensamento tivesse mudando aos poucos, talvez o Hegel seja um ótimo bruxo, talvez seja um grande placebo esquisito. Acho que esse foi o ano em que eu mais li na minha vida inteira e tem sido uma experiência bastante interessante. É legal constatar que existem tipos diferentes de leituras e que alguns livros me seguram por horas a fio ao passo que outros me derrubam de sono após cinco ou dez minutos de leitura. E mais doido ainda é constatar que os primeiros não necessariamente são melhores que os segundos.

É um pouco engraçado que ao mesmo tempo em que a minha obsessão com a coisa toda de identidade diminuiu bastante recentemente tenho sido perseguido por uma tentativa provavelmente inútil de compreender a minha substância como sujeito. E sabendo um pouco sobre Deleuze e a coisa toda do devir eu entendo aonde a modernidade é inimiga da substância ao mesmo tempo em que sinto que existe alguma coisa profundamente importante ali. Pelo menos pra mim. É um pouco engraçado o quanto o Hegel parece taoista enquanto ele descreve a relação entre a coisa em si e o vir a ser se dissolvendo um no outro. 

As vezes lembro do Gilgamesh, da ideia de que posso me lembrar de quem sou a qualquer momento associada à ideia de que vou esquecer e sempre sorrio com isso. Inclusive porque acho difícil definir quem eu sou ao mesmo tempo em que é sempre ridiculamente claro pra mim quando não tô agindo como eu mesmo. Me divirto quando lembro porque a real é que eu sou um baita otário. As vezes eu penso sobre como ninguém entendia nem como, nem porque e nem o quanto que eu gostava de mais da conta do Eric no tempo que a gente morou juntos. O moleque era impagável e literalmente a maior diversão do mundo inteiro pra ele era testar o quão otário ele conseguia ser nos ambientes em que ele frequentava sem que ninguém mandasse ele embora e era sempre hilário ver ele interagindo com qualquer pessoa. A gente sempre interagia numa marcha super agressiva usando aquele sorriso de canto de boca de quem sabe que da pra sparrar com as palavras e eu achava engraçado de mais que as outras pessoas que moravam com a gente não entendiam que a gente tava sempre brincando. A real é que eu não sou muito diferente do Eric e em uma série de ambientes eu sou mesmo insuportável porque eu me recuso de uma maneira que eu não sei explicar muito bem à seguir os códigos dos bons costumes. 

Gosto de dizer que eu sou gentil feito uma pedra e digo isso pensando nas pedras com as quais fiz amizade enquanto morei no litoral. Aprendi com o Yoga a entender o chão como um amigo que tá sempre ali, que me assegura e que as vezes me machuca se acerto ele com muita força. Penso nas pedras mais ou menos do mesmo jeito e é mais engraçado ser gentil feito uma pedra do que gentil feito o solo, porque também gosto da imagem de jogar pedra e de como a pedra é um agente passivo nessa interação. Escrevi menos poesia nos últimos tempos e ainda assim escrevi algumas. 
















Será que o que escrevo conta como literatura marginal?

 

Sigo com meu projeto de delírios. Até acho que consigo escrever uma coisa mais coesa e ao mesmo tempo não encontrei ainda a empolgação necessária pra isso. Tenho tentado fazer só o que me deixa empolgado e a experiência tem sido interessante. Cuspi estes textos por entre os dedos em momentos de total e completo surto literário. Trago eles pra cá porque não sei o que mais poderia fazer com isso tudo. 


O que será que mora por debaixo da minha pele?


Talvez a parte mais esquisita do meu percurso como uma pessoa que literalmente trabalha com os significados seja minha total e completa incapacidade de me expressar com clareza nos momentos em que isso realmente importa pra mim. E a pior parte é que nem faço ideia de o que é que faço de errado. Falo sem força e talvez seja esse o problema. Odeio me impor. 

