Aquele poema sobre se perder na floresta e lembrar que a floresta não está perdida.

 Acho difícil falar das coisas sem contexto e alguns contextos ainda tenho muita vergonha de explicar. Mas a verdade é que sou bastante inseguro com os meus próprios sentimentos. Imagina aqui um pouco daquela ladaia do falso eu do Winnicott e da relação de crianças com experiências traumáticas. Ontem contei pro meu pai que eu não consigo me lembrar de um tempo onde eu vivia sem medo e vergonha de ser eu mesmo e falar o que penso e sinto na frente das pessoas que são importantes pra mim. Fico feliz com o fato de que quando eu contei pro meu pai que estava sendo insuportável pra mim conversar com ele ele escolheu procurar uma analista e se esforçar pra que as coisas melhorassem. Agora a gente mora juntos de novo e tem sido bom. 

É a primeira vez em uns dez anos que eu não tô precisando me sacrificar no altar da sobrevivência e tendo tempo pra tentar descobrir quem eu sou, do que eu gosto, o que eu quero e como unir todas essas coisas. A maior parte dos planos pra esse ano deram errado de novo por circunstâncias externas e um pouco pelas internas também. Tô naquele momento onde consigo perceber as mudanças que quero fazer na minha vida e ainda não consigo trabalhar nelas com consistência. Incompetência consciente da vontade. Foi bonito pra mim quando o Jake disse que o primeiro passo pra ser um pouco bom em uma coisa é ser ruim em uma coisa. 

É a primeira vez na minha vida que me sinto tão consciente de mim mesmo, das cordas que me seguram, dos botões que me movimentam e de como não é sempre a minha consciência que puxa e aperta essas partes de mim. Tem sido difícil pra mim compreender a distância entre o que sou eu, o que é meu e o que é o mundo. A verdade é que eu sou um completo idiota, que cresceu entre idiotas e que por consequência disso fez uma pá de idiotice. A parte boa é que assim como todos os outros idiotas eu ainda sou capaz de aprender e tenho feito o possível pra aprender tanto quanto consigo e me tornar cada vez menos idiota. 

Sinto muito medo e muita vergonha e tenho tentado agir apesar disso. É bastante difícil e não é sempre que consigo. Mas a verdade sobre as coisas difíceis é que elas nunca são impossíveis, elas só exigem uma quantidade de tempo, dedicação e paciência que nem todo mundo pode ou quer investir. Tenho percebido o que cultivo em mim crescendo e dando frutos, ainda são pequenos e poucos e eu sei que se eu continuar crescendo e me desenvolvendo em um ambiente apropriado logo mais vai ter o suficiente pra me empanturrar e ter de sobra. É só continuar crescendo. 


Minha tia me disse que eu sou um sábio.

Com uma frequência maior do que eu gostaria eu sinto que as vezes eu não faço sentido algum e que talvez nada mais faça. A realidade é uma sequência de eventos ilógicos e entendê-los é muito mais uma questão de escolha do que qualquer outra coisa. Talvez eu nunca mais fale em lógica e passe a dizer o que quero apenas em poesia. Morte aos cientistas! Morte à economia! Morte à justiça e ao sentido! Morte a tudo que não seja o que eu desejo, o que eu quero, o que eu imagino e o que eu escolho! E digo isso com a licença poética que me permite dizer isso e ao mesmo tempo dizer que o que eu quis dizer era outra coisa.

Cada vez mais tenho me afastado da procura pela verdade e aceitado que a realidade é outra coisa. Minhas fantasias morreram afogadas e o que resta sou só eu, pelado fora do poço onde roubaram minhas vestes. Agradeço a ladra e saio sem me esconder.