Demoro muito tempo pra entender como me sinto e fazer alguma coisa sobre isso. O mundo em geral é muito mais rápido do que eu. Gosto de acreditar naquela ideia de que quem caminha devagar chega mais longe e as vezes fico um pouco frustrado com o sentimento de não ter chego em lugar nenhum. Sinto inveja de quem tem um lugar no mundo. 

Desde muito antes de poder escolher minha vida mudou muito muitas vezes e meus pés nunca chegaram a colar no chão de verdade. Não importa pra onde vá ou o que faça ou onde chegue nunca me sinto realmente em casa, integrado. Dia desses me disseram que sou bom em me adaptar e que fico bem em qualquer lugar e fiquei triste com isso. Não pertenço a lugar nenhum. Sequer me conheço direito. 

Tenho tentado me conhecer e acho que a coisa mais importante que percebi é que não tem lá muita coisa sólida em mim. Também não tem muita coerência. Exceto pelo fato de que talvez eu seja surpreendemente confucionista no modo como lido com os meus papéis sociais. Aceito as posições em que sou posto e ajo de acordo, independente do que isso signifique pra mim. 

Sai só comigo esses dias, não sou a companhia mais engraçada do mundo pra mim mesmo, nem a mais divertida nem a mais estimulante e gostei disso. Tomei um sorvete enquanto caminhava pelas ruas e olhava as pessoas e escutava o que elas diziam e fazia uma rimazinha ou duas, sentei um pouco no escuro pra ler e por um breve momento quis muito ter alguém com quem falar sobre o livro que tava lendo e depois passou. 

Acho que tô aos poucos aprendendo a me amar e a aceitar a pessoa que sou e as coisas que acontecem comigo por conta disso. Não sei me expressar muito bem, não gosto de me impor e nem de insistir, sou agressivo, brusco e grosseiro as vezes, tenho uma dificuldade tremenda em entender as pessoas mais próximas de mim e não gosto de explicar nada sem que ninguém tenha perguntado, não faço propaganda de nada do que acredito ou acho certo e não tento convencer ninguém de nada, odeio qualquer tipo de autoritarismo e fico assustado quando gritam comigo, a maior parte das palavras significam coisas muito específicas pra mim e as vezes sou chatíssimo com essa coisa toda de linguagem. 

Também sou um dos bonecões mais calmos que conheço e gosto de pensar que sou o Ronaldinho Gaúcho da gestão de crise - talvez porque tenha tido muitas crises mas isso não vem ao caso, esse parágrafo é pra falar coisas maneiras - tenho uma paciência de Jó e gosto de pensar que tô no meu caminho pra ser um Buda, guardo comigo um respeito e um amor profundos pelo mundo e pela autodeterminação dos povos e pessoas, independente das dificuldades faço o que posso sempre a partir do melhor das minhas capacidades, sou dedicado e meticuloso e gosto de colocar a maior quantia possível de carinho em tudo que faço, visto meus fracassos no peito e estendo ao mundo a compreensão que gostaria de receber, não recuo e banco as consequências dos meus atos independentes de quais sejam. 

Nâo sei o que esse texto significa, nem porque escrevi ele, talvez só quisesse tirar algumas coisas de mim. Não sei porque escrevo, nem porque tento me comunicar, as vezes sinto que falta em mim alguma coisa que todas as outras pessoas já tem e que sou incapaz de saber o que é. Normalmente me sinto um alienigenazinha esquisito incapaz de compartilhar qualquer tipo de perspectiva com as pessoas ao meu redor. Talvez eu só queira falar um pouco sobre como vejo as coisas. 


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Um texto pra criança que não sei se vou ter.


E aí bonecote, como é que tu tá? Acho que se tu tá lendo isso tu já deve ser grande o suficiente pra querer saber mais sobre mim, afinal eu nunca te disse que esse texto existia. Acho que tu já deve saber disso a essa altura, gosto mais de ser descoberto do que de me mostrar e acho divertida a perspectiva de você um dia encontrar essas palavras sem querer tanto quanto acho divertida a possibilidade de que você nunca leia isso caso nunca procure. 

Não sei se já morri ou não enquanto você lê isso, se eu tiver vivo, me conta que encontrou essas palavras, acho que vou ficar feliz em saber. Com certeza tô vivo enquanto escrevo. Escolhi escrever esse texto porque você ainda não tá e porque por esses dias tenho pensado que talvez você nunca nasça. 

Talvez eu já tenha te dado muitas dicas e te entregado muitas ideias sobre como é estar vivo e sobre quais são as coisas boas, as ruins, sobre os cuidados que você deve tomar e essas coisas. Espero que sim, acho que esse é o papel de quem ajuda uma criança a crescer e se você nasceu o mínimo que espero de mim mesmo é ter sido capaz de te oferecer isso. Eu aprendi muita coisa sozinho e espero que você não tenha precisado passar por isso. 

Comecei a escrever esse texto pensando em dizer alguma coisa do passado pra você no futuro e percebi que me interessa muito mais saber como as coisas foram pra você do que qualquer outra coisa. Acho que muitas das minhas experiências e ideias vão estar obsoletas quando for a sua vez de viver, espero que sim. Espero que você tenha crescido bem e que a gente tenha conseguido lidar com os traumas que eu muito provavelmente te causei. Tenho mania de fazer tudo de um jeito mais ou menos experimental e tenho certeza de que não foi diferente com a sua criação. 

Espero que você tenha amigos com quem contar, uma boa relação com o lugar do qual você faz parte e o conhecimento e a força necessários pra viver e reproduzir a vida no mundo em que você vive. Ainda não tenho todas essas coisas enquanto te escrevo e tenho me esforçado pra conseguir. 

Espero que você seja menos medroso do que sou e do que fui, que tenha menos vergonha, que seja mais confiante e que perceba mais cedo do que eu percebi as coisas que te importam. A vida é curta de mais pra viver sem consciência. 

Espero que você tenha aprendido que a vida é dura e que a dureza nem sempre é ruim, espero que você não fuja da dor e que você saiba no fundo do seu peito que você não precisa sofrer. Espero que você tenha visto o mundo com os próprios olhos e pensado sobre o que viu, espero que tire suas próprias conclusões e que em algum momento seja forte o suficiente pra me ganhar em uma briga ou pelo menos empatar comigo. 

Eu gostaria que você fosse melhor do que eu e vou esperar você chegar na idade adulta pra descobrir se gosto ou não de você. Não é sempre que os pais gostam dos filhos e nem é sempre que os filhos gostam dos pais. Tá tudo bem se você não gostar de mim, tem uma quantia considerável de gente que não gosta eu acho. 


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Será que isso conta como revenge porn?


Algumas das minhas melhores fotos são imagens casuais de pessoas nuas com quem me relacionei e que não falam mais comigo. Gosto de fotografar o cotidiano das pessoas e com essas pessoas eu ficava cotidianamente sem roupa e isso levou a alguns bons conjuntos de fotos, não são fotos safadas nem nada, só são fotos de pessoas sem roupa. Tenho algumas fotos de uma dessas pessoas se masturbando e não acho que são fotos pornográficas, em geral, meu jeito de olhar não costuma ser muito erótico. 

Mas tenho fotos dessas pessoas peladas e elas não falam mais comigo e não sei mais o que fazer com esse material. Guardar escondido as vezes parece um pouco idiota e acho que publicar pode acabar virando crime. Um dia falei de publicar as fotos da primeira pessoa pra segunda e a segunda ficou bravíssima e me disse que eu ia acabar indo preso e tomando um processo o que me faz pensar que ela provavelmente me processaria se eu publicasse as fotos dela, agora que ela também não fala mais comigo. Só que as fotos são lindas e eu queria que as pessoas soubessem o quão bom eu sou fotografando pessoas casualmente peladas nas próprias casas. Infelizmente sou respeitoso de mais pra publicar quase qualquer coisa sobre outras pessoas sem consentimento e acho que não dá pra ter consentimento de alguém que não fala com você.

Dia desses pensei em descaracterizar as fotos, apagar os rostos e as tatuagens. Remover as características indicativas de quem são as modelos e até que não achei a ideia ruim, ao mesmo tempo o rosto é uma parte importante dessas fotos. Acho que é a parte que faz com que a coisa toda não seja erótica. Eu gosto do rosto de pessoas que estão confortáveis com a nudez em situações não sexuais e meu receio é que essas descaracterizações acabem tornando as fotos em alguma coisa que não sei se quero. 

 

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Acho que quanto mais o tempo passa mais descubro que não me conheço. 

Não sei quem sou e talvez nunca saiba. Já fiz e já fui tanto coisa que fica um pouco difícil encontrar o fio que conduz esse percurso e a essa altura do campeonato não sei nem se ele existe. Não sei bem o que e nem porque faço, raramente sei o que sinto e de tempos em tempos me despedaço. Escrevo bonito e vivo sempre à beira do cansasso. 
Não tenho muita ambição de dinheiro, nem de nada além de amizade, tempo bom e conhecimento. Por muito tempo me agarrei a memória e ao passado, agora esqueço e lembro sem muita alegria ou pesar. Não tenho muitos desejos além dos que mantém e reproduzem a vida e não tenho muito propósito além de viver da melhor maneira que consigo. Gosto de desenhar, de pintar e de escrever e a cada dia que passa quero menos que isso seja profissão. 
Meu trabalho é nas frestas do mundo, onde pouco se encherga e quase ninguém percebe. Trabalho com as sutilezas da linguagem, seus significados e suas potêncialidades. Trabalho com o que não tem preço e com o que não se quantifica. Trabalho com tudo aquilo que move o mundo por debaixo dos panos, trabalho com o exemplo, com a força da vontade e com a repetição. Trabalho com as feridas, com as mágoas e com o movimento gentil das coisas que não são feitas de matéria. Meu trabalho depende da vida e é com vida que se paga por ele. Não pra mim, pro mundo. 
Tenho aprendido lentamente o que significa matar os pássaros de ontem com as pedras de hoje. Tenho entendido que matar é parte da vida e que é através do corte que a energia corre. Desde que aprendi a fazer as coisas por graça muita coisa tem mudado comigo. Minha morada é fora do corpo, sou um pedaço de espírito e por isso mesmo cuido do corpo que me habita.


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Retomando aquela minha zine antiga sobre ser um monstro e lacrimejando. 

Não é de pouco tempo pra cá que tento fazer as coisas de um jeito diferente, acho que sempre tentei e sempre dei o melhor de mim mesmo quando o melhor de mim era uma porcaria. Independente disso, quase sempre estive sozinho nesses percursos e diacho esse bagulho cansa! Guardo dentro do peito tanta coisa o tempo todo e carrego com graça as cicatrizes e os machucados de uma vida contra a corrente. As vezes me pergunto como as pessoas conseguem viver dentro das próprias peles porque viver dentro da minha me destroça. Sinto correr o arrepio pela superfície da pele e não sei o que ele significa, as vezes me parece que nada significa nada ao mesmo tempo em que significa tudo. 
Sinto o interior da minha cabeça e percebo lá dentro alguma coisa que não consigo sentir. Espalho a consciência pelo corpo e percebo algo estranho pelas entranhas. Um misto entre a ânsia de vômito e choro. Sinto menos o lado esquerdo, percebo a secura da garganta e o quão baixo bate meu coração. 
Escrevo palavras em formatos complicados sem pensar muito sobre elas e paro de repente. As vezes penso em como seria a minha vida se alguma coisa tivesse sido diferente, se eu tivesse sido mais normal, se eu nunca tivesse me encantado pelas coisas que me encantam, se eu tivesse conseguido ser mais parecido com as pessoas que me tratam como esquisito, se minha memória não fosse tão boa, se eu não tivesse me abandonado por tanto tempo, se eu tivesse sido outra pessoa. Se o mundo tivesse sido dois dedinhos mais gentíl comigo. 
Na maior parte do tempo me sinto como alguém de outro lugar, uma vez o Arielson me disse que quando a gente sai de um lugar a gente nunca mais consegue voltar e as vezes eu só queria conseguir voltar pra algum lugar. Mas não importa pra onde eu volte nada nunca é a mesma coisa.



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Trechos de um diário que encontrei na rua

Ai ai, não é fácil ser um doidinho viu galera? Minha vida as vezes é um loop eterno daquela história antiga do chinês com o cavalo. Não da pra saber nada sem esperar. Dia desses tava pensando nessa coisa toda de excelência e em como é difícil pra mim enfrentar a possibilidade de que nem sempre consigo fazer o melhor possível. 
No fim das contas acho que nem sei o que o melhor possível significa e de novo estamos eu e os significados existindo em uma mistura esquisita entre a compreensão e o estranhamento. As vezes queria entender a vida como entendo uma linha de texto, como entendo uma imagem, como entendo o movimento, como entendo. E na maior parte do tempo não entendo nada. Talvez a vida de eremita seja mesmo a única que faz sentido pra mim, é bem mais fácil existir quando meus amigos são as árvores, os insetos e o vento. 

As vezes acho que o que eu preciso é só escrever por um bom tempo sem pensar muito, só uma palavra depois da outra, ignorando um pouco o que essas coisas significam, qual a relação entre elas e deixando o texto correr pela ponta dos dedos. Resolvi escrever de olhos fechados, não sei exatamente porque, talvez pra evitar de ler e reler o que já foi escrito enquanto escrevo. Infelizmente eu sou um completo maníaco as vezes e não sei muito bem o que fazer sobre isso. Mais cedo nesse ano ilustrei um livro e os meus sentimentos sobre ele são mistos. Principalmente porque esse foi um projeto que chegou pra mim em um momento bastante complicado emocionalmente. Não sei se já tive algum momento que não foi complicado emocionalmente, as vezes me sinto um completo incapaz de lidar e estruturar a minha vida sem ser arrebatado por um tufão de emoções que me leva como leva uma pluma. Em algum momento pluma foi meu nome de caneta, queria me sentir leve e acho que nunca consegui muito bem. 

Ao longo da vida, em algum lugar ou outro eu sempre acabo errando um pouco, acho que todo mundo erra e ao mesmo tempo tenho uma tolerância muito baixa aos meus próprios vacilos. Nem sempre estendo à mim mesmo a mesma compreensão que estendo aos outros e acho que talvez isso seja um sinal de que ainda carrego comigo algum tipo estúpido de prepotência que me faz querer ser mais e melhor o tempo inteiro. Não sei se dá pra ser mais e melhor, no fim das contas eu talvez seja só um qualquer mesmo e acho que preciso aprender a me acostumar com isso.

As vezes eu odeio ter uma consciência. Penso no dono do primeiro kit net onde morei na ilha e as vezes me pergunto se o ideal não seria mesmo viver uma vida sem pensar. Pensar pra mim é uma mistura muito específica entre benção e maldição, acho que todas as coisas são um pouco. 



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Um texto escrito pra ilustrar algumas fotos.

As vezes acho um pouco engraçado o modo como a gente complica tanto tantas coisas, é como se o mundo inteiro fosse um grande livro de filosofia francesa do final do século passado. Escrito de uma maneira deliberadamente complicada, confusa e difícil de entender, com metáforas esquisitas e onde o significado fica quase todo nas entrelinhas. Eu odeio essa parte da filosofia francesa. Nunca vou esquecer do ódio profundo que senti enquanto lia a Invenção do Cotidiano do Michel de Certeau sem entender nada e do ódio maior ainda que senti quando a Karina me pediu pra tentar explicar o que eu tava lendo e eu percebi que o ponto central do livro era ridiculamente simples. Quanto mais repetitivo é um significado, maior é o valor estético e significativo dos modos de expressar o seu significante, ou alguma coisa assim, faz tempo que eu li esse livro. 
Quando eu descobri uma tese de doutorado em filosofia que era uma história em quadrinhos fiz questão de importar o impresso assim que ele foi publicado, Unflattening foi uma leitura muito importante pro modo como vejo o mundo - o ponto central do livro é que quanto mais nos deslocamos ao redor de um objeto mais fácil e quanto mais variados os modos de olhar lançados sobre o mesmo, mais fácil é a compreensão de sua forma. Assim como quanto mais variados os modos através dos quais dizemos uma única coisa, mais fácil é a sua compreensão. Foi Gigi que me mostrou que não importa o assunto, quase sempre vai ter alguém que pensou mais ou mais profundamente sobre ele do que eu e normalmente essas pessoas registraram esses pensamentos de alguma forma. Um pouco depois disso percebi que mesmo que eu conseguisse pensar nas mesmas coisas que essas pessoas se eu me esforçasse muito, isso fazia com que eu perdesse muito tempo pensando em coisas que já foram pensadas e muitas vezes superadas por pensadores mais antigos e mais espertos do que eu. 
Quando voltei pra análise no ano retrasado tive um momento onde olhei pra Rejane e disse pra ela que eu com certeza teria chegado no mesmo lugar de compreensão em que cheguei naquele encontro sozinho - e que se fosse esse o caso mesmo eu teria demorado uns seis anos pra isso. Tenho lido o Winnicott agora e as vezes choro quando encontro nas ideias dele coisas que ainda não tinha percebido sobre mim mesmo e que talvés nunca fosse perceber sozinho. E mesmo que as vezes eu não entenda as ideias que encontro, como não entendi a ideia da criança interior por muito tempo, plantar elas na terra da cabeça faz com que elas eventualmente dêem frutos e fico muito feliz sempre que percebo que entendo melhor agora alguma ideia que não entendia muito bem a alguns anos atrás. Tenho dado aulas de desenho pra Luana e com uma frequência maior do que achei que aconteceria me pego dizendo algo na direção de: "quando me disseram isso pela primeira vez eu achei que fosse bobagem tá, mas na real é bem assim mesmo e pode ser que seja um pouco difícil de entender, se você continuar desenhando uma hora vai fazer sentido". 
A ideia toda do conceito de sombra chegou em mim a uns bons anos atras, quando Gigi ainda falava de Dark Gigi, uma parte de Gigi que era todas as coisas que Gigi não queria ser e ficou guardada em mim por todo esse tempo. No começo eu pensava que a sombra eram as partes da gente que a gente escondia do mundo e hoje percebo que são as partes que escondemos de nós mesmos ou que nos recusamos a enxergar no nosso próprio peito. Ou talvez isso seja só comigo, me recuso a falar sobre os outros as vezes porque não sei como foi a vida inteira das outras pessoas e isso meio que me impossibilita de saber como elas se sentem. Os últimos meses me fizeram perceber em mim uma série de falhas, medos, impulsos e vergonhas escondidas atrás do que eu achava que era a minha personalidade, que na verdade era só um mecanismo muito bem elaborado construído a partir de uma série de inferências erradas sobre o mundo que em algum momento da minha vida assumi como verdade, que teve muito pouca ou quase nenhuma utilidade no meu desenvolvimento como pessoa e que muito provavelmente muito mais dificultou e ainda dificulta a minha caminhada do que qualquer outra coisa. 
A verdade é que quanto mais o tempo passa e mais eu estudo e aprendo, mais complicado tudo fica e mais eu percebo o quão pouco eu sei sobre tudo ao meu redor. Talvez essa seja a maldição do conhecimento, um corvo comendo as minhas entranhas de novo e de novo e de novo todos os dias até o fim dos tempos. Um dos meus sonhos é encontrar o Descartes em algum bar aleatório e dar um tapa na nuca dele no momento exato em que ele decidir levar o copo à boca e através do riso deixar escapar: "Tu não sabe de nada mesmo né o otário!". Acho que ele ia me mandar tomar no cu e ia rir também. 
Por muito tempo a filosofia me deixou triste e eu precisei me agarrar muito naquela vez em que o Camus precisou escrever um livro pra tentar entender porque é que ele não se matava. E assim, eu entendo que a vida as vezes é um sanduíche de merda mesmo mas pau no cu desses otário, larga a pedra irmão, não empurra, esquece a pedra, os cara vão colocar ela lá em baixo de novo amanhã, eles tão te zoando, fica sentado irmão, foda-se. Esquece essa merda de pedra, no final das contas os deuses do Olimpo são todos uns péssimos perdedores Tanathos ficou bolado porque foi burro. Se fosse aqui no Brasil o Sísifo teria se encantado e virado malandro de morro, talvez nosso Sísifo seja mesmo o Zé Pilintra. E talvez muito mais importante do que pensar sobre porque não se matar seja pensar sobre porquê continuar vivendo, uma grande abraço pro Nietsche, pro Kirkegard, pro Sartre e pra todos os existencialistas, vocês encontraram as próprias respostas e acho que isso é bastante importante e bonito! Fiz uma péssima leitura desses caras por um tempo e logo mais acho que preciso ler de verdade com o respeito, o cuidado e a devida boa fé pra ver se encontro algo novo. 



A mentira e a verdade de roupas trocadas.

Escrevo de maneira quase compulsiva na maior parte do tempo. Acho que ao longo da minha vida uma das coisas que mais tentei parar de fazer foi me expressar e nunca consegui. Acho que o pensamento muda de acordo com o modo de expressão e escrever é um jeito muito específico de sair da minha própria cabeça. É um pouco engraçado saber onde ficam as teclas sem olhar pro teclado e de uma maneira ou outra escrever pra mim é quase como pensar com os dedos. Mesmo que eu ainda escute as palavras na cabeças elas soam mais como o tec tec das teclas do que como palavras de verdade. Escrever olhando para os lados me ajuda a levar essas palavras pra algum lugar que não é exatamente o lugar pra onde elas costumam ir de outras maneiras. Adicionar a rima nisso tudo as vezes descontextualiza mais ainda e ver as palavras aos poucos se alinhando na tela me causa um tipo muito específico de satisfação. 

Acho que o conteúdo das poesias mais recentes tem mudado bastante. Acho que tenho mudado bastante também. Tenho percebido a intensidade da rigidez de dentro da minha cabeça e pensado com carinho sobre os lugares onde ela precisa ser quebrada. Tenho tentado mudar meu jeito de fazer as coisas. Não quero mais me abandonar e talvez esteja tentando me permitir um pouco mais o espaço de ser contraditório e controverso e incoerente e complicado. 

Uma placa de censura no meu corpo diz: não recomendado à sociedade. Faço questão de mostrá-la pra todo mundo que aparece, sou um vagabundinho, um malandro, um tipo muito específico de inútil e as pessoas mais alinhadas com a sociedade até me acham engraçadinho no começo e no final dá problema porque no fim das contas essa não é uma piada. Esse é o meu charme, na maior parte do tempo eu não presto pra nada e não quero prestar, não quero ser útil e causo problema. De um jeito ou de outro todas essas coisas são mentira e verdade ao mesmo tempo. Numa parte considerável do tempo não acho nem que da pra saber a diferença entre a verdade e a mentira. É um pouco por isso que tendo a tomar cuidado com as palavras que uso, não gosto de dizer nada que não consiga sustentar. Ao mesmo tempo em que tento me permitir falhar. 

A falha e o fracasso tem sido constantes pra mim nos últimos tempos e acho que é um daqueles movimentos compensatórios. Passei tanto tempo negando em mim a possibilidade de falhar ou de aceitar falhas e fracassos que agora que finalmente me sinto capaz disso por vezes tenho vontade de vestir uma placa no peito onde se pode ler em letras garrafais um gigantesco "eu falho". 





















O fim é o meio.

Dia desses falando com Vicente sobre a minha prática recebi um retorno do qual gostei muito: "Tem um quê de excelência né meu". Acho que tem mesmo. Talvez já tenha ficado claro pra quem lê esses textinhos, eu sou um completo maluco dos significados. Acho que um dos primeiros livros que li inteiros foi um dicionário e gosto de olhar pra linguagem pelas raízes. Se não me engano foi Lacan que escreveu em algum momento que somos moldados pela linguagem e essa é uma coisa na qual acredito profundamente. Gosto de pensar sobre as palavras que são usadas na minha direção e penso bastante sobre as palavras que uso também. 

Acho engraçado como o uso transforma o significado das palavra e como as vezes algumas raízes acabam com múltiplos sentidos. Me alegra perceber a linguagem como uma coisa viva e ter nela uma das minhas melhores companhias. Me divirto com a linguagem mais do que me divirto com qualquer outra coisa, inclusive quando meu único interlocutor sou eu mesmo, talvez mais nesses momentos do que em muitos outros. Amo comunicar, entender o que é comunicado e não é sempre que consigo. 

Volta e meia constato de novo a minha própria burrice e acho que nada nunca me fez tão bem quanto admitir tudo de que não sei. Poder ser burro é um grande alívio e nada me liberta mais do que poder dizer um "não sei o suficiente sobre esse assunto" ou um "sei muito pouco sobre isso". Passei um tempo encarando a vida como uma prova onde eu precisava responder tudo sempre da maneira correta e hoje me alegro em cometer erros. Não quero acertar, quero aprender.

Surpreendentemente, foi quando assumi que era burro que o meu pique de aprender foi aumentando cada vez mais. Sabendo de tudo que não sei me peguei lendo livros introdutórios e assistindo aulas para iniciantes com muito mais humildade, carinho, respeito e atenção. Li algumas biografias de pessoas que admiro e percebi que no começo, ninguém sabe de nada e que o saber surge mesmo na busca por ele. Sei mais hoje do que já soube antes de agora e fico muito feliz sempre que me percebo sabendo. Sinto um tipo muito específico de prazer com o saber e a minha vida mudou profundamente quando deixei de estudar por vontade de acertar e comecei a estudar por vontade de saber. A coisa melhorou bastante também quando aprendi a tratar os saberes como perspectivas e não como verdades. O doutorado do Nick Sousanis mudou a minha vida, sou grato por ele, um quadrinho teórico foi uma coisa muito legal de ler e as ideias daquele livro nunca mais saíram da minha cabeça.  

Tenho exercitado bastante muitas coisas das quais gosto muito e tenho conseguido perceber meus progressos por conta disso. Atualmente tenho separado meus processos de desenho em várias etapas diferentes de treino. Meus focos no momento são o espaço, a materialidade, a iluminação e a organização das cores. Tenho trabalhado um pouco com as linhas também e, mesmo que elas eventualmente sejam cobertas como o resto da estrutura, acho divertido perceber que a presença delas no processo resulta em algumas características de desenho muito específicas. 

As vezes meus amigos discordam de mim quando digo que não vejo a separação entre o desenho e a pintura. A verdade é que quase nunca vejo as separações, já faz um tempo que prefiro integrar ao invés de separar - inclusive quando isso torna tudo muito mais difícil. Gosto das coisas difíceis, gosto de poder dizer que fiz algo difícil, gosto de como me sinto quando faço algo difícil, normalmente a dificuldade exige de mim um estado muito específico de concentração que é um dos meus lugares preferidos e que normalmente só consigo alcançar quando faço algo que ainda tá um pouco fora das minhas capacidades. Ficam aqui alguns dos meus exercícios mais recentes de desenho e imaginação.